Don Lee em cena de Eternos

Créditos da imagem: Marvel Studios/Divulgação

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Eternos mostra que homens gordos podem ser heróis, mas e as mulheres?

Aos poucos, MCU destaca corpos que fogem do padrão, mas cria nova disparidade de gênero

Eduardo Pereira
19.11.2021
18h35
Atualizada em
19.11.2021
18h53
Atualizada em 19.11.2021 às 18h53

Além de abarcar no cerne de sua história uma reflexão sobre não pertencimento, Eternos se propõe a discutir diversidade e inclusão de forma integral à história que está contando. O novo sucesso da Marvel Studios, dirigido por Chloé Zhao, traz a primeira heroína deficiente auditiva às telonas, Makkari (Lauren Ridloff); uma heroína com deficiência mental, Thena (Angelina Jolie); e o primeiro herói abertamente gay da Casa das Ideias nas telonas, Phastos (Brian Tyree Henry). E mais: a variedade racial entre os integrantes do grupo, incluindo brancos, pretos, latinos e asiáticos de diferentes cores e nacionalidades, propõe um retrato amplo da variedade global. Embora não sem derrapar, até no que não foi pioneiro no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) o longa consegue progredir, como na representatividade dada a homens com corpos que fogem ao padrão.

Em entrevista concedida à Variety, Tyree Henry revelou a surpresa que teve quando o convite para interpretar o Eterno Phastos não veio acompanhado de um pedido para que mudasse o seu corpo. “Eu me lembro da primeira vez em que me falaram que queria que eu fosse um super-herói”, disse o ator. “Eu perguntei quanto peso teria de perder, e Chloé respondeu: “Do que você está falando? Queremos você como você é’. Para um homem negro, ter alguém olhando para você e dizendo isso é diferente de qualquer coisa que eu já senti”.

Segundo Henry, ouvir que o queriam como ele era o fez sentir algo que nunca havia experimentado antes. “Isso me levou de volta para quando eu tinha 11 anos de idade e via esses filmes de super-heróis, e nunca me via refletido ali. E como eu pegava esses pôsteres e colocava em meu armário e torcia para um dia haver alguém ali me representando, de uma forma que eu sei que sou de verdade”, afirmou. “Eu acredito de verdade que esse momento começou quando me sentei para conversar com Chloé”.

O depoimento do astro ilumina a importância do movimento pró-diversidade que tem encabeçado muito da Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). Essa nova etapa na longa narrativa da Marvel Studios tem visto o cenário futuro de seu panteão de heróis apontar para uma necessária maior presença feminina e não branca. Dentro disso, Eternos toma a dianteira também na forma sensível como incorpora diferentes tipos de corpos graças à presença de Henry e Don Lee. Dois homens gordos, eles vivem personagens que em momento algum têm sua forma física questionada, instrumentalizada em prol do humor ou colocada sob atenção indevida. Muito pelo contrário.

Tanto Phastos quando Gilgamesh, o Eterno vivido pelo astro coreano de Invasão Zumbi (2016), protagonizam momentos heróicos de destaque na trama do novo filme. Ao mesmo tempo, demonstram sensibilidades, dores e alegrias. É um retrato multidimensional que comunica a garotos cujo corpo não atende a um padrão constantemente reforçado pela própria indústria de entretenimento, que eles também podem — ainda que sem o abdômen definido de um Capitão América, Thor ou até Homem-Aranha. Um lembrete que um corpo de alta definição muscular não é sinônimo exclusivo de força e poder nem em competições de levantamento de peso. Que o diga o ex-atleta e ator Hafthór Júlíus Björnsson (Game of Thrones).

É claro que os acertos com Henry e Lee não eximem a Marvel do absurdo que é, até 2021, ter incluído no MCU só dois outros exemplos de super-heróis gordos: Wong (Benedict Wong), o parceiro de Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) e a versão deprimida do Thor em Vingadores: Ultimato (2019) — que invoca críticas por fazer uso de uma “roupa de gordo” e associar essa forma física a uma doença mental. Apresentado também neste ano, o Guardião Vermelho, Aleksei Shostakov (David Harbour), é objeto de ao menos uma piada em Viúva Negra, mas ele e os outros dois exemplos só acabam por fazer com que o trato sensível dado aos dois Eternos desponte como indubitável progresso.

Só que Eternos também serve para acender um sinal de alerta quanto a mais um deslize do MCU na representatividade feminina. Afinal, conforme cresce a variedade de corpos masculinos em uniformes de herói, urge que se questione quando será que mulheres gordas terão o mesmo espaço. Se nem o filme de Zhao conseguiu contemplar a questão, com quatro papéis centrais femininos indo todos para mulheres magras, há de se perguntar em qual momento e com qual propriedade intelectual Kevin Feige e companhia olhará para mulheres fora desse padrão. É uma mudança aguda que precisa acontecer, especialmente porque são elas as pessoas mais bombardeadas com parâmetros irreais de beleza em filmes, na TV e principalmente nas redes sociais.

Brie Larson, Zoë Saldana, Angelina Jolie, Gemma Chan, Florence Pugh, Evangeline Lily, e a lista só aumenta. Todas ótimas atrizes, mas todas magras. Se há espaço para reimaginar o musculoso Phastos como um homem negro, gay e gordo, ou o delineado Gilgamesh como alguém que tem tantos músculos quanto gordura corporal, por que até hoje não houve espaço para algo parecido acontecer com alguma heroína? Já é tempo, mas é difícil acreditar que isso vá mudar positivamente dentro de no mínimo os próximos dois anos, especialmente quando o grande grito feminista do estúdio neste ano, Viúva Negra, passou tão longe de fazer jus a uma personagem injustiçada há anos.

Paralelamente, existe outra questão que se corrige com o gradativo aumento de tipos de corpos diferentes entre os super-heróis das telonas: a histórica tradição dos quadrinhos em associar o sobrepeso à vilania, ou simplesmente relegar aos confins da memória os poucos heróis que fogem ao padrão. Só nas HQs da Marvel, o Rei do Crime, Blob e Slug são alguns exemplos do primeiro caso, com a heroína Grande Bertha sendo boa representante do segundo. Isso porque seus poderes de alteração corporal ainda a permitem se tornar magra, se quiser.

Seja por meio da escalação de atores com corpos fora do padrão para viver personagens tradicionalmente magros, ou com o resgate de heróis gordos apagados nos quadrinhos, é fato que ainda há muito a melhorar não só no trato dado pela Marvel, mas também pela DC, à questão. Se, na mitologia chancelada pelo filme de Zhao, os Eternos ajudaram a humanidade a evoluir, esperamos que possam fazer o mesmo pelo futuro do MCU.

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