Oscar

Lista

30 filmes que explicam o Oscar

Abrindo a temporada, relembramos longas que marcaram a história da premiação

Omelete
21 min de leitura
25.02.2024, às 21H56

Algumas datas comemorativas, como o Halloween e o Natal, ganharam seu espaço no Omelete com listas de produções que traduzem a essência dessas celebrações nas telas. Agora, nada melhor do que focar em um momento marcante não só para os cinéfilos como para a cultura pop em geral: o Oscar.

Para entrar no clima da cerimônia, que acontece em 10 de março, preparamos uma lista com filmes que explicam um pouco mais sobre a história, as categorias e até mesmo as vitórias e derrotas na premiação.  Confira abaixo a nossa seleção de 30 filmes que explicam o Oscar.

*A lista será atualizada diariamente a partir de hoje (10) até o dia da cerimônia.

Central do Brasil

Cena de Central do Brasil (Reprodução)
Cena de Central do Brasil (Reprodução)

Para abrir o nosso aquecimento para o Oscar, a única escolha possível seria com um dos filmes brasileiros que mais marcou a premiação (principalmente na categoria de Melhor Atriz): Central do Brasil

A história do Brasil no prêmio começou há muito tempo, quando Ary Barroso se tornou o primeiro brasileiro a ser indicado pela Academia, em 1945. Mas foi em 1962 que o Brasil conquistou a sua primeira indicação a Melhor Filme Estrangeiro, com o clássico O Pagador de Promessas. Desde então, inúmeras produções brasileiras tentaram conquistar seu lugar na premiação, com O Quatrilho (1995) e O Que é Isso, Companheiro? (1997) concorrendo na categoria de produções internacionais – mas foi Central do Brasil, em 1999, que abriu os olhos do mundo para o nosso cinema.

O longa dirigido por Walter Salles se tornou um marco na história da sétima arte, dando um impulso considerável ao mostrar que produções nacionais deveriam ter o seu espaço no circuito mundial. Até hoje, Fernanda Montenegro é a primeira e única atriz brasileira a ser indicada a um Oscar na categoria de Melhor Atriz, e sua derrota para Gwyneth Paltrow (por Shakespeare Apaixonado) é debatida até hoje. Fernanda pode até não ter levado o prêmio, mas sua indicação serve pelo menos como prova de que ela é, e sempre será, uma das maiores atrizes que já existiram.

Onde assistir? Disponível no Globoplay.

Shrek

Cena de Shrek (Reprodução)
Cena de Shrek (Reprodução)

Sim, Shrek não poderia ficar de fora dessa lista - afinal, o longa dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson foi o primeiro a vencer a categoria de Melhor Animação no Oscar. 

A história do ogro começou a ser desenvolvida em 1995, com uma ideia inicial bem diferente da que assistimos, com um Shrek que viveria em um lixão perto dos humanos. Em 1998, um software de animação próprio foi utilizado para criar os personagens, juntamente com programas envolvendo CGI e locações reais, que deram mais realismo à produção. 

Com mais de 275 pessoas trabalhando incessantemente durante 4 anos, a animação se tornou um marco na história do cinema por sua qualidade visual, versatilidade e também pelos temas abordados em seu primeiro longa. Apesar de disputar a categoria com Monstros S.A. e Jimmy Neutron, era inegável a popularidade de Shrek dentro e fora da Academia. Sua relevância continua até hoje, como uma das franquias animadas mais amadas por diversas gerações. 

Onde assistir? Disponível no Prime Video, Netflix, Globoplay e mais.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

Cena de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (Reprodução)
Cena de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (Reprodução)

Nada como um recordista para atiçar nossa curiosidade, né? O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei coroou a trajetória vitoriosa da saga de Peter Jackson no Oscar - após A Sociedade do Anel vencer quatro estatuetas, e As Duas Torres levar mais duas, o terceiro longa adaptado dos livros de J.R.R. Tolkien dominou a cerimônia de 2004 ao faturar nada menos do que 11 Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção para Jackson. É uma marca só igualada por outros dois longas na história da premiação: Ben-Hur em 1960 e Titanic em 1998.

