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Como os adiamentos e cancelamentos por causa do coronavírus afetarão Hollywood

É evidente que a indústria terá um prejuízo bilionário, mas há consequências graves para além da esfera econômica

Mariana Canhisares
19.03.2020
13h49
Atualizada em
24.03.2020
10h08
Atualizada em 24.03.2020 às 10h08

Antes que você se desse conta, o noticiário da cultura pop foi invadido por uma avalanche de informações relacionadas à pandemia do coronavírus ao redor do mundo. A princípio, foram anúncios pontuais de adiamento de estreias, uma resposta à gravidade da situação na China, um dos principais mercados consumidores das produções hollywoodianas. Porém, conforme astros como Tom Hanks e Idris Elba começaram a se juntar às estatísticas de casos confirmados, e a contaminação tomou de fato uma escala global, suspensão de gravações, cancelamento de eventos e atraso de lançamentos se tornaram cotidianos.

Como resposta, as redes sociais de atores, diretores e demais membros da indústria passaram a ser atualizadas com orientações sobre como se prevenir contra o COVID-19 - ou, simplesmente, como se distrair em tempos de quarentena. Terry Crews, por exemplo, ensinou seus fãs a lavarem as mãos ao som de "I Will Survive". Já Max Brooks e seu pai Mel Brooks ilustraram a importância do distanciamento social com um vídeo divertido. Ashley Tisdale, por sua vez, sugeriu que todos aprendessem a coreografia de “We’re All in This Together” para se exercitar durante o isolamento. Fato é que mesmo quem não queria se informar sobre o coronavírus foi impactado pela reação da indústria à pandemia.

Em outras palavras, é inegável a gravidade do cenário, assim como as consequências para a saúde e o bem-estar das pessoas. Mas, em uma situação como esta, em que todos estão em casa e as produções para a TV e o cinema paralisadas, Hollywood não será afetada apenas agora. Os efeitos dessa crise global serão sentidos meses depois de superarmos o coronavírus.

Olhando meramente sob o ponto de vista econômico, o cenário é de muitos prejuízos. Com o avançar da doença, algumas gigantes do entretenimento sentiram os efeitos da crise praticamente em tempo real. Calcula-se que, nas últimas três semanas, a Disney tenha perdido aproximadamente US$ 85 bilhões em capitalização de mercado, ou seja, a estimativa do valor de mercado da empresa conforme o preço das suas ações caiu praticamente um terço. A desvalorização das ações da Casa do Mickey foram tão significativas que o analista Bernie McTernan, da Rosenblatt Securities, acha possível que grandes companhias de tecnologia, como a Apple, se interessem em aproveitar o momento para comprar a empresa (via Hollywood Reporter).

A decisão de adiamento dos lançamentos nos cinemas, por sua vez, afeta a expectativa de faturamento do mercado para o ano. No final de janeiro, quando a China era a principal afetada, registrando 2877 casos confirmados e 82 mortes (via El País), projetava-se uma possível queda de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões na bilheteria mundial, de acordo com o Hollywood Reporter.

Estes atrasos, em alguns casos por tempo indeterminado, criam ainda um nó no calendário de lançamentos e afetam em alguma medida as premiações. Embora a fase de seleção dos indicados ao Oscar ainda demore para acontecer, o início da temporada de apresentação dos potenciais candidatos já foi impactada com o cancelamento do SXSW e o adiamento do Festival de Cannes e outros tantos eventos de cinema. A situação é contornável, é verdade, sobretudo se os festivais marcados para o segundo semestre, como os de Veneza e de Toronto, ocorrerem conforme o planejado. Em resumo, só o tempo - e a eficácia do combate à pandemia - dirá.

Há ainda de se considerar que, com as gravações de longas paralisadas, cria-se um conflito futuro nas agendas dos astros, que costumam estar comprometidos com trabalhos anos a frente. Logo, os estúdios terão que fazer um verdadeiro malabarismo se quiserem manter tanto seus talents, quanto seus cronogramas de lançamentos. Como isso será possível também não está claro.


