Coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Montagem Omelete/Reprodução

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Dicas do Hessel #004: Um mestre dos animes justiçado

Na coluna da semana, confira grandes dicas de animes de Isao Takahata

Marcelo Hessel
24.04.2020
15h19
Atualizada em
29.05.2020
17h39
Atualizada em 29.05.2020 às 17h39

Com a leva de filmes do Estúdio Ghibli disponível na Netflix, é possível não apenas rever os clássicos modernos do "Disney japonês", Hayao Miyazaki, mas também conhecer ou revisitar a obra do seu principal parceiro de trabalho, Isao Takahata, falecido em 2018. Os dois fundaram o Ghibli em 1985 quando Takahata completou 50 anos, e a relação se firmou como uma rivalidade criativa - como mostra o documentário Reino de Sonhos e Loucura. Nessa dinâmica, os diretores amadureceram juntos, e seus filmes se encontram frequentemente em temas e tons.

Nos seus últimos trabalhos, Takahata se tornou mais experimental com o traço livre, numa busca minimalista pela essência narrativa. Isso hoje é identificável também nas obras de outros diretores, como Hideaki Anno e Mamoru Hosoda, contemporâneos "boomers" que, querendo ou não, beberam na fonte do Estúdio Ghibli. Os principais longas de Hosoda também estão na Netflix, e aproveito para indicar três deles - não só como uma justiça histórica (Hosoda foi trabalhar na Toei depois de tentar uma vaga no Ghibli, sem sucesso) mas também porque sua obra toca de leve a de Takahata nas experimentações visuais. Boas sessões e não deixe de assinar nossa newsletter para receber as dicas antes de todo mundo.

Memórias de Ontem

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Depois de realizar seu filme mais conhecido, Túmulo dos Vagalumes, sobre a Segunda Guerra Mundial, Isao Takahata se voltou para um tema mais leve nesta animação de 1991, e acabou que as crônicas familiares, com recortes de dia a dia em uma colcha nostálgica sem relações amarradas de causa e efeito, voltariam também em filmes seguintes. Na minha opinião, é onde Takahata brilha, com piadas sobre o cotidiano, numa contação que se aproxima do fluxo de consciência e justifica os tons pastéis e as aquarelas de sonho. Memórias de Ontem tem algumas das paisagens mais bonitas do Ghibli.

Disponível na Netflix.

Pom Poko

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Se Memórias de Ontem já defendia a natureza como um lugar de refúgio e verdade a ser zelado, isso se torna o mote principal em Pom Poko, filme com o clássico viés ambientalista tão frequente no Estúdio Ghibli. É o seu trabalho solo em que Takahata se deixa mais influenciar por Miyazaki, no antropomorfismo da Batalha dos Guaxinins e também na escalada de pirações monstruosas que encaram o sobrenatural com um misto de horror e maravilhamento.

Disponível na Netflix.

Meus Vizinhos, os Yamadas

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Takahata volta às crônicas familiares, num filme que já começa a tratar a experimentação visual e o minimalismo como um projeto narrativo de fato. É como assistir a um desenho ganhando vida ao vivo enquanto se desenrola, nesta história de uma família disfuncional envolta em pequenos dramas de formação. Se Takahata está interessado em encontrar uma essência emocional daquilo que conecta esses personagens, além de seus óbvios laços de sangue, então o traço minimalista pode ajudar nessa curiosa e divertida investigação.

Disponível na Netflix.

O Conto da Princesa Kaguya

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O derradeiro filme de Takahata é também a sua obra-prima. Essa fábula que revisita os mitos do folclore japonês (assim como Pom Poko), sobre uma ninfa que nasce de um broto de bambu e se torna alvo de um cortejo masculino, une perfeitamente forma e conteúdo, dentro dos interesses visuais do cineasta na época. As aquarelas muito leves e o traço minimalista têm muito a ver com a efemeridade da vida que está no centro da história de Kaguya. Um filme muito triste e muito belo em medidas iguais.

Guerras de Verão

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Mamoru Hosoda vinha dos animes de combate, como Digimon e One Piece, quando começou a dirigir seus longas autorais. Há resquícios disso em Guerras de Verão, mas o filme tem um título péssimo que não condiz com o que oferece. Hosoda acaba juntando a aventura lúdica com a crônica familiar num pacote muito interessante que faz comentários sobre dinâmicas da modernidade do Japão atual em contraponto com as tradições de solenidade respeitadas até hoje no país.

Disponível na Netflix.

Crianças Lobo

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O filme mais Ghibli de Hosoda. A história de duas crianças lobisomens tem o teor de fábula ambientalista e de desabrochar feminino que se habituou a associar ao estúdio de Hayao Miyazaki. Hosoda, porém, desenha fisionomias e movimenta fundos com um traço que se aproxima um pouco do minimalismo de Takahata, algo que já dava pra perceber de leve em Guerras de Verão. O resultado é um trabalho muito sensível que sabe valorizar cada movimento e se destaca pelos gestuais, e a partir deles constrói os vínculos entre esses personagens marcados por relações e comportamentos "primais".

Disponível na Netflix.

O Rapaz e o Monstro

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Uma questão que interessa a Hosoda pelo menos desde Guerras de Verão é o encontro do tradicional e do moderno, e esta aventura de espadachins promove esse cruzamento com mais uma experimentação visual. O design dos personagens e as fisionomias lembram traços "antigos" na linha de Osamu Tezuka e do próprio Miyazaki, mas Hosoda os insere em ambientes e em meio a elementos de computação gráfica que são bastante contemporâneos, a exemplo dos neons da metrópole. Assim como Takahata, Hosoda parece depurar com o tempo suas fixações criativas em direção a um equilíbrio que una as diferenças.

Disponível na Netflix.