O recorde de O Retorno do Rei é mais impressionante, talvez, por se tratar de um filme de fantasia, um daqueles gêneros tradicionalmente ignorados pelo Oscar. Sagas como Star Wars, Star Trek e Harry Potter apareceram pouco ou nada nas listas da Academia com o passar das décadas, enquanto filmes isolados e aclamados, como Avatar, O Labirinto do Fauno, O Tigre e o Dragão, A Invenção de Hugo Cabret e até o clássico O Mágico de Oz chegaram a faturar estatuetas técnicas, mas passaram longe das categorias principais.

O Retorno do Rei é uma das pouquíssimas exceções a essa regra (outra é A Forma da Água, que venceu melhor filme em 2018), e dá para entender o porquê: a produção refinada comandada por Jackson, aliada à força narrativa extraordinária do desfecho da saga de Tolkien, criou uma daquelas obras cuja primazia se torna simplesmente inegável - até por quem costuma se esforçar bastante para negar.

Onde assistir? Disponível no Prime Video e na HBO Max.

... E o Vento Levou

Cena de ...E o Vento Levou (Reprodução)
Cena de ...E o Vento Levou (Reprodução)

A 12ª edição do Oscar foi um banquete para quem é apaixonado por cinema: O Mágico de Oz trazia um respiro para os fãs de musicais; No Tempo das Diligências se tornava um dos maiores clássicos do gênero western; Ninotchka nos brindava com uma atuação divertidíssima de Greta Garbo. Mas somente um filme marcaria a história da premiação (para o bem e para o mal) e não poderíamos deixar de citá-lo - afinal, ele é …E o Vento Levou.

A adaptação do livro de Margaret Mitchell era um prato cheio para os votantes da Academia. Tendo como pano de fundo a Guerra da Secessão, a história acompanha a mimada Scarlett O'Hara (vivida por Vivien Leigh) tentando se reerguer ao lado da família durante o período de confronto entre o Sul e o Norte dos EUA. Com um drama melódico e atuações marcantes, a produção levou 8 das 13 indicações que recebeu. Contudo, a maior e mais importante dessas vitórias foi o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a levar a estatueta para casa. 

Apesar de ter sido consagrada com o prêmio, a vitória foi um tanto agridoce. Era inegável a alegria da atriz, porém, Hattie foi obrigada a sentar em uma mesa segregada durante a cerimônia e afastada de seus colegas brancos. Foram cerca de 50 anos até outra atriz negra conquistar a estatueta, quando Whoopi Goldberg levou por Ghost - Do Outro Lado da Vida. Se alguma coisa mudou nos dias atuais? A resposta é não: apenas cinco mulheres negras venceram como Atriz Coadjuvante, e só Halle Berry conquistou o prêmio na categoria principal. Apesar de movimentos como #OscarsSoWhite virem a tona nos últimos anos, inúmeros filmes protagonizados e dirigidos por pessoas pretas foram deixados de lado para premiar longas de qualidade questionável, mas que foram feitos por brancos. 

Onde assistir? Disponível na HBO Max.

Infiltrado na Klan

Cena de Infiltrado na Klan (Reprodução)
Cena de Infiltrado na Klan (Reprodução)

Se há alguém com bons motivos para ter ranço da Academia do Oscar, este alguém é Spike Lee. Há muito tempo reconhecido como um dos talentos definidores do cinema dos EUA, o cineasta nunca venceu uma estatueta de direção ou de melhor filme, e antes de Infiltrado na Klan tinha recebido indicações somente em roteiro (por Faça a Coisa Certa) e documentário (por Quatro Meninas). Para piorar as coisas, o clássico absoluto Faça a Coisa Certa ficou de fora da lista de melhor filme em 1990, ano em que o Oscar consagrou o controverso (para dizer o mínimo) Dirigindo Miss Daisy.

Infelizmente, as décadas que se passaram entre 1990 e 2019, ano em que Infiltrado na Klan concorreu a seis Oscars, não trouxeram tantas mudanças assim. Diante da oportunidade de finalmente reconhecer Lee por um dos melhores trabalhos de sua carreira, a Academia escolheu… Green Book: O Guia, mais um filme feito por artistas brancos que aborda o problema do racismo de maneira rasa e pontificadora. Lee saiu com a estatueta de melhor roteiro adaptado, a primeiríssima de sua carreira, mas foi uma vitória amarga.

