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De campos de concentração ao estrelato, como Pat Morita se tornou o sr. Miyagi

Até ser imortalizado no cinema com Karatê Kid, ator enfrentou doença paralisante, preconceito e falta de oportunidades

Arthur Eloi
18.01.2021
17h13
Atualizada em
08.02.2021
14h07
Atualizada em 08.02.2021 às 14h07

Com o enorme sucesso de Cobra Kai, Karatê Kid voltou com força. Mas entre as intrigas e porradas de Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka), há uma ausência que é sentida por todos, sejam os personagens ou os espectadores: a do senhor Miyagi, o sensei de Daniel-san vivido por Pat Morita. Por meio de flashbacks, a série faz um ótimo serviço de honrar o legado do sábio mestre, mas a história do ator, morto em 2005, também merece ser ouvida.

O ator, parte da primeira geração de uma família de imigrantes japoneses nos Estados Unidos, nasceu na Califórnia em 1932, e as coisas eram bem diferentes na época. Para começar, seu nome era Noriyuki Morita, e ele sofria de uma doença bastante séria. Aos dois anos de idade, foi vítima de tuberculose vertebral, também conhecida como Mal de Pott. Por conta disso, Morita passou os nove anos seguintes internado em hospitais, incapaz de andar e com o corpo inteiramente engessado por boa parte desse período. Foi em meio a toda essa dificuldade que Pat Morita surgiu.

Falando à Academia de Artes e Ciências Televisivas em uma entrevista de 2000, o ator explicou que seu nome artístico veio das conexões que fez quando estava internado. “Durante esse tempo todo, havia um padre que visitava os pacientes. Ao longo dos anos, o padre Cornelius O'Connor visitava todas as crianças no hospital, e eu sempre ficava com inveja porque os únicos católicos de lá eram os hispânicos, e alguns indígenas e irlandeses. Esses eram todos os meus colegas! Eu sentia inveja que toda sexta eles podiam ir ao confessionário, e fazer a comunhão, e missa aos domingos etc. E eu ficava sozinho, sem saber nada sobre religião. Em resumo, o padre O’Connor virou meu amigo. Nunca vou me esquecer das palavras maravilhosas dele: ‘Se algum dia eu conseguir te converter, seu pagãozinho, seu nome então será Patrick Aloysius Ignatius Xavier Noriyuki Morita’”, relembrou o ator aos risos. “Assim, quando entrei para o show business, decidi usar o nome Pat Morita.

Após sete anos imobilizado, e mais dois sob tratamento intenso, Morita voltou a andar após passar por uma cirurgia na coluna aos 11 anos de idade. As dificuldades, porém, não pararam aí: o garoto saiu do hospital em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. Pelo intenso confronto entre nações, os Estados Unidos estavam tomados pelo sentimento antiasiático. Pat Morita mal pôde aproveitar sua recém-conquistada liberdade, tendo sido diretamente levado com sua família a um campo de concentração para japoneses no Arizona, e depois para outro na Califórnia. Os dois campos totalizavam mais de 50 mil cidadãos japoneses, ou norte-americanos com ascendência japonesa, que foram tirados de seus lares e aprisionados durante a guerra. Dentre exemplos que viriam a ser famosos, Pat Morita não foi o único. George Takei, o eterno Sulu de Star Trek, também foi aprisionado com seus familiares, inclusive no mesmo campo de concentração que Morita.

Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, em 1945, as coisas melhoraram um pouco. Mas há alguns capítulos importantes antes de chegar na parte do entretenimento. Logo após deixarem os campos, Morita e sua família retomaram sua ocupação pré-guerra de fazendeiros, colhendo pêras, damascos e tomates na Califórnia. Com os ganhos do trabalho no campo, eles logo abriram um restaurante em Sacramento. Lá, Morita costumava tocar o cotidiano agitado com bom humor, entretendo os clientes com piadas e praticando suas imitações. Em 1986, em entrevista ao LA Times, relembrou com ironia dos tempos na cozinha, dizendo: “Você consegue imaginar? Uma família japonesa, administrando um restaurante chinês num bairro negro, com clientela negra, filipina e qualquer outra que não se encaixe em outros bairros”, brincou.

