Cena de 1917, filme de Sam Mendes

Créditos da imagem: 1917/Divulgação

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1917 | O que é um plano-sequência e qual o seu valor para o Oscar

Conheça a técnica usada no épico de guerra de Sam Mendes

Arthur Eloi
21.01.2020
14h04
Atualizada em
22.01.2020
10h33
Atualizada em 22.01.2020 às 10h33

A ação, ambientação e fotografia já fazem de 1917 é um ótimo filme por si só, mas muito da discussão - especialmente na temporada premiações como o Oscar - se dá pela sua técnica cinematográfica. O diretor Sam Mendes conduz seu épico da Primeira Guerra Mundial como se fosse um único plano-sequência, um termo cada vez mais comum em Hollywood. Mas o que realmente significa?

Um plano-sequência é um take único em que a ação se desenvolve de forma fluida, sem cortes. Isso pode ser criado tanto nas filmagens, quanto na edição, através da junção de vários planos longos, com cortes sutis e mascarados para não atrapalhar a sensação de unidade, como é o caso de 1917. Enquanto muitas produções recentes testaram a técnica, a ideia vêm do fim da década de 1940 pelo diretor Alfred Hitchcock. A narrativa de seu filme, Festim Diabólico (1948), se passa toda em tempo real, o que é reforçado pela linguagem visual.

Mas nem mesmo o Mestre do Suspense fez algo inteiramente contínuo, dando o exemplo de como esconder os cortes através do uso de sombras, objetos na frente da câmera ou telas pretas. Isso, claro, não significa que não há filmes inteiramente rodados em um único plano-sequência. A lista é mais curta do que a de projetos que só criam a ilusão de continuidade, e geralmente são projetos menores, mais experimentais e do cinema estrangeiro.

Mas qual o valor de um plano-sequência para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas? A técnica, quando bem utilizada, representa toda a força colaborativa que o audiovisual precisa para brilhar. Fazer um filme com cortes já é incrivelmente difícil. Antes do diretor gritar “ação!”, cada cena é exaustivamente ensaiada para testar fotografia, iluminação, atuação e movimentação entre o elenco e os operadores de câmera - processo chamado de blocking. Dependendo da complexidade do take, uma única cena pode levar um dia todo para funcionar. Rodar a obra toda em um único plano - ou em uma combinação de vários takes longos - é pegar todo esse estresse e levar a outro nível.

Todos os departamentos da produção precisam estar em perfeita harmonia, conscientes dos rumos que a trama seguirá, de como transitar pelo espaço dos cenários, como mascarar os equipamentos e também como incorporar improvisos e pequenos acidentes ao projeto. É um processo de readaptação momentâneo, que pede precisão cirúrgica dos realizados e organização nos orçamentos, locações, sets e cronogramas . Como diz o jornalista Jason Schreier, é como tentar pilotar um trem em alta velocidade enquanto outra pessoa posiciona os trilhos na frente. A metáfora de Schreier é originalmente sobre desenvolvimento de games, mas também é bastante válida aqui. Portanto, as premiações costumam apreciar bastante os cineastas empenhados o bastante para criar arte através de uma técnica tão caótica e estressante. Felizmente, os resultados costumam impressionar - tanto público quanto crítica - e dar voz única à produção.

A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira a cobertura completa do Omelete no site e as redes sociais, e veja abaixo alguns exemplos de planos-sequência do cinema e da TV!

Abertura de 007 Contra Spectre (2015)

O filme não se propõe a ser inteiramente em plano-sequência, mas a abertura mostra que o diretor Sam Mendes já flertava com a ideia. Vale observar como a técnica introduz a premissa e ambientação. Pela movimentação de câmera apenas, duas figuras mascaradas - uma de terno escuro e outra de terno branco - são apresentadas, o cenário de festa é destacado e a geografia do local também é explorada pela mudança de andares. Quando James Bond (Daniel Craig) se apoia no parapente para assassinar um alvo, o espectador já tem noção de tudo que está acontecendo - sem o uso de muitas palavras.

Birdman (2014)

O Oscar valoriza bastante um filme em plano-sequência. O melhor exemplo disso é Birdman, que levou o prêmio de Melhor Filme em 2015. O longa de Alejandro Iñárritu explora a vida de um ator (Michael Keaton) que não consegue fugir da sombra de seu passado, representando o caótico cotidiano do teatro através de um take único. Bom citar que, assim como 1917, não é realmente gravado em uma, mas sim cheio de cortes bem escondidos.

Desejo e Reparação (2007)

Cenas grandiosas têm muito a ganhar em um plano-sequência, e a prova disso é Desejo e Reparação. O filme de Joe Wright conta com uma cena de cinco minutos, sem cortes, que mostra a dimensão de um acampamento aliado durante a Segunda Guerra Mundial. É um trabalho impressionante de design de produção e figuração.

Filhos da Esperança (2006)

Outra boa utilização são para momentos de intensidade. A cena acima, de Filhos da Esperança, demonstra o potencial: a continuidade do take eleva a tensão da sobrevivência e o peso do conflito.  

Mr. Robot - S04E09 (2019)

Planos-sequência já não são só utilizados no cinema. A televisão, na verdade, é que anda fazendo bom uso da técnica. De Mr. Robot (acima), até True Detective, Demolidor A Maldição da Residência Hill, o formato episódico e baixo custo por episódio permite que cineastas explorem os mais variados tipos de linguagem a cada semana.