Isso sem nem considerar que o filme é uma mistura astuta de suspense e sátira sobre um policial negro (John David Washington) que, com a ajuda de um colega judeu (Adam Driver), se infiltra na organização racista Ku Klux Klan para frustrar um atentado terrorista. É uma obra que testemunha a vitalidade de Lee, e que merecia muito mais reconhecimento do que recebeu.

Onde assistir? Disponível no Telecine e no Prime Video.

Sinfonia de Paris

Cena de Sinfonia de Paris (Reprodução)
Cena de Sinfonia de Paris (Reprodução)

Se você achou que nossa lista não traria alguns musicais, sinto informar que Sinfonia de Paris é só o primeiro! Em 96 anos de história, apenas 10 musicais levaram a estatueta de Melhor Filme para casa, e todos eles contribuíram para que tanto a premiação, como o cinema, abrisse portas para a genialidade do gênero.

Dirigido por Vincente Minnelli, o filme protagonizado por Gene Kelly foi o primeiro musical filmado em cores a ganhar na categoria principal, além de outras cinco estatuetas em categorias técnicas. A parceria entre Minnelli e Kelly foi uma importante contribuição para que os musicais atingissem seu ápice nos anos 1950, e foi com Sinfonia de Paris que a dupla conseguiu elevar o triunfo do imaginário sobre o real do gênero e transportar o público para um lugar mágico.

A sequência final do filme é algo à parte: misturando pinturas de Toulouse-Lautrec, Renoir e mais, cenários deslumbrantes pintados a mão e figurinos que parecem ter vida própria, a cena de quase 17 minutos ininterruptos de dança é uma mais bonitas e memoráveis do cinema. Até hoje, o filme é aclamado por vários diretores e referenciado em diversas produções, incluindo o recente La La Land - que, de acordo com o próprio diretor Damien Chazelle, é uma ode a um dos maiores musicais do cinema.

Onde assistir? Disponível para aluguel no AppleTV+.

O Exorcista

Cena de O Exorcista (Reprodução)
Cena de O Exorcista (Reprodução)

Você já se perguntou quantos filmes de terror já venceram o Oscar? A resistência entre os votantes da Academia ao gênero é bem antiga, mais precisamente desde 1932, quando O Médico e o Monstro recebeu apenas 3 indicações ao prêmio (com vitória única para Fredric March, em Melhor Ator). Mas, em 1973, O Exorcista traria ainda mais discussão sobre a falta de inclusão do horror na premiação.

Foi graças ao filme dirigido por William Friedkin que a premiação indicou – pela primeira vez – uma produção de terror para a categoria de Melhor Filme. No caso de Exorcista, o filme concorreu em um total de 10 categorias: Diretor, Design de Produção, Fotografia, Edição e também nas categorias de atuação, com as performances brilhantes e devastadoras de Ellen Burstyn, Jason Miller e Linda Blair. A obra-prima de Friedkin, porém, conquistaria apenas duas estatuetas, uma em Melhor Roteiro Adaptado e a outra em Melhor Som.

É interessante notar que mesmo com toda a aclamação, e sendo um dos gêneros mais populares, o horror continuou sendo deixado de lado quando se trata da Academia. Na história, apenas outros cinco conseguiram a mesma façanha de chegar na categoria principal do prêmio, com uma vitória de O Silêncio dos Inocentes. Mesmo que inúmeros longas de terror fossem extremamente merecedores de conquistar uma vaga na categoria, sempre foi claro que o tema seria ignorado pelos votantes. 

Aos poucos, algumas produções mais recentes até conseguiram furar a bolha dos votantes, que celebraram (ainda que minimamente) longas como Corra!, de Jordan Peele. Mas como ignorar atuações como a de Toni Collette em Hereditário? E o que espera os amantes de horror nos próximos anos? A perspectiva até pode não ser tão boa, mas esperamos que, no mínimo, o trabalho de quem faz bons filmes de terror seja reconhecido como deve.

Onde assistir? Disponível na HBO Max.

