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Crítica

Holy Terror | Crítica

Frank Miller realiza o pior trabalho de sua carreira

Érico Assis
02.11.2011
17h11
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Para não dizer que o novo trabalho de Frank Miller não foi totalmente execrado lá fora, vi um comentário positivo: Mark Millar, o quadrinista-marqueteiro autor de Kick-Ass, deu uma twittada pra dizer que há anos não se divertia tanto com um quadrinho. Fora isso, não vi mais nada de agradável ser publicado sobre Holy Terror.

E Miller não ajuda. Enquanto você consegue ler e dar algumas risadas com o sarcasmo duro de Cavaleiro das Trevas 2Grandes Astros: Batman, o homem fez questão de declarar que Holy Terror é pura propaganda anti-islâmica, pró-guerra-ao-terrorismo, anti-gente-de-turbante, pró-vingança-pelo-11-de-setembro. Aí sobe o corretismo político de 50% dos EUA e de 100% do resto do mundo, primeiro, contra o maniqueísmo nós-versus-eles, e, segundo, contra uma guerra mal explicada. Você já foi mais sutil, Miller.

Vendo desta forma, você ainda pode ler a HQ e pensar que Miller está de dedo médio levantado pro politicamente correto e o que quer é polemizar. Talvez ele nem seja de direita, e as entrevistas sejam apenas pose para tirar sarro da crítica e dos leitores (assim como a dedicatória, na página final, a Theo Van Gogh).

Tentando ler assim, na contramão das entrevistas, Holy Terror se sustenta? Não.

A narrativa com o herói Fixer (leia-se Batman) e sua inimiga/amante/protegida Natalie Stack (leia-se Mulher-Gato) protegendo Empire City (leia-se NYC) de um atentado terrorista é entrecortada por caricaturas de líderes políticos, comentaristas de TV e outras figuras que fazem parte do discurso político-terrorista-bélico-midiático. E cenas de homens de turbante armados, símbolos islâmicos, uma plateia de cinema assistindo algo que parece Transformers. Em entrevista, Miller diz que "são os leitores que têm que colocar as palavras ali." As palavras que eu vejo são: "olha aí você assistindo a blockbuster enquanto gente morre e esses pulhas tomam as decisões no seu lugar". Você já foi mais contundente, Miller.

Segunda chance: Miller quer recuperar o maniqueísmo da Segunda Guerra, do Capitão América socando Hitler, da época em que os quadrinhos vendiam aos milhões glorificando as Forças Aliadas. Seria isso? O desenho, que em algumas páginas fica (propositalmente?) amador, tosco, também parece indicar os anos 30 e 40. Mas há motivo para fazer quadrinhos assim em 2011, com sete décadas de gente mais informada e de quadrinhos mais evoluídos - inclusive pelo próprio Miller?

Mas temos que lembrar que este é o mesmo Miller que trouxe o ritmo de videoclipe aos quadrinhos em Cavaleiro das Trevas e que usa sequência intermináveis e gloriosas de splash pages nos tiroteios de Sin City. Ele merece então uma terceira chance: seria Holy Terror um quadrinho experimental? Realmente há quadros que beiram o grafismo incompreensível, há o alto contraste (só com alguns pontos de cor, como os olhos verdes de Natalie e o salto vermelho no meio dos escombros da bomba). Tem uma sequência pesada de texto que deixa imagens terríveis na sua imaginação, lembrando momentos de Elektra Assassina.

Mas aí Miller cai no clichê caquético das páginas em branco, divididas em vários quadros em branco - e se alonga por quatro delas, para representar as vidas perdidas no atentado. Você já foi mais inventivo, Miller.

Quem precisa muito de algo novo de Miller pode satisfazer-se com Holy Terror. Mas corre alto risco de achar o cara caduco e olhar com desconfiança pra alguém que já admirou. Não vale a pena arriscar.

Nota do Crítico
Ruim

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