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A jornada de Zack Snyder até a sua versão de Liga da Justiça

Pouco antes da estreia do Snyder Cut, relembramos os bastidores e polêmicas do filme

Marcelo Hessel
11.03.2021
14h50
Atualizada em
11.03.2021
15h22
Atualizada em 11.03.2021 às 15h22

Para entender a relação de Zack Snyder com a Warner Bros. é preciso voltar pelo menos ao ano de 2007, quando 300 chegou aos cinemas. Naquela época, Frank Miller estava em alta em Hollywood, porque dois anos antes Sin City - A Cidade do Pecado havia chegado às telas com um arrojado projeto estético, que emulava na telona o visual de alto contraste das páginas dos quadrinhos. Snyder decidiu fazer o mesmo no épico grego, que se tornou um sucesso estrondoso para a Warner Bros. No fim de semana de abertura, a bilheteria de 300 foi maior que a de Transformers, um feito tremendo para um filme de censura 17 anos que só custou US$ 60 milhões.

300 era só o segundo longa-metragem de Snyder, um diretor que ganhou visibilidade com videoclipes nos anos 90 e trilhou uma premiada carreira na publicidade. Depois deste, todos os seis filmes seguintes do diretor foram feitos na Warner Bros., que passou a dar carta branca para o cineasta imprimir sua visão ao cinema de espetáculo. Embora esses filmes nunca tenham feito um sucesso comparável ao de 300, Snyder era tido como um especialista em quadrinhos em geral e nos super-heróis da DC em particular, portanto foi escolhido para arquitetar todo o novo universo desses personagens nas telas.

O começo do DCEU

Corta para junho de 2016. Snyder mal tinha completado 50 anos e estava à frente do mais esperado e ambicioso filme da DC, que juntaria Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash, Ciborgue e Aquaman pela primeira vez no cinema. A Liga da Justiça é anterior aos Vingadores nos quadrinhos mas, na telona, a Warner assistiu ao sucesso da fórmula Marvel e tentou replicar essa estrutura, com aventuras solo da Trindade da DC que levariam ao encontro da superequipe. Na maioria das vezes em que visitamos sets de filmagens, nesses 20 anos de Omelete, os diretores sempre parecem exaustos de trabalho, e não era diferente naquele mês de junho, no set de Liga da Justiça, que eu visitei em Londres.

Snyder contava aos jornalistas que sua ideia era homenagear as criações de Jack Kirby, que inventou todo o panteão de personagens dos Novos Deuses nos quadrinhos nos anos 1970, desde o exército de parademônios até o conceito das Caixas Maternas. Para o diretor, o filme deveria ser uma empolgante aventura épica, no mesmo estilo grandioso das HQs de Kirby. Naquela época, Snyder ainda planejava fazer dois filmes, o primeiro com o Lobo da Estepe como vilão, servindo de arauto para a chegada de Darkseid e Apokolips em Liga da Justiça 2. Hoje, olhando em retrospecto, esses planos parecem otimistas demais.

Aquele ano de 2016 foi conturbado para a DC no cinema. Batman vs Superman dividiu opiniões, e Esquadrão Suicida fez dinheiro, mas passou por refilmagens desgastantes e não agradou ninguém. De repente, a Liga da Justiça virou uma questão sensível, e a Warner decidiu colocar os executivos da nova DC Films para acompanhar as filmagens. É importante lembrar que, naquela época, o estúdio estava tentando estabelecer uma operação de negócios própria para a DC. Em 2016, o então diretor criativo da DC Entertainment, o quadrinista Geoff Johns, foi promovido a presidente dessa nova DC Films. Roteirista que fez carreira com quadrinhos históricos do Lanterna Verde e de Aquaman, Johns é um dos nomes que passaram a frequentar o set de Liga da Justiça como uma forma de supervisionar o trabalho de Snyder. O executivo Jon Berg era outro desses supervisores. Em entrevista à revista Vanity Fair, ele conta que seu trabalho era encontrar um meio termo criativo que respeitasse o olhar de Snyder e ao mesmo tempo oferecesse uma aventura mais leve, que era o desejo do estúdio para tentar agradar mais o grande público e os fãs que tinha achado Batman vs Superman sombrio demais.

Conflitos

Em Hollywood é normal que produtores fiquem no set "vigiando" filmagens, já que blockbusters como Liga da Justiça são investimentos desses produtores, que querem ver seu dinheiro aplicado de volta. Começou a ficar claro, porém, que a visão de Snyder e a visão da Warner eram conflitantes. O estúdio cortou algumas ideias do diretor, como um interesse amoroso entre Bruce Wayne e Lois Lane, e fazia questão de ter um filme de 2h no máximo. A certa altura, Joss Whedon foi trazido para escrever cenas adicionais, injetar humor e aliviar o tom do filme. Muito antes de se tornar o diretor de Vingadores, Whedon fez seu começo de carreira com esse tipo de trabalho de bastidores, o chamado "médico de roteiro", contratado para escrever novas cenas e até mudar o tom dos filmes por completo.