Cidade de Deus

Cena de Cidade de Deus (Reprodução)
Cena de Cidade de Deus (Reprodução)

Se Central do Brasil abriu caminho para o cinema brasileiro nas categorias principais do Oscar com a indicação de Fernanda Montenegro a Melhor Atriz, Cidade de Deus terminou de chutar a porta ao ser lembrado pela Academia em Melhor Direção (Fernando Meirelles), Melhor Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani), Melhor Fotografia (César Charlone) e Melhor Edição (Daniel Rezende). Detalhe: isso tudo aconteceu no Oscar 2004, um ano depois de Cidade de Deus ser esnobado pela Academia enquanto representava o Brasil na corrida de Melhor Filme Internacional (na época, ainda chamado de Estrangeiro).

O retorno triunfal do longa de Meirelles e Kátia Lund se deve em parte à campanha agressiva da Miramax, que distribuiu Cidade de Deus nos cinemas dos EUA, mas também ao impacto cultural inegável que o filme foi acumulando durante o ano que se seguiu ao seu lançamento. Premiado em dezenas de festivais, e citado frequentemente por veículos de imprensa internacionais como um dos melhores e mais inovadores filmes de todos os tempos, Cidade de Deus entrou vernáculo pop do mundo todo, e a Academia agarrou a chance de celebrar as conquistas - especialmente as técnicas - do filme e pegar um pedacinho dessa popularidade para si.

20 anos depois do seu lançamento, olhar para Cidade de Deus e seu sucesso é agridoce - afinal, o Brasil nunca conseguiu replicar o êxito do filme no Oscar, muito menos em termos de impacto internacional. Por outro lado, o legado social do filme continua sendo reavaliado pelas pessoas envolvidas nele e pelos moradores das comunidades que ele representa, uma vez que o retrato pop das favelas proposto por Meirelles e Lund nunca foi unanimidade. Para saber mais, acesse nosso especial dos 20 anos de Cidade de Deus.

Onde assistir? Disponível na Netflix e no Globoplay.

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Cena de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Reprodução)
Cena de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (Reprodução)

Nunca um filme tão “fora da caixinha” foi tão bem-sucedido no prêmio da Academia - e o mesmo vale quando falamos de ficção científica. Com sete vitórias ao todo no Oscar 2023, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção (Daniels) e Melhor Atriz (Michelle Yeoh), Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo foi o passo mais ousado que a Academia já deu para tentar provar a sua vitalidade e relevância dentro do contexto do século XXI. Há quem entenda (inclusive, a gente aqui no Omelete) esse aceno à contemporaneidade como um movimento cínico, mas é inegável que Tudo em Todo o Lugarentrou na história do Oscar.

Melhor ainda: fazia muito tempo que um filme tão bom não saía como o principal vencedor da noite mais importante do cinema estadunidense. Com impulso pop irrefreável, os Daniels misturam referências do cinema asiático para construir uma história pulsante de família e resistência ao niilismo que ressoa ainda mais em um mundo diretamente pós-pandemia de COVID-19. Era o filme que precisávamos, que ainda precisamos, e que provavelmente vamos continuar precisando enquanto conseguirmos continuar adiando a nossa extinção.

Ah, e já estava mais do que na hora de Michelle Yeoh ser contemplada com uma estatueta que simbolizasse as décadas de trabalho excepcional que ela vinha fazendo, seja no cinema de ação de Hong Kong ou em papéis coadjuvantes (que frequentemente não a mereciam) em Hollywood. Apenas a segunda mulher não-branca a vencer o Oscar de Melhor Atriz, mais de duas décadas depois de Halle Berry levar por A Última Ceia, Yeoh representa o que a Academia pode fazer de melhor: dar respaldo ao trabalho de gente que vai utilizá-lo para fazer mais arte singular e excelente, e legitimar o espaço ocupado por gente que não tem esse espaço garantido na indústria.

Onde assistir? Disponível no Prime Video.

