O otaku precisa superar esse preconceito com anime em 3D

Créditos da imagem: Dragon Ball Super: Super Hero, Beastars, Estab Life/ Reprodução

Mangás e Animes

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O otaku precisa superar esse preconceito com anime em 3D

De tranqueiras como EX-ARM a coisas boas como Beastars, relembre os animes feitos em computação gráfica

Omelete
7 min de leitura
Fábio Garcia
12.05.2022, às 10H33

Embora Estab Life: Great Escape faça parte da atual temporada de animes, quase ninguém está falando sobre a produção. Tudo bem, é um anime no máximo mediano e estamos em uma temporada com outras alternativas excelentes como Dance Dance Danseur e Spy x Family, mas as pessoas nem ao menos se deram ao trabalho de conferir a estreia. O principal motivo? Talvez seja por se tratar de um anime produzido através da computação gráfica.

A forma como diferentes mercados aceitam as facilidades da computação é bem distinta. Enquanto a indústria da animação ocidental abraçou totalmente as séries em CGI, vide as recentes séries de Bob Esponja e Os Rugrats nesse formato, os animes japoneses ainda relutam em entrar de cabeça nesse formato. Parte do problema até podem ser as dificuldades tecnológicas, mas um motivo importante é essa possível aversão que os otakus sentem da animação computadorizada.

2D vs 3D

Se você parar agora um otaku na rua e pedir exemplos de boas animações, muito provavelmente ouvirá nomes como Demon Slayer - Kimetsu no Yaiba, Jujutsu Kaisen e Ranking of Kings. Recentemente houve um estouro de animações deslumbrantes em séries televisivas, e os estúdios perceberam que as famosas “sakugas” (nome dado a esses momentos muito bem animados) repercutem bem entre os otakus. One Piece, por exemplo, mudou toda a sua staff há alguns anos e passou a entregar cenas primorosas desde o começo do arco de Wano. Mas por que quando lembramos de boas animações a gente costuma ignorar os animes em 3D?

Perguntar aos fãs o que acham dos animes em 3D é pedir para receber vários exemplos de produções ruins ou que envelheceram mal. Entre os animes em CGI mais lembrados estão a série derivada de Hokuto no Ken, a adaptação de Ajin e a (infame) versão de Berserk feita em 2016. Esta em especial teve um impacto (negativo) tão grande que rendeu um GIF animado usado à exaustão pelos otakus, mostrando um trecho no qual o protagonista Guts sai de cena com uma animação pouco convincente, como se ele fosse um bonequinho não-articulado sendo movido pela mão de uma criança. Quem vê pensa que não existem bons animes produzidos através da computação gráfica.

A impressão que os otakus têm do 3D nos animes esbarra na utilização ruim do recurso no passado. É muito fácil lembrar de animes que utilizaram a computação gráfica como forma de facilitar alguns momentos difíceis de animar, como é o caso dos rachas de Initial D, mas os que mais ficam na memória dos fãs são aqueles com as CGs ruins: os dinossauros de Dinossauro Rei, os piões de Beyblade e os monstros do obscuro Zoids. Talvez por essa generalização as séries inteiramente feitas através da computação gráfica sejam recebidas com pé atrás por parte dos otakus. É só lembrar como foram pouco celebradas as animações de Knights of Sidonia e Ajin, ambas produzidas pela Polygon Pictures (estúdio também responsável pelo Estab Life citado no começo da matéria)

Não estou aqui militando a causa dos animes em 3D e nem afirmando que todos são bons. Pelo contrário, nos últimos anos tivemos uma quantidade grande de produções que não chegaram nem perto do aceitável, basta lembrar o desastre que foi EX-ARM. Esta série exibida no começo de 2021 (e que fizemos até uma matéria especial aqui no Omelete) teve a proeza de ser assinada por um diretor que nunca fez anime na vida trabalhando com um estúdio sem qualquer histórico com animações. O resultado é um anime que beira o terrível, um ícone sobre como NÃO fazer um anime.

