Cena de A Travessia que recriou as Torres Gêmeas antes do 11 de setembro

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11 de setembro, 20 anos depois | O impacto dos atentados na cultura pop

Como os atentados da al-Qaeda contra os Estados Unidos afetaram a TV, o cinema e mais

Eduardo Pereira
10.09.2021
18h34
Atualizada em
10.09.2021
18h58
Atualizada em 10.09.2021 às 18h58

Em 11 de setembro de 2001, uma série de quatro ataques coordenados pela organização fundamentalista islâmica internacional al-Qaeda mudou o rumo dos Estados Unidos e, consequentemente, da sociedade ocidental como um todo. Com a queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, tomando forma como símbolo do terrorismo no século XXI, foi redesenhada toda a geopolítica ocidental, passando a reverberar o pânico e a paranoia amplificados pelos eventos daquele dia. 

Como berço de Hollywood e país de origem de boa parte do entretenimento consumido mundo afora, os Estados Unidos viram suas respostas aos atentados repercutirem também na cultura e na percepção da realidade tida por muitos outros países. 20 anos depois dessa data, são inúmeras as respostas ao 11 de setembro que podem ser encontradas na história do cinema, da TV, da música e da literatura desde então; todas parcialmente responsáveis por esse movimento global de reinterpretação e reavaliação de uma tragédia. Relembre com o Omelete algumas das mais marcantes.

O dia em que a TV parou: o 11/9 na telinha

Nós já explicamos por aqui como e por que a noção de que o plantão da Rede Globo teria interrompido um momento-chave de Dragon Ball Z, para noticiar a queda das Torres Gêmeas, trata-se de um delírio coletivo. A verdade é que, por mais que tenham monopolizado boa parte da programação da emissora naquele dia, os ataques do 11 de setembro não provocaram um caos tão marcante na TV brasileira. Nos Estados Unidos, por outro lado, o impacto foi imediato e profundo.

Com o susto dos ataques e a necessidade de priorizar a informação para pessoas que se viam sob uma constante sensação de ameaça e incerteza, as emissoras de TV norte-americanas adotaram três diferentes estratégias. A primeira consistia em suspender totalmente a programação normal para retransmitir conteúdo de canais que cobriam os atentados. Foi o que fizeram ESPN, ESPN2, e SoapNet (que retransmitiram ABC News), MTV, VH1Nick at Nite, e TNN (que retransmitiram CBS News), TBSTNTCourt TVCNNfnCNNfyi, e CNN Sports Illustrated (que retransmitiram CNN), Fox Sports NetFXSpeedvision, e OLN (que retransmitiram Fox News Channel) e Home Shopping Network (que retransmitiu CBC's NewsWorld International).

A segunda opção adotada por alguns canais foi interromper de forma definitiva suas transmissões, basicamente saindo do ar, como ocorreu com Food Network, HGTV, Fine Living, DIY, Shop at Home, QVC e Oxygen. Já canais infantis, científicos e voltados exclusivamente a entretenimento, como NickelodeonThe Disney ChannelCartoon NetworkComedy CentralA&E Network, The History ChannelGame Show Network (GSN), USA NetworkSci-Fi Channel, e Bravo, foram com a terceira via: permaneceram no ar, sem alterações.

Com o passar dos dias após os atentados, foi crescendo o impacto deles sobre a programação tradicional desses mesmos canais, que passaram a tirar de circulação tudo que pudesse tocar na ferida deixada pelo terrorismo junto ao púbico. Na NBC, um episódio inteiro da oitava temporada de Friends teve de ser reescrito e regravado por envolver uma piada com bomba em avião. A abertura de The Sopranos, da HBO, foi alterada, entre a terceira e quarta temporada da série, para remover uma imagem das Torres Gêmeas. O infantil A Vila Sésamo passou a abordar o trabalho dos bombeiros e outras questões ligadas ao resgate de vitimas do 11 de setembro. Isso sem falar no episódio de Os Simpsons intitulado "The City of New York vs. Homer Simpson", que teve suas reprises canceladas por se passar quase inteiro no interior do World Trade Center.

