Attack on Titan

Créditos da imagem: Attack on Titan/Reprodução

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Impressões da temporada final de Attack on Titan (que não era tão "final" assim)

A história de como o estúdio MAPPA topou o desafio de encerrar um anime muito querido mesmo com um prazo de produção apertado

Fábio Garcia
05.04.2021
11h38

Pode abrir seu coração: você também foi enganado quando viu que a nova temporada de Attack on Titan tinha como o subtítulo "The Final Season" ("A temporada final" em português), não é? Todo mundo acreditou que veríamos o desfecho da história de Eren e a conclusão de toda a batalha pelo controle dos titãs, mas isso vai ficar só para o ano que vem com uma segunda leva de episódios.

A tal da "temporada final" (ou pelo menos essa sua primeira parte) teve uma série de obstáculos que dificultaram a produção dos episódios, uma troca de estúdio e alguns profissionais chegando em Attack on Titan só agora. Será que essa bagunça toda afetou o produto final?

Até que enfim... o final?

Attack on Titan
Attack on Titan/MAPPA/Kodansha/Divulgação

Attack on Titan (ou Shingeki no Kyojin para os mais afeiçoados ao nome original) é um exemplo de anime que ultrapassou as barreiras do nicho otaku e conseguiu atrair a atenção de um público amplo. Grande parte desse mérito é da primeira temporada do anime, produzida pelo Wit Studio e exibida em 2013, pois ela conseguiu pegar a história criada por Hajime Isayama e melhorá-la por completo.

Se a trama original, publicada em mangá na Bessatsu Shonen Magazine da editora Kodansha, tinha lá seus problemas de narrativa e traço, o Wit Studio lapidou um cristal bruto e criou um dos produtos audiovisuais mais importantes da década. Isso evoluiu tanto que o lançamento de cada temporada era um acontecimento no meio, e imagine a expectativa do público após aquele final da terceira temporada com Eren disposto a entrar em guerra. Mas a expectativa é a mãe da roubada, e nada envolvendo essa temporada final parecia muito fácil.

O Wit Studio queria novos rumos em sua jornada, e esse novo rumo não envolvia o anime dos titãs. De acordo com o produtor Kensuke Tateishi em uma entrevista dada para a revista Newtype, o estúdio queria focar em outras produções e não poderia deslocar seus recursos para Attack on Titan, um anime que exige muita gente. No meio dessa situação, a editora Kodansha precisou ir atrás de um outro estúdio que aceitasse suas condições e topasse produzir a temporada final com pouquíssimo tempo, e assim a série passou a ser produzida pelo MAPPA.

O estúdio é bem avaliados pelos fãs e pela crítica, afinal eles foram responsáveis por Jujutsu Kaisen e The God of High School, mas a pressa é a inimiga da perfeição e sabíamos que a reta final de Attack on Titan estava em risco. A produção estava apertada e muitas críticas foram feitas quando o primeiro trailer foi divulgado.

Além disso tudo, havia algo jogando contra o final da animação: o mangá ainda não havia se encerrado, o que poderia levar a um desfecho inédito e alternativo, um temor para os fãs. Felizmente não foi o caso: a produção da temporada final optou por criar uma "segunda" parte dessa reta decisiva e exibir o final da saga de Eren Yaeger apenas no começo de 2022.

A temporada do MAPPA

Assim como ocorria com o Wit Studio, o pessoal do MAPPA manteve a tradição de entregar um anime muito bem feito e "consertar" algumas características não tão positivas no estilo do autor. Embora seja responsável por um sucesso de vendas, Hajime Isayama tem algumas "limitações" na hora de desenvolver sua história, e muitas vezes o autor se perde no meio da própria grandiosidade e pretensão de Attack on Titan.

A quarta temporada traz uma mudança não só na história, mas também na forma na qual ela é contada. Eren, Mikasa e Armin mal aparecem nos primeiros episódios, que focam no povo de Marley e nos novos personagens Gabi e Falco, dois candidatos a "pilotos" de titãs. Mesmo introduzidos aos 45 do segundo tempo, isso não impede que eles tenham força para conduzir momentos cruciais na história.