Mas para cada EX-ARM que não dá certo, alguns outros conseguem avançar no quesito tecnologia e entregar algo muito próximo de um anime em 2D. O melhor exemplo desse gênero é Beastars, produzido pelo estúdio Orange. A história original de Paru Itagaki mostra o cotidiano de animais antropomórficos em um colégio, e seria bastante complicado manter a consistência de uma animação, então a saída foi apostar no 3D. O diretor Shin'ichi Matsumi construiu uma mistura muito competente de cenários em 2D com modelos de personagens cuja movimentação emula as “limitações técnicas” de uma produção tradicional. E para não se tornar muito trabalhoso ou caro, personagens pouco importantes foram feitos em 2D tradicional, mas de uma forma que não destoasse dos demais.

O resultado é um anime em que muitas vezes nos pegamos pensando “espera… isso aí é 3D ou 2D?”. O estúdio Orange inclusive é o responsável pelo anime em 3D que muitos consideram a exceção à regra: Land of the Lustrous (ou Hoseki no Kuni, no original). Muitas listas na internet inclusive colocam este como o melhor anime produzido através da computação gráfica, tudo por conta de sua movimentação impecável e personagens muito bem modelados. Enfim os refrescos chegaram para a animação em 3D.

3D ajudando o 2D

E não é como se o otaku rejeitasse totalmente a animação em CGI, pois muito do que consumimos hoje em animação tradicional conta com o auxílio dos computadores. Os tão elogiados efeitos das magias de Jujutsu Kaisen ou de Demon Slayer são feitos através da computação gráfica, e isso porque nem estamos falando que modelos em 3D foram usados em momentos específicos, em cenas de ação e trechos da abertura. E lembra daquela cena impressionante do incêndio no Distrito do Entretenimento na mais recente temporada de Demon Slayer? Saiba que tudo aquilo eram efeitos especiais alcançados através da tecnologia, mostrando que a animação computadorizada está se aproximando ao pouco dos nossos animes.

Nisso percebemos que o principal problema que os otakus têm com a animação em CGI é que os fãs não querem lembrar que estão assistindo a algo em 3D. Por recordarem apenas de péssimos exemplos (olha aí o legado de EX-ARM de novo), muitos fazem vistas grossas para o avanço da tecnologia, que atualmente consegue se aproximar do jeitão dos animes em 2D através de modelos em 3D. Os encerramentos de Pretty Cure, todos feitos em CGI para facilitar a animação das dancinhas, estão cada vez mais impressionantes e mais parecidos com a própria animação em duas dimensões. O próprio estúdio Orange, de Beastars, é a prova viva de como o salto tecnológico tem sido muito rápido. Um dos primeiros trabalhos do estúdio foi na computação gráfica do hoje criticado Zoids. Imagine então o salto de qualidade que podemos ter nos próximos anos!

Após chegar até esse ponto da matéria é normal pensar “mas se é para parecer uma animação em 2D, qual seria a vantagem de fazer em 3D?”, e a resposta é simples. Por usar modelos já prontos, o anime ganharia em consistência (não teríamos mais traços variando de episódio para episódio e nem produções feitas às pressas) e permitiria uma movimentação em cenas de ação que dificilmente encontraríamos em um anime tradicional. O novo filme de Dragon Ball Super, que inclusive ganhou data de lançamento no Brasil, é uma tentativa de levar o visual feito em computação gráfica para essa franquia tão famosa, algo que deve facilitar na hora de se animar os combates ágeis exigidos pela franquia.

É importante lembrar que ninguém aqui está desejando o extermínio dos animes em 2D, ou mesmo que todas as produções sejam feitas por computação gráfica; desejo apenas que o 3D também seja aceito. Será que o 3D, quando realizado em projetos que tenham a ver com a proposta, não poderia ser um formato de animação mais abraçado pelo meio otaku? A resposta para esses questionamentos teremos apenas no futuro, mais próximo do que imaginamos.

Caso tenha ficado interessado em dar uma chance para animes produzidos em computação gráfica, temos aqui alguns bons exemplos. Recomendo BLAME!, Ultraman, Beastars e Hi Score Girl, todos parte do catálogo da Netflix. Se quiser conferir o quão ruim (e involuntariamente divertida) pode ser uma animação em 3D, sugiro dar uma olhadinha em EX-ARM no catálogo da Crunchyroll. E retomando o assunto do começo do artigo, Estab Life: Great Escape está sendo lançado na Crunchyroll e é bastante divertidinho, além de ser uma animação que emula bem o estilo 2D. Vale uma chance.

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