Muito além do Homem-Aranha: o 11/9 nas telonas

Quem já acompanhava o Omelete no início dos anos 2000 certamente se lembra do impacto deixado pelo primeiro teaser de Homem-Aranha (2002). A prévia, que você relembra acima, revelava apenas nos momentos finais se tratar de um material promocional para um filme do herói da Marvel, com uma teia gigante colocada entre as duas torres do World Trade Center. Depois do 11 de setembro, a Sony não só teve de tirá-la de circulação, como também editou cenas do filme que mostravam a paisagem de Nova York com os prédios. A produção não foi a única, já que a lista de filmes que tiveram de ser editados, eliminando referências não intencionais aos atentados inclui títulos como Zoolander (2001), Refém do Silêncio (2001), Escrito nas Estrelas (2001), Beijando Jessica Stein (2001), A Herança de Mr. Deeds (2002), O Pequeno Stuart Little (2002) e O Articulador (2002).

Em alguns casos, produções já lançadas à época também tiveram alterações, uma vez que poderiam ser exibidas novamente na TV norte-americana ou seriam relançadas no mercado de home video. Em exibição realizada pelo canal ABC, em 2002, Armageddon (1998) teve excluídas cenas que mostravam as Torres Gêmeas sendo atingidas por meteoros; Esqueceram de Mim 2 - Perdido em Nova York (1992) também passou a ser reprisado sem cenas em que Kevin McCallister aparecia no topo do World Trade Center; Homens de Preto 2 (2002) trocou o cenário de seu terceiro ato, dos prédios que foram derrubados para a Estátua da Liberdade; e a animação da Disney Lilo & Stitch (2002) teve de ter seu terceiro ato, que giraria em torno de um avião desgovernado em uma cidade, trocada por uma nave fora de controle na costa do Havaí.

Adiamentos e cancelamentos também tomaram o cinema dos Estados Unidos, à época dos ataques. O longa A Máquina do Tempo (2002) ficou retido por três meses para se livrar de uma cena na qual um meteoro destruía a cidade de Nova York. Efeito Colateral (2002), com Arnold Schwarzenegger, levou quatro meses a mais para ser lançado, e o já naturalmente questionável Grande Problema (2002), com Tim Allen, amargou sete meses na geladeira por envolver o contrabando de uma arma nuclear em um avião comercial. Má sorte, mas menos do que projetos como Nosebleed, filme que veria Jackie Chan como um limpador de janelas do WTC que enfrentava terroristas, ou True Lies 2, que mais uma vez colocaria Schwarzenegger contra os inimigos da pátria estadunidense; ambos os projetos foram cancelados.

Embora apenas dois filmes até hoje tenham sido frontais, ainda que focados em ângulos de superação e sobrevivência, em sua abordagem aos eventos do 11 de setembro (no drama protagonizado por Nicolas Cage As Torres Gêmeas, de 2006, e no tenso Voo United 93, de Paul Greengrass, também lançado no mesmo ano), é possível afirmar que boa parte da produção cinematográfica dos EUA envolvendo temas políticos foi diretamente influenciada pelo 11 de setembro. Da sátira de Borat (2006) ao drama de Guerra ao Terror (2008), até a escancarada denúncia dos abusos de poder da era de George W. Bush no governo dos EUA (segundo muitos, prolongada graças ao medo causado pelos ataques terroristas da data) em Vice (2018), Hollywood nunca precisou recriar diretamente os atentados para retratá-los em subtextos centrais à sua produção.

