Como assistir Beleza Americana pós-era Me Too

Créditos da imagem: Beleza Americana/DreamWorks/Divulgação

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Como assistir Beleza Americana pós-era Me Too

Kevin Spacey marcou clássicos do cinema que se tornaram mais difíceis de assistir após acusações de assédio

Julia Sabbaga
08.09.2019
10h00
Atualizada em
06.09.2019
17h59
Atualizada em 06.09.2019 às 17h59

Há 20 anos, Sam Mendes marcou sua estreia na direção de um longa em Beleza Americana, um drama que, assim como outros de 1999, tratava da busca por um significado maior na vida e focava na fragilidade masculina. Feito em um Estados Unidos pré-11 de setembro e antes de discussões de representatividade tomarem o holofote, o longa segue relevante por levar à tela uma série de questões existenciais que sempre serão atuais. Mas em 2019, ele traz uma questão mais delicada do que suas complexidades: Kevin Spacey como protagonista.

O vencedor do Oscar por seu papel em Beleza Americana foi afastado de Hollywood após uma série de acusações de assédio sexual que começaram em 2017, quando o ator Anthony Rapp alegou ter sido vítima de um comportamento inapropriado de Spacey quando tinha 14 anos. O protagonista de House Of Cards foi então retirado da série da Netflix e substituído no longa Todo o Dinheiro do Mundo, de Ridley Scott. À medida que diversas novas acusações surgiram, inclusive da equipe do Old Vic, teatro em que Spacey servia como diretor artístico, o ator foi oficialmente abandonado por sua agência. As vítimas chegaram a receber apoio Gabriel Byrne, colega de elenco de Spacey em Os Suspeitos, que revelou que a produção do longa teve que ser interrompida na época porque o ator mantinha um comportamento sexual inapropriado.

Spacey não é um ator qualquer. Seu talento sempre esteve associado à representação frequente de um tipo particular de personagem: homens odiáveis e carismáticos. Desde assassinos envolventes a presidentes psicopatas, Spacey tinha tanto um dom, quanto uma inclinação especial por este tipo de figura, o que sempre torna a experiência de revê-lo um possível desconforto. Mas Beleza Americana é um caso à parte. No longa, Kevin Spacey interpreta um homem na crise de meia-idade, que se torna obcecado pela amiga de sua filha, de 16 anos.

O tema de Beleza Americana

Beleza Americana foca em Lester Burnham (Spacey) mas traz uma coleção de personagens complexos, desde sua esposa (Annette Bening), viciada em carreira e aparência, a filha insegura (Thora Birch), o vizinho perturbado (Wes Bentley) e seu pai, um rígido Coronel do exército (Chris Cooper). As relações entre cada um dos personagens, que circundam a crise de Lester, criam situações que se aprofundam em diversos aspectos da humanidade, tornando de Beleza Americana um filme quase impossível de definir. Ele toca em temas de existencialismo, a vida do subúrbio americano, satisfação pessoal e falta de significado, sexualidade, homofobia, materialismo e diversas outras camadas da vida.

Assim como Clube da Luta ou Magnólia, lançados também em 99, Beleza Americana traz a ideia central de busca por um significado maior, algo que é ambicionado por todos os personagens do seu próprio modo. Enquanto Lester encontra seu caminho despertado pelo desejo, sua filha caminha se libertando das pessoas que favorecem aparência acima de tudo, e o vizinho interpretado por Cooper teme seu auto-descobrimento e se reprime. As jornadas são exploradas, até certo modo, como sintomas do aprisionamento das aparências do sonho americano. Isso é representado por Sam Mendes de diversos jeitos, sendo os mais explícitos a presença constante das cores da bandeira americana e os quadros em que Lester é colocado através de grades:

Kevin Spacey Pós-Me Too 

A questão atualmente delicada de Beleza Americana é que, ao tratar de tudo isso, o filme tem um olhar poético sobre as maiores crueldades de Lester. Ele vê beleza em suas traquinagens, e encontra uma magia única em sua personalidade, por mais odiável que seja. Ainda mais delicado, possivelmente, é a faceta sexual do longa. Cada uma das problemáticas dos personagens tem relação com sexo. Seja pela repressão, pela falta, pela inserção ou pelo encontro, a família Burnham e seus vizinhos são representados em sua relação com o sexo repetidas vezes. Talvez por isso, assistir a luxúria de Kevin Spacey em Beleza Americana seja especialmente inquietante.

Para intensificar ainda mais o caso, Spacey ganhou um Oscar pela sua performance em Beleza Americana e o discurso feito pelo ator na cerimônia, hoje em dia, tem um tom certamente diferente: “Eu amei interpretar Lester porque nós testemunhamos suas piores qualidades e ainda aprendemos a amá-lo. Este filme, para mim, é sobre como qualquer ato de uma pessoa, retirado de contexto, é condenável. Mas a alegria deste filme é a beleza real”.

O discurso de Kevin Spacey pode ser entendido como uma minimização das atitudes de Lester e ressoa como um depoimento sobre sua própria conduta. Esta é a sua opinião sobre Beleza Americana, o seu entendimento pessoal, mas o filme não depende dele. Não é a sua visão, seu testemunho ou sua tese. Beleza Americana é o trabalho conjunto do roteirista Alan Ball e do diretor Sam Mendes. A performance de Kevin Spacey – apesar de admirável – não faz do filme o que ele é. E não separar o ator da obra de um conjunto de pessoas, principalmente em uma produção tão relevante, soaria como um desperdício.

Beleza Americana é muito mais que Kevin Spacey. Seus significados, planos e metáforas, diálogos, e as performances inesquecíveis de Anette Benning e Chris Cooper seriam injustamente deixadas para trás se o legado do longa fosse minimizado pelas más ações de um indivíduo. “É inevitável pensar ‘ótimo, agora temos uma mancha neste filme’”, comentou Thora Birch ao THR. “Mas isto não deveria ser refletido no filme. Quem tem culpa? Kevin. E isso não tem nada a ver com Beleza Americana”.

O movimento Me Too e as alegações de assédio que vieram à tona nos últimos anos marginalizaram diversos nomes, mais proeminentemente Harvey Weinstein e Kevin Spacey, sempre usados como exemplos, que certamente não retornarão a trabalhar na indústria, pelo menos não tão cedo. A tentativa de transição da indústria cinematográfica para um lugar menos tóxico é definitivamente saudável, mas ela também é nova. O público ainda está se acostumando esta experiência. Como é lidar com o legado de Michael Jackson após as acusações de abuso? O que fazer com as produções da Miramax, a filmografia de Woody Allen, as piadas de Louis C.K? Estas são perguntas que estamos começando a fazer, e aprendendo a lidar. Mas é fato que, no caso de Kevin Spacey, seu legado é a atuação na obra de outros. E por isso, talvez seja mais fácil aceitar e apreciar o resultado final.

“Acho que é trabalho de alguém como eu, que fez parte de Beleza Americana, tentar lembrar a todos que uma comunidade inteira trabalhou neste filme. Nós todos amamos. E, no final das contas, isto não tem nada a ver com Kevin”, concluiu Birch. Por isso, testemunhar a atuação de Spacey em Beleza Americana talvez seja um outro exercício do público, um que ainda estamos aprendendo a fazer: a separação da atuação de um artista e sua vida privada, pelo bem do legado dos outros.