Entrevista: Criador de Falcão e o Soldado Invernal fala ao Omelete sobre inspirações no mundo real e o que o atraiu na Marvel

Créditos da imagem: Divulgação/Marvel

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Entrevista

Falcão e o Soldado Invernal confirma sua vocação para o debate político

Criador da série fala ao Omelete sobre questões do mundo real e o que o atraiu na Marvel

Gabriel Avila
09.04.2021
22h10

[Cuidado com spoilers do quarto episódio de Falcão e o Soldado Invernal]

Após quatro episódios, é justo dizer que Falcão e o Soldado Invernal está cumprindo a enorme expectativa criada em torno da série. Mais do que continuar a história dos aliados do Capitão América após o comovente final de Vingadores: Ultimato, a série da Marvel no Disney+ está expandindo esse universo enquanto olha para questões muito presentes no mundo real. Em entrevista ao Omelete, o criador e roteirista Malcolm Spellman conta como foi trazer uma dose de realidade ao MCU (Universo Cinematográfico da Marvel):

“Nós queríamos carregar a bagagem do passado desses personagens e enxergá-los como alguém que está lidando com os problemas de hoje, porque é o que a Marvel sempre fez nas HQs. Eles usavam o presente para olhar para onde as coisas estavam indo. Então trabalhamos muito para dar origens, falhas, vontades e desejos que fariam com que as pessoas entendessem que eles estão refletindo o momento atual, não o passado”, diz Spellman

E nesse sentido, talvez não haja um personagem melhor para trabalhar problemas reais do que o Falcão. Apresentado em Capitão América: Soldado Invernal, o personagem de Anthony Mackie é uma figura que, para Spellman, entende o que aflige pessoas comuns. “Para todos que se sentem desprezados, você precisa de alguém que os entenda.”

É difícil cravar com precisão, já que ainda restam dois episódios, mas é possível que Sam tenha feito sua maior demonstração de altruísmo no quarto episódio de Falcão e o Soldado Invernal. Além de tentar duas conversas pacíficas com a líder dos Apátridas Karli Morghentau (Erin Kellyman), o herói não hesitou em se abrir com a garota ao dizer que entende sua pauta e sua luta mesmo condenando seus métodos.

Tocante, essa cena é um raro momento em toda a história do MCU em que o “mocinho” não apenas escuta como dá certa razão ao vilão. Por sua origem e seus dramas pessoais, Sam entende que não é simples viver pelo maniqueísmo de bem versus mal, e por isso suplica para que o grupo trave sua luta sem cruzar a linha de arriscar vidas inocentes. Para Malcolm Spellman, a complexidade do Sam adiciona um fator agridoce para sua nova etapa como herói, já que “ironicamente, é por essa razão que Sam Wilson sente que o escudo pertence a outra pessoa”.

“Não é óbvio o que vai acontecer com o Sam e aquele escudo. É uma coisa difícil para ele lidar”, afirmou o showrunner. “O passado que demos a ele… Vocês viram quais são suas raízes quando fomos para casa com ele. É um homem com uma opinião muito forte sobre como as pessoas negras são tratadas, e mostra o que sente. Talvez a bandeira dos Estados Unidos não se encaixe no que ele considera ser um ‘herói’.”

Esse conflito interno de Sam Wilson se materializa na relação que o herói tem com o Soldado Invernal (Sebastian Stan), e com o “novo Capitão América” John Walker (Wyatt Russell). O primeiro aproveita qualquer oportunidade para questionar o amigo por abrir mão do escudo do Capitão América, justamente por não entender as dificuldades em herdar um manto enquanto precisa lidar com problemas mais reais.

Ao longo dos primeiros episódios, a série dedica um precioso tempo a mostrar Sam Wilson lidando com feridas doloridas também no mundo real. Ao ter seu empréstimo negado no banco e sofrer uma abordagem policial injusta, o Falcão trava batalhas que poucos personagens do MCU tiveram de enfrentar. Malcolm Spellman revela que poder abordar problemas como racismo e desigualdade social foi fundamental para que ele se juntasse à produção:

“É por isso que eu quis contar nessa história. Foi muito importante para mim ter a chance de construir um herói negro. Com todo o respeito ao Pantera Negra, ele é africano e lida com problemas similares, mas é uma coisa diferente ser um homem negro nos Estados Unidos - especialmente no momento atual. Mas me empolgou por saber a história da Marvel e sua habilidade de ter conversas reais sem perder a diversão”.

Cena da abordagem policial em Falcão e o Soldado Invernal
Divulgação/Marvel

Já Walker vem se tornando uma resposta para a pergunta: por que Steve Rogers escolheu o Falcão como substituto? Ainda que Walker tenha passado como militar, com grande habilidade e preparo, é preciso mais do que força para portar o escudo. Seu comportamento problemático chegou ao ápice com o assassinato a sangue frio de um apoiador dos Apátridas que já havia se rendido. Ao cruzar uma linha que nem Steve, nem Sam ousariam, ele deixa claro que não basta um uniforme listrado para se tornar o Capitão América.

Diretamente ligados, o surgimento dos Apátridas e do novo Capitão América são fundamentais para ilustrar como a Terra ficou após os eventos de Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. Segundo Malcolm Spellman, os vilões são uma resposta ao problema global criado pelo retorno das pessoas que desapareceram após o estalo de Thanos:

“A série está lidando com o fato de que é um problema global, e fizemos isso porque, se olharmos para o mundo de agora, há um problema global que nos une - ou divide dependendo da atitude. Então quando conectamos os dois mundos, os vilões tinham que nascer disso. Todos estão respondendo a esse problema global. Nenhum está aparecendo para dominar o mundo ou ganhar dinheiro”.

Mais do que o Barão Zemo, cujo retorno está mais ligado a retomar o personagem após Capitão América: Guerra Civil, esse conceito reflete a trama principal de John Walker e dos Apátridas. O grupo terrorista liderado por Karli tem como motivação principal auxiliar as pessoas invisíveis para o Conselho Global de Repatriação, órgão que deveria cuidar dos vulneráveis. Por outro lado, com os ataques do grupo o CGR convocou um novo Capitão América, que provou de uma vez por todas não ter preparo para ocupar essa posição.

Montagem com Apátrida e John Walker, os vilões de Falcão e o Soldado Invernal
Divulgação/Marvel

Com dois episódios pela frente, Falcão e o Soldado Invernal tem em mãos um emaranhado de enredos que prometem impactar o MCU para sempre. A série promete iniciar um novo capítulo nesse universo que já levou heróis para lutar contra gigantes do espaço, mas que agora volta sua atenção para problemas terrestres que não podem ser resolvidos na porrada.

Falcão e o Soldado Invernal tem novos episódios disponibilizados toda sexta-feira no Disney+.

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