As Torres Gêmeas foram trazidas de volta à vida, sim, em outros contextos: tanto como homenagem quanto por retratos históricos, como em cenas ambientadas nos anos 1980 em Munique (2005), bem como em Watchmen (2009) e em O Ano Mais Violento (2014); na cena final do apelativo Lembranças (2010), além de no angustiante retrato histórico setentista A Travessia (2015), de Robert Zemeckis. Entretanto, é como fonte de um novo vilão para o entretenimento produzido nos Estados Unidos que o 11 de setembro se torna mais emblemático, fazendo com que o terrorismo promovido por grupos extremistas islâmicos tomasse por muito tempo o lugar de chineses, soviéticos ou outros rivais europeus como vilões em filmes de pouca sensibilidade geográfica e social.

No artigo "Tropos Reciclados e a Persistência da Islamofobia em Filmes Norte-Americanos" (em tradução livre), a bacharel em Cinema Meagen Tajalle aponta como filmes como o supracitado Guerra ao Terror, Argo (2012), A Hora Mais Escura (2012) e Sniper Americano (2014), ainda que trabalhem o que parece ser uma mensagem denunciatória dos horrores da guerra, o fazem de perspectiva puramente nacionalista, desumanizando e vilanizando a figúra arábica de forma a alimentar medos e reforçar preconceitos que só ganharam força desde o 11 de setembro. Além disso, muitos desses filmes reforçam o que ela chama de tropo do "muçulmano bom e muçulmano ruim", que costuma ceder humanidade apenas a personagens árabes que abandonam suas raízes e costumes em nome daquilo que é comum ao ocidente.

O som dos ataques: o 11/9 na música

Os atentados de 11 de setembro também reverberaram com força no mundo da música, provocando grandes mudanças, derrubando e exaltando gêneros e alterando o cenário da indústria. Com a identidade nacional norte-americana fragilizada pelo terror, sentimentos de conservadorismo, religiosidade e tradição ganharam força, o que é bem exemplificado no sucesso da banda de rap metal cristão P.O.D, que havia acabado de lançar seu álbum Satellite quando a al-Qaeda lançou seus ataques sobre os EUA. Com uma mensagem de positividade inserida em um gênero agressivo, o grupo viu sua popularidade nos anos 2000 ascender, enquanto outras bandas de nu metal e rap metal começaram a cair no ostracismo.

Em exemplos mais diretos da influência dos atentados, a tragédia forçou a banda alemã de metal industrial Rammstein a cancelar o lançamento do videoclipe de "Ich Will", que trazia um dos membros do grupo vestido como um bombardeiro suicida. Na Inglaterra, a banda de rock Bush fez duas mudanças no álbum Golden State (2001): a música "Speed Kills" passou a se chamar "The People That We Love" e a capa do álbum deixou de mostrar um avião comercial. Já na Itália, onde o músico britânico Sting fazia uma apresentação musical transmitida on-line exatamente em 11 de setembro, o setlist foi interrompido após uma só música, com as notícias dos ataques. Mas foi nos Estados Unidos mesmo que os maiores efeitos foram sentidos, é claro.

Madonna, Aerosmith, Janet Jackson, 30 Seconds to Mars, Dream Theater, Michael Jackson, Blink-182, Jimmy Eat World e mais e mais artistas de popularidade gigantesca viram suas agendas serem alteradas, clipes sendo reconfigurados e músicas repensadas, a partir da tragédia. Em Nova York, um concerto planejado um ano antes para honrar a memória do ex-beatle John Lennon, chamado Come Together, acabou sendo realizado menos de um mês depois dos atentados, tornando-se também um tributo à cidade e às vítimas dos ataques. Até hoje, artistas são influenciados pelo 11 de setembro e seus desdobramentos para produzir arte que promova cura ou reflexão. De Green Day com "American Idiot" ao Fleetwood Mac com "Illume (9-11)", passando pelos Beastie Boys com "An Open Letter to NYC" até chegar a "My Last Breath", de Evanescence; a lista só cresce.

