The Boys é ficção que melhor retrata nossa Era da Pós-verdade

Créditos da imagem: Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Artigo

The Boys é ficção que melhor retrata nossa Era da Pós-verdade

Terceira temporada sai das entrelinhas e deixa clara a falência de sociedades nas mãos de companhias manipuladoras e autocratas - mesmo os sem super-poderes

Omelete
3 min de leitura
15.07.2022, às 14H44
ATUALIZADA EM 10.08.2022, ÀS 09H09
ATUALIZADA EM 10.08.2022, ÀS 09H09

Quando produções de ficção se propõem a retratar fatos históricos recentes, elas correm sérios riscos de ficarem datadas - cito a quinta temporada de This is Us, que usou a pandemia de Covid como pano de fundo, e no ano seguinte viveu como se nada tivesse acontecido. Mas o terceiro ano de The Boys resolveu abusar da contemporaneidade e acertou em cheio, se tornando um documento histórico do momento em que vivemos.

Não que as duas primeiras temporadas da série criada por Eric Kripke tivesse fugido de assuntos espinhosos e reais, como uma nazista no coração de uma grande corporação ou um herói com problemas com drogas, mas neste novo ano, tudo ficou muito mais claro, tudo saiu das entrelinhas, principalmente nas questões políticas.

O principal artífice dessa explicitação narrativa é o Capitão Pátria. Ele sempre foi o grande antagonista da série, mas em vários momentos flertava com o caricato em seus rompantes de loucura. Agora, ele se pôs como a grande mente (e a cara) da manipulação que a Vought e seus supers fazem com a sociedade da série.

O caminho que ele tomou foi o mesmo de vários políticos que assumiram governos até então democráticos e se tornaram autocratas, usando as mesmas artimanhas da chamada “Era da Pós-Verdade” que estamos vivendo. Ele deu um golpe interno na Vought e começou a apontar o dedo para a imprensa livre, por exemplo. Apenas o veículo chapa-branca (da própria companhia) está ao seu lado.

The Boys
Prime Video/Divulgação

Não há como esconder os paralelos com o que os Estados Unidos passaram sob a presidência de Donald Trump. É a referência direta óbvia, mas é uma metáfora que poderia ser transferida para muitos outros países onde autocratas tomaram o poder nos últimos anos e as democracias foram sendo “cupinizadas” por dentro, como Rússia ou Hungria.

E por que eles podem colocar esse tema sem medo de ficar datado? Pois, por mais que Trump tenha sido derrotado, esse é um movimento mundial e que está longe de estar morto, inclusive no próprio Estados Unidos. É uma enorme sombra que paira no país e nada leva a crer que fim está próximo. O presidente anterior pode ter perdido a eleição, mas o Trumpismo segue vivo no país.

The Boys deixa claro esse paralelo com o mundo real em sua cena final, quando Capitão Pátria mata uma pessoa que é contra ele no meio de uma multidão e mesmo assim acaba aplaudido. É quando ele percebe que as leis já não valem para ele. Lembra muito o que aconteceu em Charlottesville em 2017, quando houve uma série de confrontos entre neo nazistas e progressistas e uma pessoa foi atropelada por um radical de extrema-direita e acabou morta.

Agora é esperar para confirmar o poder que Capitão Pátria terá na próxima temporada, depois de cometer uma atrocidade em público (principalmente se Victoria Neuman se tornar vice-presidente dos EUA). Mas se depender de similaridades com a vida real, crimes de viés políticos continuarão acontecendo à luz do dia e as instituições formais continuarão passando pano para os criminosos. A narrativa de The Boys deve ser atual para o mundo por muito anos ainda.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.