Freya Allan como Ciri na série de TV de The Witcher

San Diego Comic Con

Artigo

The Witcher | Até qual ponto dos livros a 1ª temporada adaptará?

Série de TV pode recortar a obra original para criar nova narrativa

Arthur Eloi
21.07.2019
15h47

Com o primeiro trailer divulgado durante a San Diego Comic-Con 2019, a Netflix acalmou os fãs de The Witcher ao mostrar que a série parece estar em bom caminho. Henry Cavill se encaixa no papel do protagonista e a caracterização não decepciona. Porém, para os leitores da obra de Andrzej Sapkowski, algumas dúvidas surgiram: como o programa amarrará os contos, e até onde a trama da primeira temporada irá?

[Cuidado! Spoilers dos livros de The Witcher abaixo]

O vídeo deixa claro que, para o ano um, a produção pretende se focar nos contos do bruxo, antes de chegar nos romances. A decisão é correta, já que essas pequenas histórias definem toda a personalidade e regras do universo da obra, além de apresentar personagens fundamentais para a trama - como Yennefer, Duny e Ciri, cuja relação com Geralt é citada em ambas as coletâneas. A showrunner Lauren S. Hissrich defende o mesmo: "obviamente há algo épico que começa na saga dos livros, mas os contos entregam muita construção de mundo e explicam o que é o Continente, a parte política e também um entendimento do povo. Focamos bastante nisso na primeira temporada", disse à Entertaiment Weekly.

O grande problema é que os contos não têm fortes conexões entre si. Isso é algo que vêm da criação da franquia, já que Sapkowski apresentou Geralt e desenvolveu suas aventuras através de publicações na revista polonesa Fantastyka durante toda a década de 1980. Muito disso se dá pelo bruxo funcionar em uma grande variedade de situações: ele é altamente habilidoso e vende seus serviços tanto para vilas atormentadas por monstros, quanto para a realeza, enfrentando maldições e feitiços. As coletâneas O Último Desejo e A Espada do Destino funcionam quase como procedurais, com cada trama servindo como Casos da Semana para o mutante.

A série poderia tomar essa abordagem, claro, mas o objetivo é chegar à narrativa serializada que se iniciou nas páginas do romance O Sangue dos Elfos, livro de 1994, trazendo para as telinhas a busca de Geralt por Ciri. Dessa forma, a produção precisa montar sua própria linha temporal dos eventos - ou então recorrer a muitos flashbacks.

A Espada do Destino

Ciri é o que mais complica a cronologia do seriado. Enquanto The Witcher 3: Wild Hunt apresentou a personagem adulta nos games, os livros a mostram desde criança. A relação com Geralt, aliás, surge antes disso, quando o bruxo ajuda a família real de Cintra a se livrar de uma maldição e usa a Lei da Surpresa como recompensa, desavisadamente juntando seu destino ao da menina no conto “Uma Questão de Valor”. O trailer confirma que essa história será adaptada, mostrando Geralt (Henry Cavill) defendendo Duny (Bart Edwards) na corte de Cintra.

A trama não deve realmente mostrar a passagem de tempo a partir desse ponto, sendo apenas mostrada para contextualizar a ligação entre os protagonistas. Outros contos então devem ser introduzidos na mesma época mas, como a showrunner reforça que o foco da trama será a união de Geralt, Yen e Ciri, a série deve dar maior foco para histórias com envolvimento do trio, como “Algo Mais”, “O Último Desejo”, entre outras.

Queimando a largada?

Ainda que os contos sejam o ponto de partida, a ideia é eventualmente chegar na trama dos romances. O trailer, por sua vez, levanta dúvidas ao mostrar cenários que só são apresentados muito além do início. Entender o ritmo em que a trama será adaptada é o mais preocupante.

Em uma cena, por exemplo, Ciri caminha por um deserto, que lembra muito Korath, área citada em Tempo do Desprezo. Nos livros isso só ocorre após um massacre em Thanedd, evento fundamental para estabelecer vilões e conflitos dos romances. Como é a Netflix que está definindo o que será adaptado, e não há tanto tempo de tela para mostrar a garota treinando e crescendo com os bruxos em Kaer Mohen, há a grande possibilidade da série simplesmente picotar a obra de Sapkowski e montar algo inédito a partir dos recortes: não é um absurdo pensar que o programa pode fazer algo como colocar a fuga da garota após a queda de Cintra.

Nenhuma adaptação é 100% fiel ao material-base, e isso é a beleza do processo: entender como as histórias usam as vantagens e contornam limitações de cada mídia. Mas é um processo que precisa ser feito com cuidado, ainda mais quando há grande variedade de trabalhos a se inspirar. Resta acreditar que a produção entenda como cada um contribui para o desenvolvimento da trama, personagens e universo - caso contrário, o produto final pode acabar como um verdadeiro Frankenstein irreconhecível.

The Witcher chega ao catálogo da Netflix ainda em 2019, sem data definida até o momento.