Capa de Chromatica/Gal Gadot em Mulher-Maravilha/Ms. Marvel

Créditos da imagem: Lady Gaga/Warner Bros./Marvel Comics/Divulgação

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Quem lacra não lucra? Os números mostram o contrário

Meme usado para criticar produções com viés progressista ignora números impressionantes e engajamento de públicos apaixonados

Nicolaos Garófalo
30.06.2020
20h16
Atualizada em
30.06.2020
23h18
Atualizada em 30.06.2020 às 23h18

Uma das frases mais usadas nos últimos anos para criticar o crescimento de representatividade na cultura pop é a infame “quem lacra não lucra”. O refrão foi criado como forma de zombar o termo “lacrar”, usado por alguns grupos como gíria para as palavras “arrasar”, ou “se dar bem”. Internautas conservadores distorceram o significado da palavra, usando-a de maneira irônica para generalizar pautas relacionadas a grupos menos representados na grande mídia.

Com uma sonoridade fácil de ser lembrada, o meme “quem lacra não lucra”praticamente se tornou mantra para aqueles que se opõe a ver mulheres, negros, asiáticos e membros da comunidade LGBTQI+ ganhando espaço na cena do entretenimento.

Embora repetida à exaustão nas áreas de comentário na internet - inclusive aqui no Omelete -, a frase é, no mínimo, falaciosa.

Cada vez mais presente no discurso e nas ações de estúdios e artistas, a representatividade (ou a “lacração”) faz com que públicos que antes não se viam representados pela mídia se engajem cada vez mais no consumo e na divulgação de obras (ou seja, “lucro”).

Primeiro filme solo de uma super-heroína na nova era do cinema inspirado em quadrinhos, Mulher-Maravilha, estrelado por Gal Gadot, superou expectativas, tanto nas bilheterias quanto nas notas da crítica. O longa de Patty Jenkins arrecadou incríveis US$ 821,8 milhões, inspirando o estúdio a encomendar uma sequência quase imediatamente. Até hoje, Mulher-Maravilha é considerado por muitos o melhor filme do DCEU. Sua continuação, marcada ainda para 2020, é um dos longas mais esperados do ano e teve, em 2019, um dos painéis mais agitados da CCXP19.

Embora não tenha números exorbitantes do blockbuster da amazona, outro exemplo recente é Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa. Com um orçamento de US$ 84,5 milhões, o filme mais do que dobrou seu valor nas bilheterias, arrecadando US$ 201,3 milhões ao redor do mundo. É bom lembrar que, além da censura para maiores de 18 anos, que já restringe o público, o longa ainda sofreu com boicotes de fãs que diziam que a personagem de Margot Robbie não merecia uma aventura solo, e com o fechamento dos cinemas por causa do COVID-19, no meio de março.

Na Marvel, o sucesso de suas produções lideradas por mulheres, negros ou asiáticos foi semelhante. Enquanto Capitã Marvel fez US$ 1,1 bilhão nas bilheterias apesar da recepção morna da crítica, Pantera Negra arrecadou US$ 1,3 bilhão e chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2019.

Mas não são apenas os grandes estúdios que lucram com sua “lacração”. Produzida pela Color Force, a comédia romântica Podres de Ricos, dirigida, escrita e estrelada majoritariamente por pessoas asiáticas, não só impressionou a mídia especializada, como também fez US$ 238 milhões nas bilheterias contra um orçamento baixíssimo de US$ 30 milhões. Com Amor, Simon, que custou “míseros” US$ 17 milhões, quadruplicou seu orçamento nas bilheterias e teve um retorno de US$ 66 milhões e se tornou um grande símbolo da comunidade LGBTQI+, por retratar de maneira delicada a descoberta da sexualidade na juventude. O filme ainda ganhou uma série derivada, Love, Victor, que fez grande sucesso na plataforma de streaming Hulu.

O sucesso da “lacração” na TV e nas HQs

Aliás, a televisão tem sido um dos principais meios em que a representatividade tem encontrado seu público. Além do já citado sucesso recente de Love, Simon, séries do Arrowverse têm abordado questões como violência policial contra negros, transfobia, LGBTQIfobia e até preconceito de classe. Embora tenham seus problemas de roteiro, The Flash, Raio Negro, Supergirl, Batwoman e Arrow souberam, cada um de seu jeito, criar narrativas delicadas sobre problemas sociais relevantes que nem toda série tem coragem de colocar em sua trama. Até a irreverente Legends of Tomorrow fala sobre feminismo e intolerância religiosa de maneira séria, dando a importância que esses temas merecem.

