Atrás dos mitos, The Walking Dead termina abraçando o western

Créditos da imagem: Reprodução/Image Comics

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Atrás dos mitos, The Walking Dead termina abraçando o western

HQ chega ao fim e se firma como uma parábola moral que segue temas e regras do gênero

Marcelo Hessel
04.07.2019
16h40

The Walking Dead inscreveu seu nome na história do gênero dos zumbis, partindo da matriz de George A. Romero, mas ao fim de suas 193 edições a série se identifica mais com o western - seus temas, suas regras, seus mitos - do que normalmente se assume. Mirando no futuro do pós-apocalipse, TWD volta ao passado do faroeste para refazer as fundações morais da civilização.

Embora Robert Kirkman tenha encerrado a HQ de surpresa, o final já começava a despontar quando Rick decidiu que Negan não seria executado, e sim preso por seus feitos. Sempre organizada em torno da renovação de ameaças, The Walking Dead também se construiu à base de novos e sucessivos marcos civilizatórios - o que ficou mais claro com Negan lá pela altura da edição 126. O faroeste se consolidou como gênero no cinema da mesma forma: levar a civilização ao Oeste americano é o grande tema que paira sobre filmes diversos, seja tratando do julgamento justo numa briga por terra, na defesa dos mais fracos numa disputa de poder ou simplesmente na manutenção da ordem diante de uma ameaça selvagem ou fora da lei.

A jornada de The Walking Dead também pode ser fracionada em torno desses marcos: resguardar a humanidade quando os zumbis dominavam, reorganizar a sociedade sem tirania, restabelecer a lei quando o vale-tudo virava norma. Cabe ao herói mítico do western - o portador da justeza moral, o cavaleiro tragicamente solitário - testemunhar e encabeçar esses marcos. Esse herói é um tipo deslocado no espaço e no tempo, é o andarilho sem lar, que carrega consigo valores antigos que a velocidade da modernidade atropelou. É por isso que Kirkman realiza na edição 193 um salto temporal e isola o personagem principal na fazenda; esse recurso serve ao mesmo propósito do coma vivido por Rick Grimes lá no começo da série. O que faz de Rick o herói do faroeste não é sua estrela de xerife, mas sua sina, o isolamento, o senso de despertencimento.

Quando o desfecho da história de Rick remeteu ao destino de dois célebres presidentes progressistas dos EUA, Abraham Lincoln e JFK, a construção do mito já estava plenamente estabelecida dentro da HQ, e no mais o faroeste tradicional não pode ser separado da formação da identidade dos Estados Unidos como nação. Isso dá a The Walking Dead um caráter moral definitivo, e Robert Kirkman não se furtou a reabilitar valores conservadores no caminho, como sugerir que filhos criados sem pai são, dentro de The Walking Dead, uma receita potencial para o desastre.

Essas escolhas fazem sentido dentro do projeto de usar zumbis para narrar uma parábola moral de justiça, culpa, remorso e penitência. Assim como Romero, que usou seus mortos-vivos para falar de direitos civis e consumismo nos filmes que definiram o gênero, Kirkman liga os anos Bush aos dias de hoje quando aborda na HQ questões como Estado de terror (no arco dos Sussurradores) e violência policial (na fase Commonwealth). Sua ambição é a do registro histórico, totalizante, e a evocação dos mitos do faroeste não poderia ser mais literal para enformar tudo isso; Kirkman lembra do tempo dos colonos na cena da revoada de pássaros e enche a história de reminiscências do gênero: a fazenda, o circo de bizarrices, os trilhos rumo ao Oeste.

Se tem alguma coisa que parece desproporcional ou deslocada aqui é essa decisão de seguir um pequeno grupo no apocalipse mas ao mesmo tempo fazer parecer que esse grupo - personalizado na figura de Rick Grimes - tem todo um protagonismo na refundação da América religada de Leste a Oeste. Aliás, olhando em retrospecto, é curioso que a mais ousada digressão da série de TV em relação à HQ - a investigação da infecção, no Centro de Controle de Doenças de Atlanta - tenha ocorrido quando Frank Darabont, e não Kirkman, ainda ditava as regras na adaptação. Nos quadrinhos, TWD nunca almejou esse relato macro, de fora pra dentro (Existe cura? E o governo? Os governos?). O pequeno núcleo dramático permaneceu inalterado ao longo dessas quase 200 edições, sempre pensado de dentro pra fora - o mundo se organiza a partir daquele grupo de sobreviventes, não importa o tamanho das comunidades que Rick e companhia encontrassem ou formassem no caminho.

É por isso que a HQ frequentemente pareceu uma novela de pequenas causas, embora tratasse no fundo da refundação da sociedade. The Walking Dead termina como uma história épica metonímica, de novo, evocando outra regra dos westerns: assumindo que o mundo inteiro está contido nas dinâmicas de uma cidadezinha de fronteira, o todo pela parte, e dos atos e dos destinos dessas pessoas desimportantes depende a ordem e a firmação desse mundo.