O impacto do coronavírus nas séries de TV

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O impacto do coronavírus nas séries de TV

Gravações e estreias foram adiadas e temporada de premiações também pode ser afetada

Camila Sousa
26.03.2020
14h59

A pandemia do coronavírus pegou vários setores de surpresa, incluindo o entretenimento. Enquanto grandes blockbusters como Mulher-Maravilha 1984 e Viúva Negra tiveram seus lançamentos adiados, as séries de TV sofrem com outra questão: a própria finalização das temporadas atuais. Sem previsão de retomar as gravações, muitas produções podem ser encerradas antes ou ter um longo adiamento.

Começando pelo caso das séries em andamento, é possível que muitas delas tenham suas temporadas encerradas com antecedência. Em entrevista para a Vulture, um executivo da área, que não quis se identificar, afirmou: “sendo realista, todas as séries que pararam a produção estão com as temporadas encerradas”. Há vários motivos para isso. O primeiro é que não há ainda uma previsão de quando as gravações serão retomadas e essa incerteza compromete várias coisas, desde o contrato dos atores, até o aluguel de locações.

Supergirl, por exemplo, está em sua quinta temporada, que exibiu o 16º episódio no último domingo (22). Até alguns dias atrás, a produção (que deveria terminar com 22 capítulos) só estava com mais um confirmado na agenda: “Deus Lex Machina”, que iria ao ar no dia 29, mas foi adiado por tempo indeterminado. Fica claro, então, que a série, assim como acontece com as novelas no Brasil, ainda estava gravando sua temporada. 

Pensando pelo melhor cenário, de que a pandemia vai melhorar rapidamente e as gravações poderão ser retomadas, ainda fica a dúvida se os custos para trazer astros e equipe de volta e preparar as locações se justifica para fazer apenas cinco episódios. Com o adiamento por tempo indeterminado do último capítulo que está pronto, medida seguida também por Batwoman, fica a impressão de que a CW vai editar tal material para que ele sirva como um season finale antecipado, fechando todas as narrativas possíveis e deixando como gancho o que ficar em aberto. 

O caso mais grave neste sentido é o de Supernatural. A série dos irmãos Winchester está em sua temporada final. Ou seja, o capítulo que encerra a história para sempre ainda não foi feito. Neste caso, dificilmente a CW seguirá o exemplo de Supergirl em encerrar a temporada diferente do planejado. O mais provável é que a série pare no capítulo 19 e faça seu finale no futuro, que pode ser lançado como um episódio especial ou até mesmo um filme para a TV com duração maior. Essa foi a escolha da AMC para The Walking Dead.

Com a 10ª temporada no ar, a produção já tinha terminado as gravações principais, mas ainda precisava finalizar a pós-produção, com efeitos visuais, sonorização, etc. Esse trabalho pode ser feito pela equipe à distância, mas leva mais tempo do que no set. Assim, o canal preferiu encerrar a temporada no capítulo 15 e o episódio 16 será lançado em algum momento do ano como um especial. 

Streamings e adiamentos

No caso dos serviços de streaming, a preocupação é principalmente para o futuro. Plataformas como a Netflix costumam gravar suas produções de uma vez para lançar a temporada já completa ao público. O mesmo acontece com a HBO, que transmite atualmente a já finalizada Westworld. Porém, essas empresas podem ter problemas com a temporada seguinte, que está com a produção parada agora.

No caso da Netflix, uma das maiores perdas é com Stranger Things. A equipe tinha acabado de começar a leitura de roteiro quando a pandemia começou. Ou seja, a 4ª temporada ainda não foi feita e, com a incerteza sobre o tempo, dificilmente ela chegará ao streaming no começo de 2021, conforme o planejado. Como o elenco principal é formado por jovens que crescem a cada dia, também não será surpresa se a história da temporada precisar ser alterada para se adequar a este crescimento.

O mesmo acontece na HBO com com Euphoria, série de Zendaya que também estava na fase de leitura de roteiro. A produção que fez grande sucesso em 2019 não tinha uma data certa para voltar, mas essa incerteza é ainda maior agora. Falando sobre o Disney+, ainda não disponível no Brasil, o maior atraso será nas séries do MCU: Falcão e o Soldado Invernal, Loki e WandaVision. Todas tinham suas estreias previstas entre o final de 2020 e 2021 e agora é praticamente impossível que a Marvel mantenha esse calendário. Lembrando que, no caso de WandaVision, o adiamento pode afetar também o cinema, já que sua história está diretamente ligada com Doutor Estranho 2, marcado para maio de 2021. 

Premiações e próxima temporada

Com o adiamento de gravações e exibições, as premiações de TV também foram afetadas. A campanha de FYC (For Your Consideration, “para sua consideração” em tradução livre) começou em 29 de fevereiro. Segundo a Variety explica, é comum que canais façam eventos e painéis para divulgar as produções aos votantes, mas tudo foi paralisado na segunda semana de março. Assim, a divulgação das séries aos prêmios pode seguir outros caminhos, como os digitais, e o site até questiona se a situação não vai nivelar um pouco mais as chances de produções e canais pequenos, que terão o mesmo espaço dos demais.

O Emmy Awards, a maior premiação da televisão, segue agendado para o dia 20 de setembro, mas só o tempo e a evolução da pandemia poderão dizer se essa data será mantida ou não. O mesmo vale para a próxima temporada de séries. Nos EUA, as produções costumam ser encerradas em meados de maio e junho e retornam com episódios inéditos entre setembro e outubro. No entanto, tudo depende que os canais possam retomar gravações nos próximos meses. 

Falando ao Hollywood Reporter, um executivo da área que preferiu não se identificar, não descartou que a próxima temporada comece só em janeiro e seja menor durante 2021, para ajustar o calendário. Outro impacto direto disso são nas novas produções. Antes de estrear uma série, é comum que canais façam apenas o episódio-piloto como um teste, que pode ou não ser aprovado. Com a incerteza do futuro, é possível que a aposta em materiais novos diminua e que as empresas usem 2021 como um ano para “colocar as coisas nos eixos”, antes de voltar a produção com tudo em 2022.

Qualquer que seja o caminho de agora em diante, a indústria de TV americana (e também brasileira, com as novelas) será afetada como nunca antes. O público sentirá os efeitos de cancelamentos e temporadas mais curtas e talvez demore um pouco para a televisão retomar o bom desenvolvimento que teve nos últimos anos. O que resta a todos, fãs e equipes, é esperar que os tempos de incertezas passem logo e que as únicas dúvidas para o futuro sejam quais serão as novidades e pilotos da próxima temporada.