Foi o que aconteceu com Liga da Justiça. Depois de uma primeira exibição com os chefões da Warner em janeiro de 2017, Zack Snyder percebeu que seu filme não tinha empolgado o estúdio como ele esperava. Em março, veio um baque imensamente maior. Autumn Snyder, a filha que o diretor tinha adotado quando tinha um ano de vida, cometeu suicídio aos 20 anos, depois de uma longa batalha contra a depressão. E então, dois meses depois, no dia 22 de maio, a notícia caiu no mundo nerd como uma bomba: Zack Snyder estava deixando a direção de Liga da Justiça para ficar mais ao lado da família, e o filme seria finalizado por Joss Whedon.

O resultado todo mundo conhece. Whedon refilmou cerca de 70% de Liga da Justiça, cortou muita coisa, incluiu dinâmicas novas e precisou lidar com o bigode de Henry Cavill, que estava gravando Missão: Impossível - Efeito Fallout na época das refilmagens e não pôde raspar o bigode por contrato com a Paramount. Não é exagero dizer que essa Liga virou um "Frankenstein". No meio dos blockbusters americanos, considera-se que um filme precisa fazer o dobro do que custou para conseguir dar lucro. E a conta do Liga da Justiça de 2017 ficou longe de fechar: o orçamento original era de US$ 300 milhões, as refilmagens com Joss Whedon custaram US$ 25 milhões, e a campanha de marketing saiu por aproximadamente US$ 150 milhões. Isso dá em torno de US$ 460 milhões de gastos, e o filme só fez US$ 657 milhões nas bilheterias. Seis meses depois, Vingadores: Guerra Infinita estreou e fez o triplo. Não dá pra dizer, portanto, que a versão do Joss Whedon foi um sucesso, nem de crítica e muito menos de público.

O caminho para o Snyder Cut

A resposta dos fãs pode se resumir a um sentimento: negação. Rapidamente criou-se um consenso de que Zack Snyder foi injustiçado pela Warner, que não teria sido capaz de enxergar ou pelo menos permitir que o cineasta desse vazão à sua visão artística da Liga. Em primeiro momento, "Snydeus", como os fãs gostam de chamá-lo, assistiu a tudo com um certo distanciamento. A partir do momento em que a hashtag #Releasethesnydercut ganhou força, porém, o cineasta engrossou a torcida e passou a fazer pequenos agrados para os fãs, como soltar fotos de bastidores nas suas redes sociais. As críticas em torno do suposto comportamento de Joss Whedon nas refilmagens, que repercutiram na mídia com declarações de Gal Gadot e Ray Fisher, fortaleceram a posição de Snyder. Nessa época, uma narrativa bastante reiterada em Hollywood era a de que o diretor tinha sido demitido pela Warner, e não pedido demissão. Quando ele escolhe, então, se juntar aos fãs na trincheira do #Releasethesnydercut, em 2019, isso obviamente foi uma forma de reagir e de reivindicar para si a sua própria narrativa. Isso foi, sem dúvida nenhuma, uma vitória dos fãs. A petição online inicialmente conseguiu 180 mil assinaturas e, ao longo de dois anos, o lendário Snyder Cut virou uma mistura de folclore, orgulho e chacota.

Desde o tempo em que Michael Keaton foi o Batman e muita gente torceu o nariz porque o ator vinha com Tim Burton da comédia, a Warner está habituada a movimentos de petição e boicote partindo dos fãs da DC, mas no Snyder Cut isso tomou proporções muito maiores. E então veio a recompensa. Em fevereiro de 2020, a Warner anunciou que lançaria a versão de Zack Snyder, que teria cerca de US$ 70 milhões para finalizar efeitos visuais, em um longa-metragem que, no fim das contas, terá 4h de duração, incluindo um momento com a participação do Coringa de Jared Leto, que Snyder escreveu e filmou recentemente.

Essa não é uma decisão sem precedentes. Em 2006, a Warner também permitiu que Richard Donner montasse novamente as cenas que ficaram de fora de Superman 2, 26 anos depois que o cineasta foi excluído do filme do Homem de Aço. O próprio Zack Snyder teve a oportunidade de lançar versões estendidas de Watchmen e Batman vs Superman em DVD e Blu-ray. No fim, a Warner Bros. não é burra e entende o potencial de agradar o nicho no mercado de home video. Nesse sentido, foi decisivo o fato do streaming HBO Max ter sido lançado em maio de 2020 sem um grande blockbuster na vitrine. A empresa precisava atrair assinantes para o serviço, número que até então estava muito abaixo do esperado. Logo, promover o Snyder Cut como um lançamento da plataforma, teoricamente mata dois coelhos com um bat cajado só: atende os fãs e torna a HBO Max mais atraente para novos assinantes.

A essa altura do campeonato, não faz muita diferença se Liga da Justiça é um filme sombrio demais. Os fãs tiveram seu desejo atendido, e Zack Snyder pode finalmente recuperar a narrativa. O resultado todos vão poder conferir na telinha neste mês, seja na HBO Max nos Estados Unidos, seja em locação digital aqui no Brasil. Já sabemos uma coisa do final do filme: uma homenagem que o diretor faz questão de deixar é a dedicatória nos créditos de encerramento. O Snyder Cut termina com a inscrição "Para Autumn", uma lembrança para a filha de Zack Snyder.

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