1917, filme de Sam Mendes

Créditos da imagem: 1917/Divulgação

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1917 | Por que a Primeira Guerra Mundial não é tão retratada no audiovisual

Complexidade política e medo do esquecimento pedem novas abordagens ao evento histórico

Arthur Eloi
29.01.2020
15h59

O entretenimento tem papel fundamental quando se trata de conflitos em larga escala. Não só o audiovisual pode ser usado como propaganda, para criar apoio às tropas e senso de patriotismo, como também molda como gerações futuras entenderão o contexto histórico. A Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã são bons exemplos disso, com uma variedade de obras que vão desde brucutus e tiroteios até estudos sobre o impacto da violência nos soldados. Curiosamente, a Primeira Guerra Mundial não foi tão explorada quantos as demais. Na verdade, filmes como o indicado ao Oscar 1917 ajudam a relembrar como não é um período amplamente entendido. Por que isso? E qual a importância de discuti-la até os dias de hoje?

A Grande Guerra foi uma divisora de águas, e redefiniu tanto alianças políticas quanto formas de combate, algumas usadas até hoje. Entre seu estopim, em 1914, quando um nacionalista sérvio assassinou Francisco Ferdinando, o herdeiro do trono Austro-Húngaro, até seu fim em novembro de 1918, o conflito levou cerca de 20 milhões de vidas e deixou um número parecido de feridos. O confronto se iniciou entre as chamadas Tríplice Aliança (Alemanha, Itália, Império Austro-Húngaro) e a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo), e terminou com a Europa devastada, e os Estados Unidos e Rússia consagradas como novas potências mundiais.

Todo acontecimento histórico dessa escala tem complexidade política, e o entretenimento raramente se propõe a explorar todas suas facetas e desdobramentos. Mas trocas de alianças e mudanças drásticas ao longo de um período tão curto são o cerne da Grande Guerra, e isso pode justificar sua pouca utilização. Contextualizar tantas reviravoltas no espaço de duas horas, sem se tornar muito explicativo, é uma tarefa bastante árdua. E diferente da Segunda Guerra, é ainda mais complicado encaixar essa agitação toda em narrativas maniqueístas sem ofender. Além do aspecto político, as evoluções armamentistas dão um toque mais dramático ao período. Afinal, se trata de uma guerra que começou com rifles, cavalos e espadas, mas foi concluída com metralhadoras, tanques e armas químicas.

Até então, o mundo não havia testemunhado o potencial destrutivo da humanidade quando aliado com impressionante avanço tecnológico. O choque foi tão grande que o momento-a-momento do combate foi realizado em trincheiras e brigas sangrentas por meros centímetros de território. Todo confronto é trágico, mas há algo que soa ainda mais errado em glorificar esse período de “perda de inocência” coletiva. Por si só isso já afasta muitas das produções blockbuster de usar a ambientação. As que se arriscam costumam ter abordagem mais humanitária e dramática. Johnny Vai à Guerra (1971), de Dalton Trumbo, é focado no trauma físico e emocional sofrido por um soldado que perde os braços, pernas e é desfigurado no campo de batalha (o longa inspirou “One”, faixa clássica do Metallica). Nada Novo no Front, relato escrito pelo veterano alemão Erich Maria Remarque, expõe a perda da juventude e civilidade que o autor vivenciou em primeira mão. O tratamento é diferente até nos videogames: quando a franquia Battlefield usou a ambientação para um game em 2016, adotou tom mais sombrio - mesmo sendo conhecida pelas batalhas frenéticas entre 64 jogadores simultâneos. A introdução, por exemplo, coloca o jogador na pele de vários soldados diferentes em seus minutos finais, com o objetivo de despertar o caos, confusão e baixa expectativa de vida dos jovens recrutas, com textos que lamentam as várias mortes do conflito. Videogames de guerra adoram a adrenalina resultante da ação e violência, como desembarcar nas praias da Normandia ou pular de paraquedas no território inimigo. A Primeira Guerra não funciona nos mesmos moldes. Não há heroísmo a ser explorado aqui.

Risco de Esquecimento

A falta de variedade de produções sobre um evento histórico tem um custo: menor espaço na consciência popular. Isso pode ser uma preocupação grande quando se trata de algo tão importante para entender o mundo de hoje. É esse medo que motiva muitos realizadores a tomarem uma postura mais discursiva, com o objetivo de contornar esse apagamento.

Em 2014 - centenário do início da Grande Guerra - a Ubisoft lançou Valiant Hearts: The Great War. O jogo não só conta a história de vários soldados no conflito, como também traz colecionáveis que explicam diversos aspectos da vida no campo de batalha e nas trincheiras, como a rotina, a alimentação e os problemas comuns dessa dura realidade. Quatro anos depois, no centenário do fim da guerra, Peter Jackson (O Senhor dos Anéis) encabeçou um esforço impressionante de trazer essas memórias à vida. Em parceria com o Imperial War Museum dirigiu They Shall Not Grow Old, documentário feito inteiramente com material da época restaurado, colorido digitalmente e com dublagem reconstruída a partir de leitura labial. Nessa busca por autenticidade, o cineasta quis dar palco aos soldados, que aparecem na narração através de entrevistas de veteranos, gravadas entre os anos 1950 e 1960. “Ouvindo essas histórias ficou claro para mim que o filme seria sobre a experiência humana. Não sobre as estratégias, a política ou as razões pelas quais a guerra aconteceu. Há outros documentários sobre isso”, falou ao Hollywood Streams.

1917 não é diferente. O longa, que disputa em 10 categorias do Oscar 2020, pode ser mais bombástico do que outras histórias sobre o evento, mas o foco é a jornada de dois soldados. O diretor Sam Mendes opta por algo mais intimista em meio a grandiosidade do conflito. Seu interesse na época é bastante pessoal, já que o roteiro é inspirado em relatos de seu avô Alfred Mendes, veterano do exército britânico. Ao /Film, o diretor resumiu a importância de discutir a Primeira Guerra Mundial nos dias de hoje. “Após o centenário, senti que havia um risco de esquecimento. Já não está mais na consciência popular [...] É a guerra em que as fronteiras da Europa foram redesenhadas, é o primeiro conflito industrializado/mecanizado e também estabelece as principais causas da Segunda Guerra Mundial”, afirmou. “Moldou nosso mundo inteiro”.

A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira a cobertura completa do Omelete no site e as redes sociais.