Bong Joon Ho dirigindo Parasita

Créditos da imagem: Vanity Fair/Neon/Divulgação

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Parasita | Como Bong Joon Ho usou ironia e acidez em sua campanha ao Oscar 2020

O diretor sul-coreano criou um personagem público para lidar com a própria ansiedade, mas sem deixar de se divertir no processo

Arthur Eloi
08.02.2020
11h38

Ser indicado ao Oscar é uma das maiores honras que um cineasta pode alcançar, e Bong Joon Ho com certeza conquistou isso. Após anos de sucesso no cinema sul-coreano, ele enfim foi reconhecido pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas por Parasita, seu sétimo longa metragem que disputa 10 indicações na premiação. Enquanto muitos realizadores ficariam comovidos com a oportunidade, o diretor conduziu sua participação na temporada de premiações de forma inusitada e meio irônica. Curiosamente, isso é recorrente em sua carreira.

Há anos Bong Joon Ho é um nome de peso na Coréia do Sul por integrar o movimento de cinema extremo de lá, com dramas como Memórias de um Assassino (2003), O Hospedeiro (2006) e Mother - A Busca Pela Verdade (2009). Muitos desses chegaram aos Estados Unidos, mas sem o mesmo impacto. Na verdade isso pode ser dito do audiovisual sul-coreano em geral, que passa por uma duradoura era de ouro criativa há anos, pouco falada no resto do mundo. Enquanto o cineasta não parece buscar a validação estrangeira, é visível seu incômodo pelo choque cultural entre os hábitos de consumo em seu país de origem e os norte-americanos. Por lá, longas aclamados como Oldboy, de Park Chan-Wook, no máximo conquistam um nicho de cinéfilos, e em geral são percebidos como “produtos exóticos” para grupos seletos. Em janeiro de 2020, quando Parasita venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o discurso de aceitação de Joon Ho foi como um apelo para que o público perca essa noção: “Quando vocês superarem a minúscula barreira das legendas, vocês serão apresentados a muitos outros filmes incríveis.

Sua experiência trabalhando nos EUA colabora nessa percepção. O Expresso do Amanhã é um bom exemplo disso. Estrelado por Chris Evans (Vingadores), o primeiro longa do diretor fora de sua terra-natal foi repleta de diferenças criativas com Harvey Weinstein, cuja empresa distribuiria o projeto. O produtor - hoje julgado por inúmeros casos de assédio e violência sexual - cobrava cortes e mais cortes, com tanto diálogo cortado que a narrativa já nem fazia mais sentido. Quando Bong enfim retomou o controle criativo, Weinstein realocou o projeto para uma filial menor de sua corporação como uma espécie de punição, já que isso impediu que o filme fosse amplamente exibido. Essa abordagem agressiva é o completo oposto do contexto em que o cineasta surgiu e se desenvolveu, como descreveu ao NY Times em 2006: “O cinema coreano dos anos 1990 era bem mente-aberta”.

Toda a situação o deixou bem abalado, claro: “Parecia uma comédia sombria”, relembrou à Vulture no fim do ano passado. “Se fosse o filme de outra pessoa e alguém estivesse rodando um documentário sobre os bastidores, seria bem engraçado. Infelizmente era o meu filme”. Mesmo assim, isso não o impediu de dar boas risadas, como quando inventou uma conexão emocional para evitar que uma cena, envolvendo um peixe sendo estripado, fosse cortada de Expresso do Amanhã. “Harvey odiava, e falava que ao invés de um peixe, precisava ter ação. Partiu meu coração na hora e me desesperei então, de repente, eu disse ‘Harvey, essa cena tem significado para mim. É algo pessoal. Meu pai era um pescador. Estou dedicando essa cena para ele’, ao qual ele disse ‘Você devia ter me contado isso antes! Família é o mais importante. Vou manter a cena’. Eu agradeci, mas era uma mentira da p**ra. Meu pai nem pescador era”, brincou.

A forma que lidou com Harvey Weinstein em 2013 é fundamental para entender sua campanha ao Oscar 2020, já que é ali que ficou claro como Bong Joon Ho lida com as complicações em sua vida: ansiedade e humor em partes iguais. Ao longo de 2019, deu várias entrevistas comentando sua timidez: “Eu fico envergonhado com facilidade. No Critics’ Choice Awards, me sentei na mesa da equipe de Coringa e Todd Phillips veio falar comigo pra dizer que assistiu Parasita três vezes. Conseguia sentir meu rosto ficando vermelho”, brincou ao The Wrap, afirmando que costuma usar ironia para sair dessas situações. “Sempre que isso acontece, eu tento só apresentar mais gente. Então respondi falando ‘Você já conhece meu editor? E esse é o designer de produção, e esse é o cara que construiu a casa’.

Saber o quão envergonhado Joon Ho é ajuda a explicar sua postura na campanha de premiações. O cineasta praticamente criou um personagem para conseguir desbravar essas novas oportunidades em uma indústria que não só o destratou anteriormente, como também exige posicionamentos mais arrogantes de seus gênios. Mesmo um ensaio fotográfico para estampar a capa da Vanity Fair teve de exigir mais humildade do que a revista está acostumada a exaltar: “Temos que ter cuidado com isso”, alertou a assessora de Bong. “Não o façam parecer muito Hollywoodiano porque esse não é o estilo dele.

A 92ª cerimônia do Oscar acontecerá em 9 de fevereiro e, novamente, não terá um apresentador principal. Confira a cobertura completa do Omelete no site e as redes sociais.

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