A Hollywood à mercê

Enquanto uns terão que lidar com o excesso de oportunidades, outros lidam hoje com um cenário de completa escassez. Com tantas paralisações e a orientação do distanciamento social, cabeleireiros e maquiadores, por exemplo, de repente se viram sem trabalho. Muitos, inclusive, não receberam pagamento pelos trabalhos cancelados desde o agravamento da pandemia.

Algumas produções se ofereceram para pagar os membros do sindicato por um período, que varia de dois dias a duas semanas, mas de acordo com o Hollywood Reporter nenhuma delas deu garantia de remuneração até que os trabalhos sejam de fato retomados.

O desemprego se tornou uma realidade também para muitos outros trabalhadores da indústria que, diferentemente de diretores e profissionais em altos cargos, costumam ganhar pouco e por hora, sem ter o direito a convênio de saúde ou receber por dias afastados por doença, ou seja, uma situação mais precária antes mesmo do coronavírus. Neste cenário de pandemia, há um esforço por parte de alguns estúdios e emissoras, é verdade, assim como os governos estaduais e federal do Estados Unidos têm tomado medidas para prestar assistência aos trabalhadores. Mas, de modo geral, o clima é de muita preocupação entre os profissionais que atuam na base da estrutura da indústria.


E no Brasil?

A pandemia do coronavírus é também uma realidade no Brasil. No momento em que esse texto foi escrito, eram mais de 500 casos confirmados da doença no país, com quatro mortes apenas no estado de São Paulo. Diante deste cenário grave, o governador paulista João Dória (PSDB) recomendou o fechamento de shoppings até o dia 30 de abril, medida que afeta também as grandes redes de cinema. Na capital paulista, os cinemas de rua também anunciaram a suspensão das suas atividades, seguindo a orientação do governo do estado que se aplica ainda a museus, teatros e casas de show.

Medida semelhante também foi adotada pelo governo do Rio de Janeiro, que anunciou a suspensão de todos os eventos, fossem shows, peças de teatro ou exibição de filmes, por pelo menos duas semanas, valendo a partir da última sexta-feira (13). Não obstante, pela primeira vez na história o país não terá a estreia de qualquer longa nesta quinta-feira (19).

Como acontece em Hollywood, as gravações das novelas da Globo foram interrompidas para garantir a segurança de seus funcionários e a emissora anunciou a saída de programas importantes da grade, como o Mais Você e o Globo Esporte, para privilegiar a cobertura jornalística sobre a pandemia. Até mesmo o reality show Big Brother Brasil foi usado como plataforma de conscientização, com o apresentador Tiago Leifert recebendo um médico infectologista para informar os participantes da situação no mundo, recomendar as medidas preventivas e hábitos de higiene adequados e tirar as principais dúvidas.

No mundo da música, turnês internacionais que passariam pelo país em março e abril, assim como o festival Lollapalooza Brasil, também foram adiadas.

O impacto econômico do coronavírus ainda é difícil de mensurar com precisão. De acordo com análise prévia revelada pelo Ministério da Economia na semana passada, a pandemia deve implicar em uma queda de -0,10 pontos percentuais no PIB (Produto Interno Bruto), em um cenário mais otimista. A expectativa mais extrema, por sua vez, aponta uma queda de -0,66 p.p. Estes valores, vale notar, dizem respeito a todos os setores da economia, e não apenas à área de cultura.

Porém, ainda mais significativo pode ser o impacto na vida da população brasileira. Por isso, é importante que você se informe sobre as recomendações do Ministério da Saúde e dos governos do seu estado e município. De um modo geral, evite aglomerações, sobretudo se você é parte do grupo de risco, isto é, se você tem uma doença crônica e ou é idoso. Ainda que você não se encaixe nestas características, se possível, fique em casa e não se esqueça de lavar as mãos com frequência, usar o álcool gel e higienizar áreas e objetos usados por muitas pessoas, como maçanetas.

Caso você tenha febre e outros sintomas, como tosse e falta de ar, vá a um hospital. Mas em um cenário em que você só apresente sintomas leves, como coriza, ligue para o 136 e receba orientações de profissionais. Assim, você evita se expor a eventuais pessoas que de fato tem a doença.

Para saber mais sobre o coronavírus, você pode consultar o aplicativo do SUS (Sistema Único de Saúde), que fornece todas as informações sobre a pandemia. Ele está disponível para Android e para iOS.

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