Mas esse momento de tranquilidade não durou muito. Em 1956, Tamaru Morita, o pai de Pat, morreu vítima de um acidente de carro enquanto voltava do cinema. Pat e sua mãe conseguiram tocar os negócios por mais quatro anos antes de fecharem as portas, e a situação só se complicou quando Kathleen Yamachi, a mulher de Pat na época, engravidou do primeiro filho do casal. Em um momento de recolocação profissional, é comum que pessoas desesperadas se apeguem ao primeiro emprego que encontram. Pat Morita, por sua vez, se tornou analista de dados no Departamento de Veículos Motorizados dos EUA, e pouco tempo depois trabalhou com foguetes em empresas como Aerojet e Lockheed. Nessas empresas, Morita era a ponte entre programadores e engenheiros que trabalhavam em mísseis.

O que, então, levou Pat Morita ao entretenimento? Cansaço por trabalhar turnos na madrugada, nenhum plano de carreira, e a vontade de fazer algo novo. “Eu tinha uns 28 anos, um japonês balofo de uns 86kg sem diploma universitário, competindo com gente com doutorado, o que me deixava com um futuro limitado na empresa. Estava descontente, e meu cabelo estava caindo. Aí pensei ‘Certo, o que realmente quero fazer? Só não posso ser médico e nem padre’”, brincou. “A única resposta, se fosse corajoso o bastante para admitir, era a indústria do entretenimento. Insano. Eu não sei cantar e nem dançar, só sei falar. Eu tinha um bom trabalho, com 13º. Foi insano, estúpido e louco. Mas com grande apoio da minha família - apesar disso ter sido o que eventualmente separou minha família -, pedi demissão.

Muito antes das telas, Pat Morita se apresentava como comediante em bares de Sacramento e São Francisco. Mas o próprio ator já falou algumas vezes que não era o melhor dos comediantes, sem noção alguma de ritmo, de frases de efeito, de humor e nem nada. Pior do que isso, não só ganhava pouco nas apresentações, como frequentemente bancava do bolso o deslocamento até elas. Eventualmente, percebeu que se fosse levar a ideia de show business a sério, teria de ir para Los Angeles.

Na capital do entretenimento, Pat Morita teve bem mais sorte. Conseguiu boas apresentações, contratou a mãe do famoso comediante Lenny Bruce como agente, e até apareceu no programa de TV Hollywood Palace. Seu timing cômico foi se afinando pela necessidade, e em pouco tempo Morita já conseguia arrancar risos do público. Sua confiança estava tão alta que, em 1966, chegou até a fazer stand up numa reunião de 25 anos dos sobreviventes do ataque em Pearl Harbor. Mesmo com um pé atrás, Morita subiu ao palco e fez até os militares caírem na gargalhada.

Com a carreira em ascensão, o comediante começou a chamar atenção de produtores em Hollywood. Enquanto era figurante em filmes, na televisão fez comerciais, programas de variedade e também participações em séries de peso, como M*A*S*H, em que viveu um militar sul-coreano. Mas o que realmente levou seu nome mais longe foi Happy Days.

Morita teve participação recorrente na sitcom clássica, considerada uma das melhores e mais influentes dos EUA. A partir da terceira temporada, de 1975, deu vida à Matsuo "Arnold" Takahashi, dono de um restaurante visitado pelos personagens do seriado. Ali, o ator, aos 45 anos de idade, conseguiu ficar à altura até de ícones como Henry Winkler, o Fonzie. Curiosamente, para chegar ao caricato sotaque do chef, o ator se inspirou na época que trabalhou no restaurante de sua família, e imitava um dos cozinheiros, para o divertimento dos clientes.

Happy Days consagrou Pat Morita nas telas, com presença em 26 episódios do programa e também participação em derivados. Mas o sucesso foi uma via de mão dupla. Na década de 1980, o produtor Jerry Weintraub desenvolvia um projeto nos estúdios da Disney: um filme de aventura sobre artes marciais, chamado Karatê Kid. Tudo corria bem com a contratação do astro mirim Ralph Macchio para o carismático protagonista Daniel LaRusso, mas a equipe estava penando para achar alguém para viver Nariyoshi Kesuke Miyagi, o sábio sensei de Daniel. O nome de Pat Morita surgiu nas conversas - e foi ignorado diversas vezes.