Holy Terror vs. Kamala Khan: o 11/9 nas páginas

Kamala Khan, nos quadrinhos da Marvel Comics
Marvel Comics/Divulgação

Como não poderia deixar de ser, a literatura logo tornou-se um meio para exorcizar demônios deixados pelo 11 de setembro, e são muitos os livros que oferecem interessantes e envolventes ângulos sobre a tragédia. Famoso aqui no Brasil pela adaptação cinematográfica Tão Forte e Tão Perto (2011), o livro Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, tornou-se referência em narrativas sobre o trauma deixado pelos atentados. Ele aborda de forma criativa o processo de luto de um menino de nove anos que perdeu o pai nos ataques ao World Trade Center.

Em trabalho biográfico, a autora Amani Al-Khatahtbeh produziu Muslim Girl: A Coming of Age, um relato essencial sobre como foi crescer nos Estados Unidos enquanto jovem mulher muçulmana, no pós-11 de setembro e em meio à crescente islamofobia potencializada pelo medo de mais ataques. Já na ficção de Os Filhos do Imperador, a escritora norte-americana de ascendência argelina Claire Messud coloca a tragédia de pano de fundo para o retrato de três amigos de faculdade vivendo nos Estados Unidos, nos meses que antecederam os ataques.

Com o distanciamento temporal do trauma dos ataques, cresceu a variedade de abordagens dadas por escritores à tragédia do 11 de setembro. Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, a escritora Otessa Moshfegh consegue abordar os ataques com humor e compaixão, construindo uma narrativa satírica conduzida por uma narradora que passa o ano sedada por uma grande variedade de drogas, esperando ser curada de suas dores por hibernação. Ainda assim, talvez seja o trabalho do autor de Reparação, o britânico Ian McEwan, um dos mais impactantes. Em Sábado, ele situa a história em 2003, narrando os efeitos psicológicos deixados pelo trauma dos ataques em um personagem que se vê envolto no medo do futuro.

Para o fã de cultura pop, entretanto, é difícil pensar em um efeito mais simbólico do 11 de setembro, para além das belas homenagens que as maiores editoras do mundo estenderam às vítimas, do que a influência negativa sobre a obra de Frank Miller nos anos seguintes à tragédia. Envolto em um crescente discurso nacionalista, anti-islâmico e conservador, Miller atingiu o ápice do que se manifestava como um desejo de vingança mal direcionado ao lançar a HQ Holy Terror - Terror Sagrado, na crítica de Érico Assis para o Omelete definida como "pura propaganda anti-islâmica, pró-guerra-ao-terrorismo, anti-gente-de-turbante, pró-vingança-pelo-11-de-setembro". Pasteurizando o complexo discurso geo-político em torno das circunstâncias para o acontecimento dos atentados, Miller criou uma narrativa onde um simulacro de Batman dava cabo de caricaturas ofensivas de fieis do Islã, sem se preocupar sequer em apontar dedos para qualquer organização fundamentalista, como a al-Qaeda. Além disso, como apontou à época o colega Grant Morrison: "Celebrar um personagem fictício enquanto ele espanca terroristas de mentira parece uma indulgência decadente quando há terroristas reais matando pessoas reais".

De lá para cá, Miller moderou o discurso, afirmando que não estava pensando direto na época, na qual atravessava um "período sombrio". Em contrapartida, o crescente investimento da Marvel e da DC Comics em representatividade e diversidade, na última década, contribuiu e vêm contribuindo para combater ideias maniqueístas e preconceituosas como as que motivaram o trabalho do autor de Batman: O Cavaleiro das Trevas em Holy Terror. Em curva crescente, personagens como Kamala Khan, a jovem e muçulmana Ms. Marvel da Casa das Ideias, ou o Lanterna Verde muçulmano Simon Baz, vêm ganhando espaço e destaque perante o público de quadrinhos. São retratos que batem de frente com a simplificação racista que, infelizmente, figurou em filmes, séries de TV, músicas e outras publicações impressas nos anos seguintes ao 11 de setembro, mas que hoje ajudam os Estados Unidos e o mundo a colocar em perspectiva o legado dessa tragédia sem direcionar o terror a outras vítimas.

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