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De Will Smith a George Floyd: como realidade e ficção se unem ao abordar racismo

Entenda como Um Maluco no Pedaço, Pantera Negra e outras obras tocam em problemas do mundo real

Load Comics e Gabriel Avila
04.06.2020
17h16
Atualizada em
12.06.2020
16h20
Atualizada em 12.06.2020 às 16h20

Na última, semana observamos protestos diários nos Estados Unidos contra a violência policial e o racismo da população branca contra a comunidade negra. O estopim para as manifestações foi o assassinato de um homem negro, George Floyd, por um policial branco. Mesmo rendido e sem oferecer resistência, ele foi asfixiado por nove minutos, tempo em que repetiu por inúmeras vezes que estava sem ar. Como nada foi feito para deter seu agressor, ele acabou morrendo e as fortes imagens iniciaram uma onda de debates e atos. Mas não é de hoje que a população negra é sufocada, enquanto repete que não aguenta mais. E isso reflete também na cultura pop.

Entre cinema, TV e quadrinhos, existem inúmeras obras que retomam o debate, trazem mensagens e tentam conscientizar sua audiência, mesmo que parte do público prefira fechar os olhos e continuar ignorando as injustiças que acontecem no mundo real. Um dos exemplos mais clássicos está na série Um Maluco no Pedaço, que tocou neste assunto logo em sua primeira temporada. No sexto episódio, chamado “Mistaken Identity”, Will (Will Smith) e Carlton Banks (Alfonso Ribeiro) são presos por estarem dirigindo um carro de luxo emprestado por um amigo do Tio Phill. Enquanto Carlton acredita que foi parado por conta da velocidade, Will tenta lhe explicar como na real foi caso de racismo. Por ser de uma vizinhança rica, Carlton não está acostumado com esse tipo de abordagem, ao contrário de Will, que veio de uma bairro pobre e sabe como o sistema funciona na prática.

Cinco meses após a exibição original desse episódio, aconteceu um famoso caso que ilustrou na vida real o que o Will Smith quis dizer. Na noite de 3 de março de 1991, Rodney King foi acusado de dirigir em alta velocidade, foi detido e violentamente espancado pela polícia de Los Angeles. O evento foi registrado em vídeo por uma testemunha, George Holliday, em uma filmagem que chocou o mundo. Porém a situação piorou quando os policiais foram a julgamento e foram absolvidos por um júri majoritariamente composto por pessoas brancas, gerando uma onda de protestos que entrou para a história da Califórnia. Esse infelizmente não foi um caso isolado, já que na década de 1990 outros tristes casos como os de Abner Louima e Malice Green, que foram respectivamente vítimas de estupro e assassinato pela polícia.

Lançada em 2018, a série do Raio Negro na CW apresenta ele de uma forma bem diferente. Ao invés de contar a velha história de como ele recebeu seus poderes e passou a combater criminosos e vilões, a produção começa com o herói sendo humilhado na frente das filhas durante uma abordagem policial carregada de racismo. Logo nos primeiros minutos, testemunhamos Jefferson Pierce (Cress Williams) sendo arrastado de seu carro na chuva pra ser reconhecido por uma testemunha que teve sua loja roubada, mas como ela não o reconheceu acabou sendo liberado sem explicações.

Sabe o que Will Smith, Rodney King e o Raio Negro têm em comum além de serem negros? Todos eles sobreviveram às abordagens, algo que infelizmente não acontece em todas as vezes. O site Fatal Encounters iniciou em 2000 uma contagem de pessoas assassinadas pela polícia dos Estados Unidos, que até 27 de maio chegava à marca de 28.139, segundo a DW. Desse número, 7.612 são negros, representando 26% dos mortos, uma marca desproporcional considerando que a população negra corresponde a 13% dos cidadãos do país. Esse dado chama atenção por mostrar como uma parcela menor da população está mais propensa a ser assassinada por agentes da lei, que juraram “servir e protegê-la”.