Mas “lacrar” não é um benefício exclusivo de séries de super-heróis. Fenômenos como The Politician, American Horror Story, Pose, Brooklyn Nine-Nine e Sex Education falam abertamente sobre racismo, LGBTQIfobia, sexo, masculinidade frágil, feminicídio e crimes de ódio. Ao mesmo tempo, realities Queer Eye e RuPaul’s Drag Race não só divertem, mas também aproximam os espectadores de mundos que, em situações normais, eles ignorariam ou pior: julgariam como inferiores por irem contra os costumes conservadores.

O mesmo acontece no mundo dos quadrinhos. Duas maiores editoras do mundo, DC e Marvel nunca deixaram de lutar por grupos que são alvo de preconceito. Enquanto o herói Pantera Negra foi inspirado no icônico movimento pela luta por direitos civis da comunidade negra norte-americana, o Superman tinha como um de seus principais valores lutar pelo “jeito americano” – que, na prática, deveria ser integração, aceitação e luta pelos oprimidos. Tanto o Azulão quanto o Capitão América já apareceram dando alguns sopapos em ditadores nazistas e fascistas ao longo da história. Quando histórias os mostravam comandando regimes semelhantes – Superman líder soviético em Entre a Foice e o Martelo e Steve Rogers em Império Secreto -, eles eram claramente retratados como vilões, em uma clara mensagem antimilitarista das editoras.

Ambas também lutam há anos por maior representatividade em suas páginas. Se a DC tem Jefferson Pierce/Raio Negro, Wallace West/Kid Flash, Vic Stone/Cyborg, Joe Wilson/Jericó, Arlequina, Era VenenosaMulher-Maravilha e diversos Lanternas Verdes como representantes de minorias, a Marvel colocou membros de grupos menos representados na mídia como novos donos de alguns de seus mantos mais importantes. Miles Morales, Kamala Khan, Sam Wilson, Jane Foster e até Carol Danvers assumiram uniformes icônicos da Casa das Ideias. Suas histórias, além de abordarem suas questões individuais como minorias, ainda se provaram sucessos de venda, com o Homem-Aranha de Miles e a Ms. Marvel de Kamala, que continuaram sendo duas das revistas mais queridas dos leitores da Marvel, apesar do protesto de alguns fãs mais conservadores.

Música: o grande lar da “lacração lucrativa”

Mas, convenhamos, nenhum campo da cultura pop lacra mais e melhor do que a música. Conhecida como a “linguagem universal”, a arte tem um longo histórico de falar com minorias, especialmente com as comunidades negras e LGBTQI+.

Em 2020, a indústria musical deu palco para a Blackout Tuesday. Em 2 de junho, músicos encorajaram profissionais de todos os meios a usarem as redes sociais para postar apenas um quadrado preto em um protesto silencioso como parte do movimento Black Lives Matter. Ao mesmo tempo, nomes como BTS, The Weeknd, Kanye West e Lady Gaga, assim como inúmeras gravadoras, doaram valores a organizações ligadas aos protestos e em defesa dos manifestantes.

Já a relação da música com a causa LGBTQI+ é recheada de hinos e artistas membros da comunidade ou apoiadores dos direitos igualitários. Prince, Pabllo Vittar, Michael Stipe, Lady Gaga, Rob Halford, Freddie Mercury, George Michael, Elton John e tantos outros vivem ou viveram suas vidas fora dos padrões heteronormativos, algo que nunca os impediu de alcançar milhões de discos vendidos ou reproduções em plataformas de streaming. A própria Lady Gaga, bissexual assumida desde o começo de sua carreira, vendeu, em plena pandemia do COVID-19, 205 mil cópias de seu disco mais recente, Chromatica, estreando no primeiro lugar do Top 200 da Billboard.

Até mesmo artistas que não necessariamente são membros da comunidade, mas mostram apoio à causa, movimentam seus fãs a ajudar como podem. Grupos de k-pop, como BTS, Blackpink e Twice, se engajam de maneira única em movimentos apoiados por seus ídolos. Apenas durante os protestos do Black Lives Matter, os k-poppers igualaram doações de US$ 1 milhão feita pelo BTS e ainda obrigaram a polícia de Dallas, nos Estados Unidos, a desativar um aplicativo criado para identificar manifestantes durante os protestos na cidade, fazendo o upload de fancams - vídeos curtos que unem momentos aleatórios de um determinado artista ou grupo.

Ainda que algumas vozes tentem aplacar o movimento progressista da indústria do entretenimento, os números demonstram o que muitos comentaristas das redes tanto temem: quem lacra lucra. E muito. Embora gravadoras, estúdios e editoras possam sim ter essas cifras como o grande objetivo ao buscar ampliar a representatividade de suas produções, o fato é que grupos que mais sofrem preconceito nunca se sentiram tão bem representados e dispostos a recompensá-los por serem vistos de maneira pura e sem julgamentos. O caminho ainda é longo para a aceitação e integração universal. Mas dar voz a quem antes não conseguia falar é um primeiro passo extremamente importante – e pra lá de lucrativo.