Scarlett Johansson em Viúva Negra

Créditos da imagem: Viúva Negra/Marvel Studios/Reprodução

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Por que o problema de Viúva Negra foi o próprio MCU

Com a heroína sendo definida nos últimos 10 anos pela sua relação com os outros, era difícil que uma aventura solo pudesse dar sentido à colcha de retalhos que foi feita da personagem

Mariana Canhisares
19.07.2021
16h08
Atualizada em
19.07.2021
16h31
Atualizada em 19.07.2021 às 16h31

Voltar-se ao passado na iminência da introdução do multiverso e da temida nova ameaça do MCU soa contraprodutivo, principalmente em um momento em que o Marvel Studios surfa na expectativa dos seus fãs do que os aguarda na fase 4. Imagina, então, mergulhar em uma história focada em uma personagem que já teve seu destino selado, e que ainda por cima é ambientada no longínquo início da fase 3... Não é de se surpreender, portanto, que Viúva Negra seja o filme do estúdio com maior queda de arrecadação entre sua primeira e segunda semana em cartaz. Sabendo que sua relevância para os próximos eventos do universo compartilhado está na cena pós-créditos, analisada à exaustão por todos os sites e canais da internet no dia da estreia, por que gastar quase R$ 70 para assistir em casa ou se arriscar em uma sala de cinema durante a pandemia?

É verdade que a situação sanitária global teve um impacto gritante na relevância da “história de origem” de Natasha Romanoff, uma vez que originalmente Viúva Negra inauguraria a fase 4 nos cinemas, em maio de 2020. Os adiamentos, somados às propostas das produções televisivas que a antecederam, como WandaVision, terminaram por declarar seu status de ultrapassado. Afinal, em questão de dias, justamente o intervalo entre o lançamento do longa e o último episódio de Loki, Viúva Negra foi esquecido diante da confirmação do envolvimento nas próximas produções do vilão (e viajante do tempo) Kang, o Conquistador.

Contudo, o maior responsável pelo desfecho tímido e frustrante da jornada da heroína da atriz Scarlett Johansson não é o novo coronavírus ou o sucesso das suas produções-irmãs. Aliás, nem mesmo a diretora Cate Shortland e o roteirista Eric Pearson podem ser considerados os grandes responsáveis, embora tenham sim tomado algumas decisões questionáveis. A causa para a estranheza e o acanhamento de Viúva Negra é anterior: está na construção inconsistente que a personagem teve no MCU até a chegada de Thanos.

Scarlett Johansson e Robert Downey Jr. em Homem de Ferro 2
Homem de Ferro 2/Marvel Studios/Reprodução

É claro que, considerando como a personagem foi introduzida em Homem de Ferro 2, ocorreu uma necessária correção de curso de 2010 para cá. Ou seja, a inconsistência a que me refiro não é o abandono da hipersexualização de Nat -- que não fiquem dúvidas: esta foi de longe a decisão mais sensata em toda a trajetória da espiã no MCU. O cerne do problema está no fato de que Natasha nunca teve uma personalidade. Veja bem, não é que ela era uma incógnita por causa do seu treinamento na Sala Vermelha ou qualquer uma das suas missões que realizou sob o comando de Dreykov -- até porque estes nunca foram efetivamente desenvolvidos em tela, mesmo na sua aventura solo. Na realidade, ela sempre foi uma folha em branco, preenchida conforme a sua função em cada história e mais: variando de acordo com quem estava ao seu lado.

Por isso, enquanto seus pares evoluíam a partir de traços característicos, como era a arrogância para Tony Stark e a moral inabalável para Steve Rogers, a Viúva Negra era reintroduzida filme após filme. Primeiro, como um objeto de cena bonito para o Homem de Ferro. Depois, como um interesse amoroso para Bruce Banner e, mais tarde, uma amiga leal e braço direito para o Capitão América.

Mesmo Clint Barton, que também foi negligenciado no desenrolar do universo cinematográfico, acabou tendo um desenvolvimento mais consistente. Afinal, ao longo dos filmes, pelo menos ficou claro que ele era um homem tão ligado à família que preferia se arriscar com um arco e flecha a imaginar que ficou de braços cruzados em meio a uma invasão espacial. Nat, não. Ela era alguém sem lar e sem lastros, marcada por quaisquer atrocidades que fez e nunca revelou. Seu passado era resumido numa cidade, “Budapeste”, o que quer que isso significasse.

Scarlett Johansson como Viúva Negra
Marvel Studios/Divulgação

Viúva Negra estreou, portanto, tendo que dar sentido a um emaranhado de elementos desconjuntados, apresentados durante mais de 10 anos, e fazer uma espécie de mea culpa pela demora e pelos erros cometidos no caminho. Por mais que sejamos justos e reconheçamos que o filme responde o que raios aconteceu na capital da Hungria com o Gavião Arqueiro e faz comentários sarcásticos sobre a hipersexualização da personagem, como a piada da pose de herói, não dá para falar que ele é o suficiente para reformular a personagem. Porque, no fundo, não dá para preencher lacunas de uma história deliberadamente vazia -- ainda mais quando não querem explorar as áreas cinzas da espiã, como fizeram com um personagem tão traumatizado e complicado quanto Natasha, o Soldado Invernal, para mantê-la “gostável”.

Logo, como era esperado desde seu anúncio, Viúva Negra estava fadado a frustrar os espectadores, fossem eles fãs ou não da personagem. A boa notícia é que o filme destoa e muito das demais produções lançadas pelo Marvel Studios neste ano. Mesmo as séries com protagonistas masculinos já tiveram um olhar mais generoso com as personagens femininas, tratando-as com a mesma complexidade que seus pares, independentemente de serem heroínas, vilãs ou meras coadjuvantes. Sim, é uma pena que a Natasha tenha tido uma trajetória tão instável e sem rumo, mas ela certamente serviu de exemplo para o MCU. E talvez seja justamente esse o grande legado da personagem para a fase 4.

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