Entenda por que Corpo Fechado é tão importante para o cinema de herói

Créditos da imagem: Corpo Fechado/Touchstone Pictures/Reprodução

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Entenda por que Corpo Fechado é tão importante para o cinema de herói

Antes da fase atual, dominada pela Marvel e DC, M. Night Shyamalan foi um dos precursores do gênero como o conhecemos

Mariana Canhisares
23.01.2019
09h46

Corpo Fechado não parecia se tratar de um filme de herói à primeira vista. Na realidade, o pôster mais sugeria um novo suspense do diretor M. Night Shyamalan - que surpreendera um ano antes com O Sexto Sentido - do que uma trama sobre o universo dos quadrinhos. Porém, quase vinte anos depois, é evidente como a história de David Dunn e Elijah Price influenciou muitos dos elementos que tornaram a atual Era dos Heróis o sucesso bilionário que é. Sem recorrer ao que fora clássico às produções deste gênero até então, como colãs e personagens caricatos, Shyamalan aproximou a figura dos super-humanos à vida mundana de seus espectadores, levando-os pela jornada de dois protagonistas em busca de propósito.

Como fã declarado de quadrinhos, o diretor sabiamente usou artifícios tradicionais das publicações para criar sua narrativa original, a começar pelo próprio nome do personagem de Bruce Willis. A repetição do “D” lembra criações da Marvel, como Peter Parker, Bruce Banner, Matt Murdock e tantas outras. Há ainda a escolha de caracterizar David e Elijah visualmente através das cores - recurso mais tarde usado à exaustão por séries da Netflix como Os Defensores. Atribuindo verde a Willis e roxo para o especialista em HQs de Samuel L. Jackson, o cineasta introduziu discretamente uma espécie de código para que o público identificasse o herói e o vilão do filme. Entretanto, talvez o mais importante dos empréstimos das histórias em quadrinhos seja justamente a relação entre estes dois personagens.

Sem o vilão, o herói não cresce

Corpo Fechado/Touchstone Pictures/Reprodução

David e Elijah representam opostos para além do dualismo das figuras do mocinho e do antagonista. Enquanto o segurança é inquebrável, o único sobrevivente de um acidente de trem fatal, Jackson vive um homem diagnosticado com osteogênese imperfeita, isto é, uma doença genética que torna seus ossos frágeis como vidro. Essa contraposição de realidades impulsiona o crescimento de ambos ao longo da trama, colocando-os, enfim, para assumirem suas identidades como vigilante e gênio do mal.

Dinâmicas semelhantes foram exploradas no universo cinematográfico da Marvel, sobretudo nos filmes de origem de alguns dos seus super-heróis, como em Pantera Negra. O contraste entre T’Challa e Killmonger, porém, não parte do físico dos personagens, mas de visões sobre qual é o papel de Wakanda em um cenário tão grave de racismo no mundo inteiro. Pode-se observar um jogo semelhante também em Homem-Formiga, com um quê mais maniqueísta. Scott Lang e Darren Cross têm visuais e habilidades parecidas, mas vestem seus uniformes com propósitos distintos: um quer ampliar o poder de destruição nas guerras, enquanto o outro quer impedi-las. Ainda assim, T’Challa e Scott entendem muito do que é ser um herói por causa do embate com seus adversários. Sem eles, não evoluiriam.

Heróis falhos e vilões humanos

Corpo Fechado/Touchstone Pictures/Reprodução

De modo semelhante ao que fez a Marvel Comics, Shyamalan também tirou a figura do super-humano do Olimpo e o trouxe para a realidade do seu público. Embora tenha uma força extraordinária, David Dunn não é perfeito. Na realidade, ele leva uma vida bastante comum: tem emprego, um casamento desgastado e dificuldades para criar seu filho. Não é necessariamente um exemplo de moral e bons costumes - afinal, em sua primeira cena, o segurança tenta trair sua esposa -, mas ainda assim é o nosso herói.

Ao mesmo tempo, a perversidade de Elijah não é de outro mundo. Vê-lo criança, em toda a sua inocência e fragilidade, atesta o quão complexa é a representação deste vilão. Ele tem traumas e ressentimentos que não justificam seus atentados, mas dão consistência para a sua humanidade.

No MCU, talvez a editora não tenha dado a devida atenção aos seus vilões - os mais notáveis certamente são Loki e Killmonger. Mas a representação de seus protagonistas como pessoas falhas, longe da perfeição, nunca se perdeu nestes 10 anos de história. Basta observar Vingadores: Guerra Infinita. Orçamento milionário e efeitos visuais à parte, Peter Quill e Thor são bons exemplos de que heróis tomam também decisões no impulso, não importa se são deuses ou não. O Homem-Aranha nunca perdeu sua qualidade de amigão da vizinhança em nenhuma das suas representações em Hollywood. Até mesmo Tony Stark e Steve Rogers vivem dramas nos seus relacionamentos.

Ao trabalhar com fatores como empatia e identificação, o cineasta indiano trouxe certamente um respiro ao cinema de herói, dando tridimensionalidade aos personagens. Algo que a Marvel soube aproveitar muito bem anos depois.

Realista antes da trilogia do Nolan

Corpo Fechado/Touchstone Pictures/Reprodução

O mesmo realismo que dá aos seus personagens, Shyamalan aplica à estética de Corpo Fechado. Mesmo trabalhando com cores, o visual do filme não é nada parecido com o que Jack Kirby colocava nas páginas - ou o que Thor: Ragnarok mostrou em 2017. Tratando-se de um suspense, tudo tem um lado mais sóbrio e, às vezes, até sombrio, algo pouco trabalhado em filmes de herói até então.

Mas, em 2005, um conceito baseado em realismo fantástico acabou se provando valioso para resgatar o Batman nos cinemas após o fiasco de Batman & Robin. Sob o comando de Christopher Nolan, o Homem-Morcego se aproximou mais do seu espectador na trilogia do Cavaleiro das Trevas, levando-o para uma Gotham mais palpável e apresentando-o a personagens de carne e osso. Nolan provavelmente não se inspirou em Corpo Fechado para formular esse projeto, mas não há dúvidas de que, dentro do gênero, Shyamalan foi precursor neste quesito.

Obviamente, esses recursos, seja espelhar herói e vilão ou dar mais realismo ao universo desses personagens, não foram idealizados por Shyamalan. Na realidade, nasceram todos nos próprios quadrinhos - e o uso da metalinguagem no filme não deixa dúvidas. No entanto, foi o diretor que os levou para o cinema do gênero com tamanha relevância e humanidade. Ele que mostrou o quão interessante eles podem ser nas telonas para o público, mas sobretudo para os estúdios.

“Quadrinhos eram considerados algo com pouco apelo comercial”, contou o cineasta durante a CCXP18 sobre a época do lançamento de Corpo Fechado. “Eles pensavam que apenas pessoas que vão em convenções se interessariam por esses filmes. O quão irônico é isso agora?”.