Attack on Titan/Reprodução

Além de mostrar o lado dos "soldados inimigos", Gabi e Falco têm uma importante função narrativa, pois eles oferecem à trama política sua "visão adolescente", principalmente agora que o elenco principal envelheceu e mudou de personalidade após o salto no tempo de 4 anos. Nunca é tarde para lembrar que Attack on Titan é um mangá shonen destinado ao público adolescente, então os dois funcionam como a conexão com o público alvo. Sem falar que a própria relação entre Gabi e Falco, uma mistura de desavenças e proteção incondicional, parece uma repetição dos laços entre Mikasa e Eren em boa parte da história.

A abertura já dá "pistas" de como essa temporada tenta um caminho distinto. Em vez de seguir o padrão de ter uma abertura "tradicional" de anime, o MAPPA optou por uma música quase toda instrumental e com ambientação militarista. Tudo é feito com poucos tons, e a cor só começa a aparecer através da fumaça dos tiros e das batalhas que vão sendo mostradas, causando um efeito bem melancólico e bastante condizente com o tema e o momento da história de Attack on Titan.

Como se espera de uma temporada final, a trama alterna momentos de resoluções de mistério, construção de expectativa e momentos de combate. Os poucos capítulos focados exclusivamente em porradaria entregam a ação esperada, e os outros episódios são compententes em preparar o cenário para o conflito seguinte. A história foca em flashbacks mais detalhados de personagens como Zeke Yeager, ou então no resultado de baixas dramáticas no exército dos protagonistas.

A direção dessa vez ficou sob o comando de Yuichiro Hayashi, cujo trabalho também pode ser visto em Dorohedoro e Kakegurui (ambos disponíveis na Netflix). É possível ver como ele trabalhouu bem com a trama original, mesmo com as eventuais limitações na produção, e é possível a direção tentando ao máximo economizar na animação sem que isso afete o resultado final para o espectador. Essas estratégias foram fundamentais para que o MAPPA conseguisse se dedicar às poucas (mas impressionantes) cenas de ação no decorrer da temporada.

Ao contrário do Wit, que utilizava muita animação 2D para os titãs, o MAPPA usou sua expertise para construir os colossos com modelos poligonais. Por sorte ficou um resultado muito positivo, assim como o visto em outros animes do MAPPA feitos em computação gráfica (como o próprio Dorohedoro). Vale destacar também a batalha do primeiro episódio, em que são apresentados alguns novos titãs, e também a luta protagonizada por Eren após o protagonista invadir um palco para declarar guerra.

Mas se há um "novato" na série cuidando da direção, outros campos importantes do anime continuaram na mão de veteranos. A pessoa por trás do roteiro dessa temporada final foi Hiroshi Seko, que já escreveu para todas as temporadas anteriores de Attack on Titan. O músico Hiroyuki Sawano voltou a trabalhar com a trilha sonora, dessa vez ao lado de Kohta Yamamoto (de temporadas recentes de The Seven Deadly Sins).

Attack on Titan/Reprodução

Há uma sintonia muito boa entre esses profissionais, e isso segurou essa temporada final de Attack on Titan. Algumas situações medianas criadas pelo autor no mangá ganharam uma nova camada de qualidade com a trilha sonora, direção de cena e trabalho dos atores de voz, e as cenas ficam realmente muito mais impressionantes do que retratadas na versão em quadrinhos.

Inclusive vale aqui elogiar a dublagem em português, lançada com exclusividade pela Funimation. Se Lucas Almeida continua ótimo como Eren e Diáigelles Riba oferece a interpretação necessária como Rainer Braun, a versão nacional vai além e traz um presentinho aos fãs brasileiros com as participações especiais de YouTubers brasileiros em pontas especiais. Conhecidos por vídeos e críticas sobre Attack on Titan, Gabi Xavier e Leonardo Kitsune tiveram a chance de imortalizar seus laços com o anime emprestando suas vozes para dois personagens secundários.

E o que vem agora?

A primeira parte da temporada final de Attack on Titan encerrou no exato momento em que se iniciaria um conflito de proporções épicas. A história no mangá já está se encaminhando para o fim e o desfecho será lançado no Japão ainda esta semana, então provavelmente o anime vai seguir a história original de Hajime Isayama.

Claro, sempre há a possibilidade da equipe da animação mudar algum detalhe ou então trocar radicalmente o desenvolvimento da trama (como aconteceu com a segunda temporada de The Promised Neverland), mas isso é bem improvável. Agora o jeito é aguardar por um ano para ver no anime o final da história.

Se quiser acompanhar Attack on Titan, as quatro temporadas estão disponíveis na Funimation (com legenda e dublagem em português) e na Crunchyroll (somente com legenda).

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