Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Divulgação

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Dicas do Hessel #030 | Possessão e companhia

Suspiria, Perdi meu Corpo e mais!

Marcelo Hessel
30.10.2020
10h00
Atualizada em
27.10.2020
11h57
Atualizada em 27.10.2020 às 11h57

Geladeiras, camas, brinquedos, pneus de carros - não há criatura viva ou objeto inanimado que estejam imunes a possessões demoníacas. O subgênero dos filmes de exorcismo se popularizou de tal maneira ao longo das décadas que saiu do escopo da religiosidade e literalmente tudo parece servir de pretexto para as possessões. A escolha de hospedeiro é livre, prescinde de explicações, e uma vez que a subjugação nem sempre se manifesta de forma grotesca, a escolha é livre e frequentemente secreta - dois ingredientes que tornam esses filmes de horror irresistíveis.

As Dicas do Hessel desta semana, em clima de Halloween, selecionam sete filmes que trabalham com conceitos de filmes de possessão de forma variada, e nem sempre com fins de pavor e pânico.

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Vestido Maldito

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Não satisfeito em brincar com o giallo no metalinguístico Berberian Sound Studio, de 2012, o diretor Peter Strickland volta a homenagear o gênero italiano do horror gráfico neste filme de 2018. A história de uma loja de departamentos inglesa que entra em liquidação e vende um vestido vermelho assassino tem um espírito anárquico de humor negro que combina bem com o cinema inglês, mas formalmente Vestido Maldito está mais ligado ao giallo mesmo - especialmente na sua obsessão pelo pictórico e, claro, na trilha sonora cheia de sintetizadores. A pretensão artística e a despretensão do humor caminham juntos e criam um curto-circuito curioso.

Disponível no Amazon Prime Video

Suspiria

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Falando em giallo, a influência do horror italiano setentista pode ser sentida em cinematografias as mais diversas (no Brasil, um bom exemplo recente é o suspense O Animal Cordial), e um dos melhores filmes a emular as regras do giallo é o remake de Suspiria. O italiano Luca Guadagnino puxou para si a responsabilidade de honrar seus conterrâneos e ele faz uma versão bastante digna do clássico de Dario Argento, relacionando mais literalmente a dança com o horror corporal. O clímax insano deste remake de Suspiria é um objeto estranho no cinema atual de bom gosto e prestígio, e não deve nada ao original; enquanto muita gente fica só na homenagem e na referência, Guadagnino mergulha de cabeça nas cores infernais do giallo.

Disponível no Amazon Prime Video

Christine - O Carro Assassino

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Provavelmente o filme mais famoso e bem sucedido sobre um objeto inanimado que se torna um instrumento incontrolável de fúria e destruição. Por tradição, as melhores adaptações de Stephen King ao cinema são aquelas que viram o texto original do avesso e não é diferente nesta versão dirigida por John Carpenter. Ele acompanha as mudanças na vida de um jovem que realiza sua fantasia de ter um carrão (que rapidamente se revela ser um Plymouth endemoniado) não com o saudosismo da cultura jovem americana dos anos 1950 e sim com a desconfiança de que essa memória trai fetiches de penitência e competição.

Disponível na HBO Go

Possessão

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O filme do polonês Andrzej Zulawski que deu a Isabelle Adjani o prêmio de melhor atriz em Cannes em 1981 (no ano em que ela foi premiada também por Quartet no mesmo festival) aproveita bem o talento de Adjani para fazer papéis de espiral de loucura. Ela e Sam Neill interpretam um casal em crise quando a esposa descobre a infidelidade do marido, evento que desencadeia consequências físicas no corpo da mulher. Zulawski está usando essa história de esfacelamento para tratar da crise nas políticas de bem estar social na Europa da época, mas Possessão não se contenta só com o metafórico; o monstro que desponta a certa altura do filme é uma das criações de Carlo Rambaldi, italiano mais famoso por ter criado o boneco do E.T. de Steven Spielberg.

Disponível no Belas Artes a la Carte

Eli

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Pra mim a cena mais apavorante de O Exorcista é aquela em que Regan é colocada, absolutamente rendida, dentro de uma máquina barulhenta de hospital - e por um momento o exame ganha contornos de tortura. O terror Eli meio que transforma isso na premissa da sua história, sobre um garoto que tem uma condição de imunodeficiência e precisa passar por um tratamento misterioso em busca de uma cura. O diretor Ciarán Foy tira dessa situação bons momentos de pavor e seu filme executa com esmero as cenas de visões e sustos, ao mesmo tempo em que articula com muita segurança uma história de formação adolescente com contornos freudianos. Uma das boas surpresas da Netflix do ano passado.

Disponível na Netflix

Motoqueiro Fantasma 2

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Não há nada de discreto e misterioso neste filme de possessão, porque Mark Neveldine e Brian Taylor são diretores da cinestesia e entendem que o melhor Nicolas Cage é sempre o Nicolas Cage da externação, da presença de espírito e de cena. Tudo nesta continuação - que exorciza os problemas de frouxidão do primeiro filme do Motoqueiro - está a serviço da ação e da entrega de catarse, como aliás já se espera de qualquer trabalho de Neveldine/Taylor desde o primeiro Adrenalina. Sempre é oportunidade de revisitar este filme descomplicado, que honra e homenageia as histórias em quadrinhos da forma mais direta possível: colocando a ação da página em movimento.

Disponível no Amazon Prime Video

Perdi meu Corpo

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Esta animação francesa indicada ao Oscar faz uma releitura interessante das histórias de mãos possuídas - um subgênero completo dentro do horror de possessão, que já rendeu filmes diversos com A Mão (de Oliver Stone) e A Mão Assassina (aquele com Jessica Alba). Aqui a premissa pega um caminho meio Pixar mas, ao invés de reunir Nemo e seu pai, o filme coloca o suspense no possível reencontro de uma mão cortada e seu corpo. Um drama amoroso acompanha o pacote, mas o melhor é mesmo a animação 2D feita com esmero para contar o vaivém e as desventura da mão perdida. Assistir ao gestual (da mão, de câmera, de montagem) que flui de forma muito segura é um grande prazer neste filme.

Disponível na Netflix

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