Branca de Neve e os Sete Anões

Cena de Branca de Neve e os Sete Anões (Reprodução)
Cena de Branca de Neve e os Sete Anões (Reprodução)

Há muito tempo atrás, quando a Academia ainda não possuía uma categoria dedicada apenas para as animações, um conto de fadas baseado na história dos Irmãos Grimm abriria portas para um mundo de possibilidades. Branca de Neve e os Sete Anões não só se tornou o primeiro longa animado da Disney, como deu o pontapé para que filmes animados também conquistassem o seu momento no Oscar.

Para criar o primeiro longa-metragem de animação dos EUA – e vale dizer que o primeiro totalmente a cores no mundo –, foram necessários cerca de 750 artistas criando mais de 2 milhões de esboços, com um resultado de 250 mil desenhos para a criação do filme. Se tudo isso soa absurdo para você, saiba que o pioneirismo da animação não parou por aí. Foi graças a Branca de Neve que inúmeras técnicas de animação começaram a ser utilizadas pelos animadores americanos, como é o caso da rotoscopia. Para criar expressões e movimentos, o estúdio usou modelos vivos, tanto de humanos como de animais, para dar ainda mais movimento e naturalidade para cada um dos personagens.

Toda essa inovação fez com que Walt Disney conquistasse seu lugar na animação americana, e também fez com que o filme fosse indicado na categoria de Melhor Trilha Sonora no Oscar de 1938. No ano seguinte, Disney conquistou um Oscar honorário um tanto “diferenciado”, onde recebeu uma estatueta do Oscar de tamanho normal e mais sete estatuetas em miniaturas. Hoje, é impossível pensar em animação sem lembrar dos grandes sucessos do estúdio, mas também é impossível não falar sobre o amor e a insistência de tantas outras pessoas do ramo para que produções como Shrek, Toy Story, Pinóquio, e tantas outras pudessem se tornar parte da história do cinema.

Onde assistir? Disponível no Disney+.

Mad Max: Estrada da Fúria

Cena de Mad Max: Estrada da Fúria (Reprodução)
Cena de Mad Max: Estrada da Fúria (Reprodução)

Outro gênero pouquíssimo celebrado pela Academia do Oscar é a ação. A última vez que um longa que se aproximou francamente da porradaria venceu a estatueta de Melhor Filme foi Operação França, em 1972 - e nós jamais pensaríamos em desmerecer o clássico de William Friedkin, mas é bizarro pensar que nenhum dos grandes feitos do cinema de ação foram reconhecidos pela maior premiação de Hollywood desde então. Quem teve mais chance de quebrar essa “maldição” foi George Miller e seu inescapável Mad Max: A Estrada da Fúria, que dominou o diálogo sobre cultura pop em 2016 e chegou ao Oscar com nada menos do que 10 indicações, incluindo em Melhor Filme e Melhor Direção.

Mas o dia da cerimônia chegou, e no fim das contas a Academia preferiu o protocolar Spotlight - Segredos Revelados para o prêmio principal da noite, relegando Estrada da Fúria às categorias técnicas. É verdade que foram seis estatuetas ao todo, um número impressionante, incluindo uma vitória surpresa (e muito bem-vinda!) em Melhor Figurino para a incrível Jenny Beavan. Mas reduzir o longa de Miller aos seus muitos méritos técnicos é típico de uma Academia que dificilmente consegue enxergar méritos dramáticos em filmes que ousam ir além de certos parâmetros arbitrários - e, honestamente, meio burros - de gênero e tom.

De qualquer forma, a performance arrasadora de Charlize Theron como Furiosa fez a personagem entrar para o rol das mais marcantes da história do cinemão hollywoodiano - e não é uma esnobada do Oscar que vai mudar isso. Com uma prequel acelerando na direção dos cinemas ainda este ano, a franquia guiada pela visão revolucionária de Miller fica eternizada muito além dos livros de registro da Academia.

Onde assistir? Disponível na HBO Max.

O Silêncio dos Inocentes

Cena de O Silêncio dos Inocentes (Reprodução)
Cena de O Silêncio dos Inocentes (Reprodução)

Já falamos aqui sobre O Silêncio dos Inocentes ser o único longa de terror a levar o Oscar de Melhor Filme, mas a obra de Jonathan Demme tem outra marca importante. Junto com Aconteceu Naquela Noite (1935) e Um Estranho no Ninho (1976), ele completa o trio de filmes que venceram todas as cinco categorias principais do Oscar em seu ano - a saber: Melhor Filme, Melhor Direção (Demme) Melhor Atriz (Jodie Foster), Melhor Ator (Anthony Hopkins) e Melhor Roteiro (no caso, Roteiro Adaptado, para Ted Tally).