Na verdade, Weintraub era contra a ideia de ter Morita como Miyagi pois o personagem pedia uma certa carga dramática, algo que ele não acreditava que um comediante pudesse ter. “Ele sequer queria que eu fizesse os testes”, relembrou o ator em entrevista ao Hollywood Reporter. “Toda vez que meu nome era citado, o produtor era direto: ‘Não quero um comediante. Esse é um papel de peso. Eu quero um ator’”. Quem ajudou a mudar os rumos da situação foi o diretor John G. Avildsen, que organizou um teste secreto com Morita, gravou e depois mostrou a fita de surpresa para Jerry Weintraub. E nem isso foi o suficiente para garantir sua escalação: mesmo tendo gostado do que viu na fita, o produtor ainda realizou cinco testes de elenco com Morita. Depois de colocá-lo em todo tipo de situação possível, o produtor teve certeza absoluta de que precisava contratá-lo, dizendo ao ator: “Pat, eu quase cometi o pior erro da minha vida. Quero ser o primeiro a parabenizá-lo. Você conseguiu o papel de Miyagi.

Pat Morita precisou lutar para virar o senhor Miyagi, o que é bastante irônico considerando que ele não sabia nada de caratê. Quem ajudou a preencher essas lacunas foi Fumio Demura, um verdadeiro mestre das artes marciais e do cinema, tendo treinado Bruce Lee e servido como dublê para Morita. O resultado é uma das performances mais memoráveis do cinema, que não só lançou uma franquia como também rendeu a Pat Morita uma indicação ao Oscar de 1985, na categoria de melhor ator coadjuvante. Se Karatê Kid é tão marcante até os dias de hoje, muito se dá pela presença mística e carismática do senhor Miyagi.

Pat Morita viveu o sr. Miyagi em todos os quatro filmes clássicos de Karatê Kid. E mesmo hoje em dia, muito tempo depois de sua morte, sua presença continua sendo sentida na série Cobra Kai. A abordagem não só é uma homenagem ao poder do personagem nas telas, mas também ao carinho do intérprete com a franquia. Mesmo antes da franquia ter três filmes, na metade dos anos 1980, Morita já falava: “Se eles quiserem fazer uma Parte 4, Parte 9 ou Parte 11, eu estou dentro”, revelou ao LA Times na época. Esse entusiasmo sobreviveu aos anos, e também aos capítulos mais fracos da saga. Quando Karatê Kid 4 - A Nova Aventura (1994) decepcionou nas telonas, Morita bolou sua própria trama para uma continuação, que colocaria os holofotes em Johnny Lawrence (William Zabka) após a morte de Miyagi. Mesmo que com algumas diferenças significativas, o ator teve seu desejo atendido em Cobra Kai, que reuniu o elenco antigo e também deu destaque ao ex-antagonista.

Com uma longa vida, cheia de reviravoltas inusitadas, Morita morreu aos 73 anos de idade, em novembro de 2005, de causas naturais. Entre o ápice como Miyagi e sua morte, o ator fez participações em S.O.S. Malibu, Um Maluco no Pedaço e nas sequências de Bloodsport, e também estrelou séries como Os Arquivos de Shelby Woo e Ohara. Um de seus muitos talentos era imitar vozes e sotaques, algo que naturalmente lhe guiou para o mundo das animações, em que deu voz ao imperador da China nos filmes de Mulan, papel que reprisou nos jogos de Kingdom Hearts. Seu último papel, inclusive, foi como um sensei em um episódio de Bob Esponja, transmitido após sua morte com uma homenagem.

Mais de 15 anos depois de sua morte, o nome de Morita continua mais relevante do que nunca. Com Cobra Kai, o eterno sr. Miyagi atiçou a curiosidade dos brasileiros, com janeiro registrando aumento de 610% nas buscas sobre o ator, quebrando o recorde de novembro de 2005, mês de sua morte. Além disso, sua conturbada vida será explorada em detalhes no documentário More than Miyagi, que traz comediantes, atores e personalidades conhecidas de Morita para discutir suas conquistas e dificuldades, como o vício em drogas.

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