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Os quadrinhos depois de 11 de setembro

Os quadrinhos depois de 11 de setembro

Marcus Vinícius de Medeiros
11.09.2002
00h00
Atualizada em
21.11.2016
12h03
Atualizada em 21.11.2016 às 12h03

Amazing Spider-Man 36

Moment of silence

Nine of one: A window to the world

A indústria de revistas em quadrinhos deu seu passo decisivo em 1938 quando Jerry Siegel e Joe Shuster, jovens judeus, em meio à Grande Depressão econômica e ameaças de uma nova guerra e do anti-semitismo, criaram o Super-Homem, a resposta para todos os males que assolavam o mundo. A partir de 11 de setembro de 2001, data marcada pelos ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono, formou-se um cenário que, a exemplo de 1938, suscitaria uma resposta franca e catártica por parte dos artistas de diversas mídias e, em particular, das histórias em quadrinhos. De edições especiais luxuosas e novas séries a mudanças temáticas e pequenas referências, o efeito continua ressonando.

A REAÇÃO DE HERÓIS E SUPER-HERÓIS

A Marvel Comics saiu na frente com Heroes, uma edição de 64 páginas com capa pintada de Alex Ross, lançada em novembro de 2001. Contribuíram os mais destacados roteiristas e ilustradores dos últimos tempos - a lista é imensa - não com quadrinhos de super-heróis, mas com imagens que retratassem heróis do mundo real, bombeiros e policiais, acompanhadas de um pequeno texto provendo inspiração e esperança. Como ocorreu nos especiais que o sucederam, Heroes teve sua renda destinada ao fundo de vítimas dos atentados. Ganhou destaque em programas de televisão, teve tiragem esgotada e várias reimpressões.

Dezembro foi a vez de Amazing Spider-Man 36, de J. Michael Straczynski e John Romita Jr., que mostrou a reação de heróis e vilões da Marvel no momento exato em que aconteciam as explosões.

Em janeiro de 2002 a editora lançou o especial Moment of silence, contendo quatro histórias sem texto produzidas por Bill Jemas, Joe Quesada, Kevin Smith, Brian Bendis, Mark Bagley, Scott Morse, Igor Kordey e John Romita Jr., com uma introdução escrita pelo prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani. Surgiu, então, o conceito de The call of duty, três mini-séries situadas no Universo Marvel, a primeira sobre bombeiros, a segunda - escrita por Bruce Jones - sobre policiais e a terceira sobre paramédicos, seguidas por uma série contínua, escritas (com exceção da segunda mini-série) por Chuck Austen.

COALIZÃO DE EDITORAS

O álbum 9-11: Emergency relief foi lançado, em janeiro de 2002, pela Alternative Comics, editada por Jeff Mason. No mesmo mês, foram lançados os dois luxuosos volumes de 9-11: Artist respond, o primeiro pela DC Comics e o segundo por uma coalizão de editoras que incluiu Dark Horse, Image, Chaos!, Oni Press e Top Shelf. Novamente, esteve envolvida uma constelação de artistas tanto dos quadrinhos de super-heróis quanto da cena independente.

O especial da DC é dividido em seis seções: Nightmares, Heroes, Recollections, Unity, Dreams e Reflections, em 223 páginas. Sendo impossível, portanto, apresentar todos os seus destaques, ficamos com uma pequena seleção, ainda que injusta: O Super-Homem reconhece-se como irreal numa história de Steven Seagle e Duncan Rouleau. Na história seguinte, o mestre dos mestres Will Eisner mostra executivos de Hollywood discutindo seu novo blockbuster momentos antes do choque dos aviões com as torres. Kurt Busiek e Brent Anderson reúnem-se para mostrar a repercussão da tragédia em Astro City. Jeph Loeb e Carlos Pacheco produzem um belo conto de Krypto, o Supercão. Neil Gaiman e Chris Bachallo levam-nos de volta ao reino do Sonhar.

A VIOLÊNCIA CONDENADA

Seguindo-se às edições que trataram diretamente dos acontecimentos do dia 11 de setembro de 2001, o mercado de quadrinhos teve de encarar suas causas e conseqüências, o limitação do papel intervencionista dos super-heróis, o fanatismo religioso e a violência contra minorias. Inicialmente, histórias que explorassem destruição em larga escala seriam evitadas. A maior representante da tendência é The Authority, sobre um grupo de super-heróis ultraviolentos que simplesmente não fazem prisioneiros.

Em decorrência dos atentados, a antologia de histórias curtas The Authority: Widescreen teve seu lançamento cancelado, e Brian Azzarello, escritor que substituiria Mark Millar na revista mensal, abandonou o projeto. Azzarello colocaria a Authority enfrentando ninguém menos do que Jesus Cristo. Logo, a série foi descontinuada com o término da fase escrita por Millar. Essa medida, contudo, é apenas temporária, já que a sede dos americanos por violência sem sentido e o dinheiro acabam falando mais alto.

TEMAS RELEVANTES

Na direção oposta, J.M. DeMatteis vem tratando de forma inteligente de temas como espiritualidade e redenção na revista do Espectro da DC Comics. Peter David dedicou uma história da Justiça Jovem ao ódio irracional em Young Justice 43. O croata Darko Markan criticou o imperialismo norte-americano numa história de Cable passada no Rio de Janeiro. Judd Winick, por sua vez, voltou a tratar da intolerância contra homossexuais com o Lanterna Verde, numa trama que se inicia em Green Lantern 154. Greg Rucka abordou a mentalidade dos talibãs em sua série de espionagem na Oni Press, Queen and country. Nas revistas do Super-Homem, o fanatismo religioso foi um dos temas centrais do recente Return to Krypton II. Geoff Johns traçou a linha que distingue o ideal americano do governo do país em Superman 185 e Chuck Austen narrou a comovente amizade do kryptoniano com um policial de Metrópolis em Man of Steel 129. Já Grant Morrison e Mark Millar, atuais escritores de X-Men, revista que, desde seu início, trata do preconceito, não se desviaram do assunto. O primeiro introduziu uma personagem islâmica em New X-Men, e o segundo disse, em entrevista recente, que estava usando os mutantes em Ultimate X-Men como alegoria para o povo islâmico.

A SUPERAÇÃO DOS PROBLEMAS

Passado um ano, novos projetos continuam sendo feitos. Recentemente, foi lançado o álbum francês Le 11eme Jour, com a história de Sandrine Revel, uma artista que estava em Nova York no dia dos atentados. Nine of one: A window to the world, uma mini-série em três edições da estreante Immedium, do quadrinhista Oliver Chin, com lançamento previsto para dezembro, mostra nove adolescentes da Califórnia, de diferentes etnias, lidando com o tumulto que sucedeu o atentado.

A polêmica declaração de Grant Morrison, de aproximar os super-heróis da realidade, vai gradualmente sendo mais bem aceita e compreendida; principalmente porque o que ele propõe não é nada novo. Na verdade, trata-se da função para qual os super-heróis foram criados. Passar do mundo real para um mundo imaginário como o da Authority onde também prevaleçam a violência e o ódio não é e não será jamais escapismo saudável. O mundo dos super-heróis deve trazer a superação desses problemas, que reside na vida e não na morte, no herói que perdoa e não mata por acreditar na capacidade de evolução do espírito humano. Esta foi a declaração de Grant Morrison. Assim devem ser os verdadeiros super-heróis. Hoje e sempre.

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