É um feito raro não só porque atesta a dominação cultural do filme no ano em que foi lançado, como também porque diz algo sobre quão multifacetada é sua excelência. O Silêncio dos Inocentes adapta o livro de Thomas Harris sobre o serial killer Hannibal Lecter (Hopkins, em uma das performances mais curtas já premiadas na categoria principal) e a detetive Clarice Starling (Foster, que venceu seu segundo Oscar antes dos 30 anos de idade), que se unem para investigar os assassinatos do terrível Buffalo Bill.

A tensão implacável impressa por Demme, junto à densidade do texto de Tally, que confronta a fascinação por serial killers e o machismo do mundo policial ao mesmo tempo e com integridade, fazem de O Silêncio dos Inocentes um dos thrillers de investigação fundacionais do gênero. E não é todo filme que dá papeis tão marcantes para protagonistas de dois gêneros, a ponto de consolidar suas carreiras daquela forma definitiva que pouquíssimos outros astros e estrelas do cinema conseguem - a partir de O Silêncio dos Inocentes, não importava mais o que Hopkins e Foster fizessem: eles sempre teriam lugar no panteão de Hollywood.

Onde assistir? Disponível no Prime Video.

Pantera Negra

Cena de Pantera Negra (2018)
Cena de Pantera Negra (2018)

Os filmes de super-heróis têm uma história mais longa no Oscar do que o público costuma achar - a primeira indicação veio em 1941, quando um curta-metragem de animação do Superman perdeu a estatueta da sua categoria para o Mickey, enquanto o primeiro prêmio veio em 1978, quando o Superman (de novo!) de Christopher Reeve levou um Oscar especial de efeitos visuais, antes mesmo da criação de uma categoria para o trabalho dos artistas de CGI. Batman (1989) venceu um Oscar de Melhor Direção de Arte, Homem-Aranha 2 (2004) ganhou Melhores Efeitos Visuais, O Cavaleiro das Trevas (2008) levou Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger, Esquadrão Suicida (2016) ganhou Melhor Maquiagem & Penteado, e por aí vai.

A categoria de Melhor Filme, no entanto, seguiu intocada pelas produções do gênero até o Oscar 2019, quando Pantera Negra se apoiou em sua relevância sociocultural e na excelência do diretor Ryan Coogler para chegar à indicação na categoria principal da noite. Foi uma das sete nomeações do longa, que saiu da noite do Oscar com três estatuetas técnicas (as merecidíssimas Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora) - ainda a maior contagem para um filme do gênero, ultrapassando inclusive as duas vitórias de Coringa, que recebeu 11 indicações ao Oscar alguns anos mais tarde.

A história recente dos super-heróis no prêmio da Academia fala muito mais sobre a luta da premiação para se manter relevante para o público, e diante das mudanças financeiras de Hollywood, do que sobre a qualidade das produções. Dentro da miopia típica do Oscar, Pantera Negra e Coringa se legitimaram o bastante como “obras de prestígio” para chegar às categorias principais, enquanto outras produções que se apoiam com mais força no cinema de gênero ficaram de fora. É um cabo de guerra que continuará no futuro.

Onde assistir? Disponível no Disney+.

Chicago

Cena de Chicago (Reprodução)
Cena de Chicago (Reprodução)

Chicago não foi o único responsável pelo retorno dos musicais aos holofotes de Hollywood – até porque Moulin Rouge! teve um impacto maior no público do que o longa de Rob Marshall –, mas é impossível não relembrar a importância do primeiro musical a ganhar o Oscar de Melhor Filme desde 1968.

A história de Roxie Hart e Velma Kelly conquistou doze indicações ao Oscar, e trouxe um frescor ao gênero, que não necessariamente era mais uma ode a finais felizes. Com o sucesso de Chicago, que levou seis Oscars para casa, produções como Os Miseráveis, Sweeney Todd, Dreamgirls, La La Land e mais foram vistas com outros olhos pela premiação, sendo finalmente valorizadas pelas suas contribuições para o cinema.

