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Dicas do Hessel #001: O que assistir na quarentena?

Acompanhe a nova coluna do Omelete para receber dicas preciosas para o seu entretenimento

Marcelo Hessel
03.04.2020
10h00

Aproveitamos este momento de isolamento social e senso de comunidade para colocar em prática uma ideia que já tínhamos há muito tempo no Omelete: criar um espaço que ajude todo mundo a navegar pelo maravilhoso mundo dos canais de filmes por assinatura e dos serviços de streaming - um mundo que pode ser frequentemente confuso e intimidador. É muito filme para escolher, muita série, e as ferramentas de busca online nem sempre ajudam no garimpo das pérolas escondidas.

A ideia é fazer semanalmente uma seleção com sete dicas, com o que há de melhor, mais interessante, mais raro ou mais novo nas principais e mais populares plataformas do mercado. Você vai encontrar uma seleção bem pessoal - com curadoria minha, Marcelo Hessel - e comentários breves sobre essas dicas. Estou aproveitando esses dias de home office para colocar muita coisa em dia, para desbravar os catálogos, assistir a filmes e séries com mais tempo e calma, e é incrível a quantidade de coisas que se acha escondidas nesses acervos. Espero poder compartilhar um pouco disso com você. E para receber essa "programação" antes de todo mundo é só assinar aqui a nossa newsletter

Agora é dar o play!

THX 1138

THX
Divulgação

Antes de se tornar o criador de Star Wars, George Lucas mostrou no seu primeiro longa-metragem, em 1971, que já tinha um faro para prever o futuro. Essa ficção científica sobre uma distopia industrial-religiosa serve de canal para Lucas - recém-saído da faculdade, onde estudou sociologia e antropologia antes de se transferir para a especialização em cinema - discutir questões que estavam na moda em filmes como 2001, Alphaville e La Jetée. Esses dois últimos, aliás, exemplares do cinema francês, fornecem o impulso experimental que a geração de Lucas começou a colocar em prática em Hollywood nos anos 1970. THX 1138 permanece moderno nas suas escolhas estéticas e sua influência pode ser sentida em filmes minimalistas sobre robótica e futurismo hoje, como Ex Machina. Assista na HBO GO.

Amantes (Two Lovers)

Amantes
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Uma das melhores atuações da carreira de Joaquin Phoenix, eclipsada na época do lançamento do filme porque coincidiu com a "turnê" da performance do ator como um rapper mendigato em 2009. O roteirista e diretor James Gray adapta livremente o conto Noites Brancas, de Dostoievski, para contar a história de um amor de perdição que se estende a um pungente relato geracional na vizinhança de Coney Island, em Nova York. A parceria entre Gray e Phoenix gerou os filmes mais conhecidos do cineasta, que quase sempre se situam no Brooklyn natal de Gray, e Amantes é uma grande lição de cinema sobre como criar um universo particular e muito real, palpável, a partir dos espaços escolhidos para ambientar essa história. Assista no Amazon Prime Video.

Pixote, A Lei do Mais Fraco

Pixote
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O cineasta argentino Hector Babenco, naturalizado brasileiro em 1977, produziu os seus filmes mais famosos nesse período, entre Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia (1977) e O Beijo da Mulher-Aranha (1984). Pixote é provavelmente o mais famoso, com o qual Babenco inscreveu seu nome da história do cinema nacional. É um relato semidocumental muito forte sobre o abandono de adolescentes nas ruas de São Paulo, um tipo de docudrama de fundo realista e preocupação social que se tornaria uma marca do cinema brasileiro em ciclos distintos, nas décadas seguintes. Pixote acabou indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, porta de entrada de Babenco ao cinema americano, onde trabalharia também com certa projeção. Assista no Spcine Play (gratuito por 30 dias).

Jogo Perverso (Blue Steel)

Jogo Perverso
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Ensanduichado entre os dois filmes mais lembrados do começo de carreira de Kathryn Bigelow, Quando Chega a Escuridão (1987) e Caçadores de Emoção (1991), Jogo Perverso acabou esquecido no tempo, mas esse suspense de maníaco lançado em 1990 ilustra muito bem as qualidades do cinema da diretora. Jamie Lee Curtis, marcada por seu papel em Halloween, faz novamente uma mulher "fortalecida" pelo trauma, uma policial novata que precisa incriminar um homicida que a persegue. Bigelow sempre mandou muito bem na ação, e este filme já mostra como ela domina a dilatação do tempo para criar suspense, um exercício que fica ainda mais evidente em Guerra ao Terror (2008) e Detroit (2017). Na virada para os anos 90 a diretora estava casada com James Cameron, e é curioso ver em Jogo Perverso como os dois dividem entre si fixações com questões de gênero, violência e sexo em cena. Assista no Amazon Prime Video.

Tuca & Bertie

Tuca Bertie
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Para quem se viu órfão de Bojack Horseman, esta série animada não vai suprir a falta por muito tempo, porque só tem uma temporada, mas a velocidade das piadas e a variedade de situações é tão grande que - a exemplo do que acontecia em Bojack - a sensação é de ser atropelado por informações a cada episódio curto. Tiffany Haddish e Ali Wong fazem as vozes das duas protagonistas, um tucano e um tordo, roommates que se vêm numa situação nova quando elas passam a morar em apartamentos separados num mesmo prédio. A equipe de criadores é quase igual, e Tuca & Bertie repete o conceito de Bojack Horseman, com animais em papéis antropomorfizados, mas aqui o viés de amizade feminina adiciona novos contornos ao humor agridoce. Para rir e chorar. Disponível na Netflix.

Atlantique

Atlantique
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Este filme senegalês ficou disponível online no Brasil no começo de 2020 numa época em que as conversas estavam voltadas para os grandes medalhões do Oscar, e pode ter passado batido para muita gente. É um trabalho muito consistente de Mati Diop, atriz francesa estreante na direção de longas, que colocou seu nome na história por ser a primeira mulher negra diretora a concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme trata de uma jovem na cidade de Dakar, no Senegal, que perde seu amor e é prometida a um homem rico, em meio ao êxodo de jovens que tentam enfrentar o oceano em busca de uma vida melhor como imigrantes. Numa virada sutil, Diop faz dessa história de despertencimento, à primeira vista manjada, um suspense sobrenatural bem original. Disponível na Netflix.

Histórias que Nosso Cinema (não) Contava

Histórias que o nosso cinema não contava
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As discussões em torno do cinema brasileiro podem, frequentemente, se tornar grandes divagações sem base e cheias de achismo porque não é sempre que os filmes chegam de fato à população. A estratégia da roteirista e diretora Fernanda Pessoa neste documentário é usar trechos dos próprios filmes para contar a trajetória da produção audiovisual brasileira na época da repressão da Ditadura: são cenas pinçadas de 30 produções diferentes para entender como esses filmes tinham o dedo no pulso da sociedade e serviam de termômetro para registrar a reação civil à luta armada, à censura, às mudanças de comportamento e às modernidades da época. Além de ser um documentário bem divertido, o longa de Pessoa ajuda a reabilitar as chanchadas dos anos 1970, uma fase fecunda da cultura brasileira que muita gente trata, por moralismo, com muito desdém. Tem na Netflix.