Cena de Beleza Americana (1999), do diretor Sam Mendes

Créditos da imagem: Beleza Americana/Divulgação

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De Beleza Americana a 1917: A trajetória de Sam Mendes no Oscar

Cineasta não é indicado ao prêmio em 20 anos mas sempre se manteve ativo, seja no cinema ou teatro

Arthur Eloi
24.01.2020
12h13
Atualizada em
24.01.2020
12h56
Atualizada em 24.01.2020 às 12h56

Por 1917, Sam Mendes é um dos diretores mais prestigiados no Oscar 2020. Seu épico de guerra tem 10 indicações, mesmo número que Era Uma Vez… em Hollywood e O Irlandês. O cineasta pode não ter tanto nome quanto Quentin Tarantino ou Martin Scorsese, mas essa sequer será sua primeira passagem na cerimônia. Mendes já foi indicado - e premiado - em 2000 por seu primeiro longa como diretor, Beleza Americana (1999). Mas o que Sam Mendes andou fazendo nos últimos 20 anos?

Por mais que tenha ficado de fora da grande premiação, o cineasta britânico nunca ficou parado. Beleza Americana foi um sucesso enorme com US$356 milhões na bilheteria mundial e cinco estatuetas (Melhor Filme, Ator, Diretor, Roteiro, Fotografia), o que foi um bom pontapé na sua carreira em Hollywood. Alguns anos depois, em 2002, retornou com Estrada para Perdição, adaptação da graphic novel de Max Allan Collins sobre máfia e vingança. O elenco até hoje impressiona, com Tom Hanks, Daniel Craig, Jennifer Jason Leigh, Paul Newman, Jude Law, Ciarán Hinds, Stanley Tucci e Tyler Hoechlin. A arrecadação foi sólida (US$181 milhões), as críticas foram positivas, e o filme teve seis indicações ao Oscar, vencendo na categoria de Melhor Fotografia.

Após isso o cineasta só retornou em 2005, quando brincou com a ideia de explorar os efeitos da guerra nos militares em Soldado Anônimo - algo que voltaria a fazer muitos anos depois com 1917. Adaptação da obra de Anthony Swofford, a produção discute a mente de um soldado (Jake Gyllenhaal) durante a Guerra do Golfo, inspirado no estilo textual de Samuel Beckett. O longa marcou sua primeira colaboração com o icônico cinematógrafo Roger Deakins (Blade Runner 2049), mas a recepção foi morna quando comparada com trabalhos anteriores, com US$96 milhões de bilheteria mundial. Isso pode ter afastado um pouco o diretor das telonas, cujas duas obras seguintes - os dramas Foi Apenas um Sonho (2008) e Distante Nós Vamos (2009) - só vieram após anos de hiato e não tiveram muito impacto (ainda que críticas melhores). Naquele ponto, com um histórico de produções menores e tom melancólico, Mendes não era conhecido por comandar blockbusters, e é isso que tornou surpreendente ele topar assumir um filme da franquia 007 em 2012.

O diretor não decepcionou. O terceiro filme da fase de Daniel Craig foi aclamado pelas atuações, ação e fotografia, realizada por Deakins. O público respondeu bem, com arrecadação mundial de US$1,1 bilhão - a maior de toda a franquia 007 até hoje. Assim ficou estabelecido que Mendes consegue sim comandar produções épicas, e a mudança de estilo também foi boa para o cineasta: “Eu estava meio para baixo, sem muita perspectiva, e sentia que estava me repetindo”, falou sobre sua carreira ao The Guardian em dezembro de 2012. “Fiz Skyfall para me colocar em alerta, me despertar”. Na época, a fala era para representar como não queria retornar ao comando de outro capítulo da saga, mas mesmo assim voltou em 007 Contra a Spectre (2015), que só ficou levemente abaixo de Skyfall em recepção crítica e bilheteria (US$880 milhões).

Ter dois sucessos de altíssimo nível e retorno financeiro deu a Mendes a chance de arriscar: iria fazer um filme que combinasse tanto sua experiência dramática e intimista das suas primeiras obras, com a ação de larga escala dos projetos recentes. Assim surge 1917. A ambientação são os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, mas a narrativa foca na missão de dois soldados em meio ao caos. Mesmo que dê espaço ao espetáculo do conflito - em plano-sequência brilhantemente ilustrado por Roger Deakins, em sua quarta colaboração com o diretor -, a obra soa bastante pessoal ao realizador. Coescrita pelo cineasta, a trama é inspirada nos relatos de Alfred Mendes, seu avô veterano da Grande Guerra. Há também uma preocupação em não deixar que o evento pare de ser lembrado e discutido: “Após o centenário da Primeira Guerra, senti que havia perigo de que estava sendo esquecida, e já estava fora da consciência popular”, contou ao /Film. A combinação parece ter vingado, já que o híbrido entre drama e ação de 1917 é muito bem avaliado pela crítica mundial, já foi prestigiado como Melhor Drama no Globo de Ouro e tem tudo para se sair muito bem no Oscar. 20 anos depois de Beleza Americana, Sam Mendes pode novamente roubar a cena na grande premiação do cinema.

E durante os hiatos?

Olhando sua carreira, fica claro que as produções são espaçadas. O que o cineasta faz em todos esses anos entre um filme e outro? Teatro. Na verdade, os palcos são muito mais presentes em sua vida do que as telonas. Antes mesmo de Beleza Americana, durante o começo da década de 1990, Mendes já era conhecido no circuito britânico por dirigir a atriz Judi Dench em West End (a Broadway de Londres). Aliás, não é exagero dizer que o que abriu portas para ele no audiovisual foi essa experiência: seu primeiro projeto como diretor foi um telefilme de Cabaret, musical que comandou ao vivo durante 1993 e 1994 na Inglaterra, e mais tarde em Nova York no ano de 1998.

Essa relação se manteve viva mesmo após estourar no cinema. Entre Estrada para Perdição, Soldado Anônimo e sua passagem pela franquia 007, ele intercalou montagens inglesas e norte-americanas de Gypsy, a peça italiana The Lehman Trilogy e até mesmo uma versão musical de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Isso só se dá porque Mendes vê a produção teatral como terapêutica: “Teatro é para onde eu quero voltar quando me sinto exausto e desgastado pelo cinema. Sou sortudo de transitar entre os dois, mas o teatro é para onde eu sempre voltarei”, falou ao podcast Variety Stagecraft [via MSN]. “Consigo me imaginar dirigindo peças até meus 80 anos de idade, mas não consigo me ver comandando filmes por tanto tempo”.

Essa experiência toda se mostra em 1917, que é conduzido em plano-sequência, algo que exige bastante preparo e ensaio. “Eu definitivamente usei as mesmas habilidade”, falou à Vox. “Tinha que ter controle de ritmo, andamento e tempo, sem cortar. E é isso que se faz o tempo todo no teatro. Estou acostumado a contar história de duas/duas horas e meia sem pausas [...] O filme é uma estranha mistura de cinema e teatro”.

A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira a cobertura completa do Omelete no site e as redes sociais.