Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Divulgação

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Dicas do Hessel #029 | Travessuras em clima de Halloween

Cam, Madrugada dos Mortos e mais!

Marcelo Hessel
23.10.2020
10h00
Atualizada em
20.10.2020
09h37
Atualizada em 20.10.2020 às 09h37

Tongue-in-cheek é uma figura de linguagem de difícil tradução (“língua na bochecha”? “Linguinha de fora”?) usada em inglês para denotar uma ironia na forma de comunicar algo. Nos filmes de horror, o tongue-in-cheek frequentemente se refere a toda uma subdivisão de filmes que convidam o espectador a jogar conscientemente com as convenções do medo, num acordo lúdico. São filmes que logo de cara se apresentam como comentários metalinguísticos sobre o próprio cinema de horror, o que, em tese, desarma o pavor e pode tornar a experiência toda dos sustos mais divertida.

Ora, a própria natureza da festa do Halloween, como se celebra todo 31 de Outubro, com suas regras de “travessuras ou gostosuras”, já implica que o prazer e a ameaça caminham juntos. Na seleção das Dicas do Hessel desta semana estão sete filmes que oferecem - com resultados distintos, do neurótico ao francamente paródico - algumas variações sobre o cinema de horror autoconsciente, em clima de Dia das Bruxas.

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O Hóspede

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Antes de A Babá oxigenar para o público adolescente o subgênero do horror de vizinhança, este filme de Adam Wingard já brincava com as convenções do terror de uma forma mais orgânica. A história de um veterano de guerra que é acolhido pela família de um companheiro de combate é cheia de comentários irônicos (sobre família, traumas, a guerra) mas nunca se deixa distrair pela tentação de transformar tudo isso num jogo exibido de metalinguagem; Wingard acredita nas convenções e, embora o filme seja cheio de sarcasmo, em O Hóspede isso não se confunde com cinismo.

Disponível na Netflix

Madrugada dos Mortos

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O melhor filme de Zack Snyder é um veículo ideal para seus exercícios de estilo, porque afinal o gênero de zumbis já estava bem esgotado em 2004, quando ele realizou este remake do clássico de 1978, e na impossibilidade de melhorar as metáforas políticas de George Romero só restava esvaziar esses sentidos e se entregar ao prazer cinético do horror, com mortos-vivos devidamente acelerados na ação (que Snyder pegou de Extermínio, de 2002, e seriam depois replicados ad infinitum em Rec, Dead Space e outros produtos do gênero).

Disponível no Amazon Prime Video

Matinee - Uma Sessão Muito Louca

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Entendido como entretenimento barato, o cinema de horror sempre esteve ligado em Hollywood com truques de publicidade (seja nos encontros de criaturas nos filmes de Monstros da Universal nos anos 1930, seja nas experiências extrafilme que William Castle oferecia nos cinemas nos anos 1950). Esta comédia de horror de Joe Dante homenageia a esperteza e o senso de oportunidade dos gênios do gênero, na figura de John Goodman, que interpreta um produtor de cinema que aproveita a Crise dos Mísseis de Cuba para promover a premiére de seu novo filme de terror na Flórida. Lançado em 1993, Matinee é o desenvolvimento natural do movimento de cinefilia que marcou a geração de Dante e John Landis, de filmes que declaram seu amor ao cinema por meio dos filmes de horror, como Um Lobisomem Americano em Londres e os dois Gremlins do próprio Dante.

Disponível no Amazon Prime Video

Hotel da Morte

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Os filmes de horror do diretor Ti West partem da constatação de que tudo no gênero já foi feito, então, antes de mais nada, é preciso recontextualizar o medo, convencer o espectador pela dramaturgia e não pelas trucagens. É por isso, por exemplo, que The House of the Devil demora para entregar os sustos do seu clímax; é preciso antes “contar a história”. No caso de Hotel da Morte, sobre funcionários de um hotel que decidem filmar os supostos fantasmas do lugar, filme que foi lançado já numa época de esgotamento do formato do found footage, todas as artimanhas são acessórias, sejam os movimentos de câmera visando o susto, sejam as graças de roteiro para ironizar o falso documentário. O que é essencial no filme é um elemento de dramaturgia: o ocaso dos seus personagens, que não têm projeção de carreira, de vida, e se descobrem encostados num hotel falido como verdadeiras almas penadas. Que efeito isso provoca neles? Há uma maneira aí de reencontrar uma verdade dramática no horror e Ti West sem dúvida a aproveita em todo o seu potencial.

Disponível no Looke e Netmovies

A Casa de Cera

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As pessoas começaram a levar Jaume Collet-Serra a sério depois que ele fez A Órfã em 2009, mas quatro anos antes o diretor catalão já tinha colocado sua assinatura neste remake do clássico horror B estrelado por Vincent Price. Subestimado demais, visto em 2005 como “o terror da Paris Hilton”, A Casa de Cera é um horror ontológico de primeira, em sua homenagem sádica ao slasher movie, com seus personagens-manequins fadados a se enfileirar como vítimas. Desde aquela época Collet-Serra já demonstrava talento para organizar o espaço da ação em torno de potenciais de plasticidade e movimento, o que mais tarde se comprovaria e se expandiria nas colaborações suas com Liam Neeson e também no terror Águas Rasas.

Disponível na Netflix

Cam

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Quando já parecia esgotado o horror da era do Facebook, dos filmes encenados através de navegadores ou telas de celular, eis que o diretor Daniel Goldhaber lança este terror que transcende as preocupações mais imediatas desse tipo de filme (como usar a interface das redes sociais em situações encenadas de suspense?) e parte logo de cabeça para questionar a natureza ilusória das imagens como um todo. Cam está mais longe de Atividade Paranormal do que de Missão: Impossível, com seus jogos de espelhos multiplicados à exaustão até transformar a figura humana num avatar artificial, maleável e indestrutível, que só pode existir no território de possibilidades infinitas do cinema.

Disponível na Netflix

Pânico 4

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A morte de Wes Craven em 2015 deixou um gosto amargo, como se fosse um potencial interrompido, mas sua despedida com Pânico 4, que Craven dirigiu quatro anos antes, é muito digna e está em sintonia com a trajetória de metafilmes que o cineasta fazia pelo menos desde A Hora do Pesadelo. A própria essência de Pânico é a metalinguagem, e ao invés de reinventar a roda a franquia foi acumulando camadas e camadas de comentários, filme após filme, até chegar a este quarto capítulo da saga de Ghostface e suas vítimas, que no fim é um grande ensaio sobre mídia e linguagem (lançado nos primeiros anos dos ruídos de cinismo e overdose de informações das redes sociais) e provoca alguns dos melhores curtos-circuitos de Pânico entre a crença na encenação e a desconfiança com os clichês do gênero.

Disponível no Amazon Prime Video

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