Uma das mortes que entrou para essa estatística foi a de Eric Garner. Em 2014, ele foi asfixiado até a morte por um policial de Nova York. Mesmo que o estrangulamento seja proibido na cidade, seu assassino não foi preso e só foi desligado da polícia cinco anos depois. Novamente por conta da forma brutal e covarde como aconteceu, a morte de Eric gerou o Black Lives Matter (Vidas Negras Imprtam, em tradução livre), movimento feito para denunciar e combater a brutalidade policial contra negros e novamente foi refletido na cultura pop.

O policial que matou Eric Garner só foi desligado da polícia em 2019, ano em que foi ao ar a nova versão da série The Twilight Zone. Seu terceiro episódio, chamado “Replay”, conta a história de uma mãe que está levando seu filho negro para a faculdade, quando ele é assassinado por um policial que o considera suspeito. A mulher consegue voltar uma hora no tempo ao apertar o botão “rebobinar” em sua filmadora mágica. A partir daí ela entra em uma jornada para evitar que seu filho seja assassinado pelo oficial que insiste em persegui-lo. Ela só consegue de fato quando eles mudam o caminho e passam pela casa de um tio do garoto, que é membro do Black Lives Matter.

Um ano antes, 2018 foi marcado pela estreia de Pantera Negra, filme da Marvel que não deixou de abordar questões do mundo real. O diretor Ryan Coogler deixou claro que o lado político estaria presente no longa desde a divulgação do primeiro cartaz. A imagem, que apresenta o rei T’Challa (Chadwick Boseman) sentado em um trono faz referência à clássica foto de Huey Newton, líder do Partido dos Panteras Negras, organização criada para monitorar a violência empregada pela polícia de Oakland, cidade na Califórnia que é lar de grandes nomes como Kendrick Lamar, rapper que denuncia a truculência do sistema em suas canções e que foi convidado pelo Marvel Studios para cuidar da trilha sonora do filme. Portanto não é de se estranhar a decisão de iniciar o longa em um flashback da infância de Erik Killmonger (Michael B. Jordan) que mostra alguns dos protestos inspirados pela absolvição dos policiais envolvidos no caso de Rodney King.

Montagem contendo uma foto de Huey Newton e um cartaz de Pantera Negra
Divulgação/Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana;Divulgação/Marvel Comics

Apesar de todas essas obras citadas e outras mais falarem de abuso pollicial, racismo e como a população negra vem sofrendo há anos, infelizmente esse problema ainda acontece. Em 2020, dois anos depois do lançamento do próprio Pantera Negra, filme que fez bonito nas bilheterias e nas premiações, houve o assassinato de George Floyd, que gerou uma nova onda de protestos nos Estados Unidos e no mundo, em atos inspirados pela indignação gerada por mais uma morte que poderia ter sido evitada se as pessoas parassem para refletir e agir sobre esse problema que é discutido há anos não apenas na vida real, mas também em filmes, séries e quadrinhos.

É possível perceber um triste ciclo que se repete constantemente na vida real. Uma pessoa negra é vítima de violência policial, seus agressores seguem ilesos e iniciam-se revoltas por parte de pessoas indignadas com a injustiça. O tempo passa, a sociedade deixa a questão de lado e uma nova pessoa negra é sufocada pelas mãos de quem deveria protegê-la. Já passou da hora de parar de ignorar esses avisos dados no mundo real e retratados na cultura pop e encerrar esse ciclo violento de uma vez por todas. Que se façam ouvir mais vozes como a do ator John Boyega, de Star Wars:

“Vidas negras sempre importaram. Sempre fomos importantes. Nós sempre significamos algo. Nós sempre conseguimos sozinhos. E agora é a hora. Não vou esperar mais.” 

Este assunto foi tema também do nosso debate na Omelete Live com convidados especiais, como Rashid, Marcelo D`Salete, Andreza Delgado e Lai Cosplay. Confira abaixo: