One Piece | Anime supera mangá e transforma guerra de Wano em espetáculo

Créditos da imagem: One Piece/Toei Animation/Shueisha/Reprodução

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One Piece | Anime supera mangá e transforma guerra de Wano em espetáculo

Qual a melhor forma de acompanhar One Piece, será o anime ou o mangá? A fase de Wano pode ter respondido isso

Omelete
7 min de leitura
Fábio Garcia
04.05.2022, às 16H26

Há algumas semanas os fãs de One Piece puderam assistir ao episódio de número 1015 do anime, e a recepção foi acima do esperado. A animação na atual fase de Wano já vem sendo bastante elogiada há algum tempo, mas ninguém esperava um episódio tão deslumbrante. Tamanha qualidade de animação, direção e desenvoltura dos atores de voz só nos fez levantar um ponto não muito popular: talvez o anime seja o melhor formato para acompanhar a guerra de Luffy contra o poderoso Kaido, e não o mangá original.

Nova direção (e a nova forma de contar a história)

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Em meados de 2019 a revista Shonen Jump trouxe novidades sobre o anime de seu carro-chefe. A casa oficial do mangá de One Piece revelou que a versão animada teria uma mudança no staff da produção, a principal delas sendo a inclusão do diretor Tatsuya Nagamine na posição mais importante do anime, a de diretor geral. Tatsuya tem um bom histórico de serviços prestados à indústria do animes dentro da Toei Animation, tendo assinado a direção da segunda metade de Os Cavaleiros do Zodíaco Ômega (a fase que tentou "consertar" o começo fraco) e de Heartcatch Precure, uma das mais celebradas temporadas da franquia Pretty Cure (caso não conheça, temos matéria sobre aqui no Omelete).

Antes escolhido para dar uma guinada na produção do anime televisivo de One Piece, o diretor esteve no comando da fase final de Dragon Ball Super, nos episódios correspondentes ao Torneio do Poder. Incontestavelmente um bom trabalho, Tatsuya trouxe um brilho único para o anime de Goku e seus amigos, entregando lutas muito empolgantes e cenas bastante criativas. Encerrado o projeto de Dragon Ball Super, o diretor foi movido para a produção de One Piece e chegou com a promessa de uma nova identidade, até mesmo visual. Aproveitando que o autor Eiichiro Oda brincou muito com a cultura japonesa no atual arco retratando o país de Wano, os personagens e cenários ganharam traços diferenciados com grossuras variadas, às vezes se assemelhando a pinturas japonesas antigas. Passaram também a ser mais frequentes as belas sequências animadas, chamadas de “sakuga” por parte da comunidade.

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A direção de um anime é uma parte muito importante do processo como um todo, e em One Piece existem características mais complicadas. Por conta da logística, um anime de mangá ainda em publicação precisa manter uma distância segura dos capítulos inéditos, e normalmente a saída inevitável são os fillers. Esses episódios com histórias inéditas e não canônicas funcionam como uma “encheção de linguiça” para o autor conseguir criar novas histórias, e foi assim que animes como Black Clover, Detective Conan ou Naruto conseguiram (e conseguem) se alongar por tanto tempo ininterruptamente.

De uns tempos para cá, One Piece veio com uma proposta de colocar o mínimo de fillers possível. Não se sabe se foi uma decisão artística ou apenas dificuldade de criarem novas histórias nesse universo tão complexo saído da cabeça de Eiichiro Oda, mas isso trouxe um problema na hora de se produzir o anime. Cada episódio num anime de um shonen de lutinha costuma adaptar de dois a três capítulos do mangá e, seguindo a matemática, dá para perceber que a conta não bate para One Piece: como é que eles conseguem ficar sempre distantes do mangá? Simples, cada episódio de One Piece tem sido quase um para um.

A decisão traz muitos desafios pelo próprio formato que os mangás são publicados na Shonen Jump. Cada capítulo semanal na revista tem cerca de 20 páginas, então a Toei e a equipe do anime de One Piece teriam que transformar cada página em cerca de um minuto de animação. Isso seria impossível em qualquer tipo de anime, mas não para One Piece: com o passar do tempo, o Eiichiro Oda foi transformando cada capítulo de seu mangá em uma atração épica de proporções colossais. Usando muitos quadrinhos, detalhes, diálogos enormes e muitas (mas muitas mesmo) páginas duplas para mostrar todos os detalhes da guerra em Onigashima, a direção do anime viu ali uma oportunidade de transformar a enrolação em um complemento à narrativa.

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O tal episódio 1015 foi uma adaptação do capítulo 1000 do mangá, lançado com muita expectativa por parte dos fãs e trazendo um conteúdo quase comemorativo pelas várias décadas da franquia. A história em si do capítulo não teve nada de muito extraordinário e basicamente mostrava Yamato relembrando seu encontro com Ace e depois mostrando Luffy chegando no campo de batalha e se preparando para enfrentar Kaido e Big Mom ao lado de seus aliados. Com tão pouco material original para transformar em um anime de 20 minutos, a equipe comandada pela diretora de episódio Megumi Ishitani precisou desenvolver com mais calma cada um dos acontecimentos do mangá, além de criar novas cenas.

A conversa de Yamato e Ace foi um pouco mais longa e ganhou uma sequência inédita mostrando a relação do sonho de Luffy com o de Gol D Roger. Nesse trecho para lá de emocionante, a equipe abandonou o traço tradicional do anime e produziu uma sequência como se fosse um sonho, levando muitos fãs de One Piece às lágrimas pela delicadeza. A emoção também esteve presente no momento em que Luffy se preparou para usar seu haki, pois o anime criou uma sequência na qual o poder é descrito como um fluxo de energia. Vários flashbacks de momentos chave do Arco de Wano foram exibidos como se fossem eles mesmos o movimento do fluxo de energia dentro do punho do Luffy, culminando em um poderoso golpe contra Kaido.

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Para finalizar, o nome do episódio foi revelado apenas no final, depois de Luffy exclamar seu sonho de ser um rei dos piratas. A cena era tão importante que a equipe da Toei animou a boca do protagonista pronunciando as palavras com bastante fidelidade, em vez de termos apenas uma boca abrindo e fechando. Um resumo para isso: ARTE.

Melhor que o mangá?

Aqui vamos entrar em uma opinião um pouco mais pessoal, mas acredito que as características do formato do anime e do mangá fazem com que a versão animada consiga desenvolver a história de forma mais competente e emocionante.

Comparar a composição de página dos primeiros volumes de One Piece com os atuais é testemunhar não só a evolução de Eiichiro Oda como autor, mas também o quanto sua história e seu universo expandiram. Cresceram a ponto de ser até difícil contar aquela trama em apenas 20 páginas semanais, e Oda se viu obrigado a preencher os quadrinhos com mais detalhes, cenários, personagens, piadas, e criando quadros cuja leitura leva mais tempo do que o normal. Perceba que ler um volume de 200 páginas, recente, de One Piece costuma levar mais tempo que um volume de Jujutsu Kaisen ou de My Hero Academia.

Embora um mangá com mais detalhes seja um prato cheio para produtores de conteúdos e fãs fervorosos, afinal ali há a oportunidade de se ler mais vezes com atenção para encontrar detalhes futuros da história escondidos ali, isso também torna a leitura de One Piece um pouco mais cansativa. Não é uma crítica ao estilo atual de Eiichiro Oda com o mangá, apenas uma constatação das diferenças que foram implementadas na série em quadrinhos nesses últimos quinze anos.

Shueisha/Reprodução/Internet

Por poder contar a história em 20 minutos, o anime se permite criar momentos de respiro para o espectador, ou mesmo adaptar um simples quadrinho do mangá em uma cena completa de alguns minutos. A chegada do grupo dos protagonistas em Onigashima teve muito mais impacto no anime, assim como a morte de Yasuie ou todo o flashback com a vida de Oden, principalmente porque o anime sabe trabalhar bem com pausas e situações nas quais o silêncio é necessário.

O fato do anime ser uma produção audiovisual também ajuda na hora de transmitir a emoção, pois ali temos uma trilha sonora poderosa e a interpretação desses atores de voz que conhecem os personagens há décadas. Somando tudo isso, a cena de Luffy dizendo que quer ser o rei dos piratas acabou sendo muito mais poderosa no anime em comparação aos quadrinhos.

Mesmo melhor, o anime ainda sofre do mesmo “problema” que é a proporção que One Piece se tornou. Quem gostava de aventuras mais contidas e compactas, como na batalha contra Arlong ou mesmo a guerra na Saga de Alabasta, talvez se sinta desorientado em meio a uma história tão grandiosa, com anos de desenvolvimento contínuo. Como se trata de uma característica do autor, o jeito é estar ciente disso tudo e acompanhar com calma a história que ele deseja contar, seja na versão em quadrinhos quanto no anime. De preferência, os dois.

Os episódios recentes do anime de One Piece referentes ao país de Wano são lançados semanalmente pela Crunchyroll, com legenda em português. A série também está sendo lançada desde o começo pela Netflix, com uma (ótima) dublagem em português. Se quiser acompanhar pelos quadrinhos, a editora Panini lança o mangá no Brasil em dois formatos: a versão tradicional está colada com a edição japonesa, e há agora uma republicação 3 em 1 desde o começo. Para acompanhar os capítulos mais recentes (e em português!), o site MangaPlus disponibiliza a história junto do lançamento japonês aos domingos.

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