Embora o público moderno ainda tenha resistência quanto aos filmes que são interrompidos por canções, a deslumbrante extravagância das músicas, danças e figurinos de Chicago fazem com que o espectador se sinta parte de uma grande fanfarra. E ainda consiga cantar junto e recuperar o fôlego para a próxima grande apresentação. 

Onde assistir? Disponível na Netflix.

Asas

Cena de Asas (Reprodução)
Cena de Asas (Reprodução)

Essa lista não seria a mesma sem o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme: o épico de guerra Asas, de William A. Wellman. Lançado originalmente em 1927, a produção foi reeditada em 1928 com som sincronizado, que misturava música e efeitos sonoros de acordo com cada uma das cenas.

E a razão pela qual o filme se tornou o primeiro vencedor da premiação é bem clara, graças ao seu pioneirismo nas questões técnicas e no realismo ao filmar os combates aéreos. Centenas de pilotos e soldados do exército americano se envolveram nas gravações do longa, tanto para supervisionar como participar de sequências específicas, dando a receita de um dos sets de filmagem mais grandiosos da época.

Além disso, o filme estrelado por Clara Bow, Buddy Rogers e Richard Arlen é referência até hoje no quesito edição, equipamentos e fotografia, sendo amplamente referenciado em centenas de filmes e séries ao longo dos anos. Aliás, uma das cenas mais marcantes do filme é quase uma dádiva técnica onde, com a ajuda de uma câmera presa a um trilho invertido, vemos uma tomada ininterrupta de um café, que passa por vários clientes até chegar na felicidade hipnotizante do protagonista.

Apesar de ter sido um tanto ofuscado por ter sido lançado no mesmo ano de O Cantor de Jazz, conhecido como o primeiro filme falado da história, foi graças a Asas que o lado técnico do cinema foi reconhecido pela primeira vez. Sem ele, nenhum filme de Christopher Nolan, Martin Scorsese ou qualquer outro diretor de prestígio atualmente conseguiria criar momentos tão vívidos e marcantes.

Onde assistir? Disponível para aluguel e compra no AppleTV+.

Os Infiltrados

Cena de Os Infiltrados (Reprodução)
Cena de Os Infiltrados (Reprodução)

Foi difícil escolher apenas um filme de Martin Scorsese para figurar na nossa lista de produções que explicam o Oscar, mas no fim das contas a escolha não poderia ser outra além de Os Infiltrados, longa que deu o primeiro (e único) prêmio de Melhor Direção ao cineasta. O drama policial que acompanha um jovem oficial se infiltrando na máfia irlandesa nos EUA se tornou um sucesso entre o público já na época de seu lançamento, e contava com um elenco de peso, com Leonardo DiCaprio, Jack Nicholson, Matt Damon, Mark Wahlberg, entre outros.

Com personagens extremamente complexos e dúbios, performances avassaladoras e uma tensão crescente, o filme é uma aula para o gênero, principalmente na forma como transpõe a tensão para o espectador. É literalmente impossível ficar parado no sofá enquanto se assiste ao filme, seja pela narrativa incômoda, seja pela forma como nenhum dos personagens é confiável e nunca se sabe o que é certo ou errado. A brincadeira de "gato e rato" que Scorsese orquestra em seu filme é envolvente e deliciosa, afinal, você nunca sabe quando o jogo pode virar. 

Um dos maiores crimes da Academia até o momento da 79ª edição do Oscar foi nunca ter premiado o cineasta anteriormente. Somente em 2006 que ele foi consagrado com a estatueta, tendo sido deixado de lado em situações onde comandou, por exemplo, Touro Indomável, Os Bons Companheiros, O Aviador e várias outras produções onde entregou obras acima da média. Hoje, Scorsese é o único diretor na história da premiação que recebeu 10 nomeações ao prêmio e, mesmo que não leve a estatueta para casa em 2024, com certeza continuará sendo um dos maiores de toda a história do cinema. 

Onde assistir? Disponível na HBO Max.

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