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Além do Snyder Cut: a incrível trajetória de Zack Snyder

Repassamos a carreira do diretor, que ficou conhecido como o visionário de Hollywood

A cozinha
01.03.2021
15h40
Atualizada em
01.03.2021
16h19
Atualizada em 01.03.2021 às 16h19

O tão falado Snyder Cut do filme Liga da Justiça foi oficialmente anunciado chegará ao público via streaming em 2021. A versão do diretor Zack Snyder promete corrigir escolhas erradas da versão da Warner e se "redimir" com público e crítica que não aprovou a versão levada aos cinemas em 2017. Mas o que é o Snyder Cut? Qual é a trajetória do diretor e como a sua história ajuda a entender seus processos de cura e solução de problemas? Vamos falar sobre isso no Retrato Omelete, com o polêmico diretor Zack Snyder.

Zachary Edward Snyder nasceu dia 1º de março de 1966 e foi criado na cidade de Greenwich, no estado americano de Connecticut. Sua era seguidora da igreja da ciência cristã, um movimento religioso que não acredita na existência de doenças. Segundo essa doutrina, o corpo humano é uma ilusão, um sonho acordado, e aqueles que conhecem a “verdade” podem ser curados instantaneamente. Zack Snyder estudou em uma escola da ciência cristã na sua cidade e não se destacava exatamente por ser um cientista. Na verdade, ele era tinha dislexia, era muito bom em esportes e, como um bom devoto da sua igreja, mantinha o corpo sempre sarado.

Por causa da educação religiosa, nyder consumia histórias positivas e com temas sagrados. Por isso, George Lucas se tornou uma referência pessoal e profissional imediata, já que Star Wars ocupou boa parte da sua infância. As artes, mais do que as ciências, naturalmente abriram os caminhos para a carreira do futuro diretor. Zack então se transferiu para Pasadena, na Califórnia, para estudar arte e design na faculdade, onde, inclusive, se tornou colega de sala de Michael Bay.

Em 1989, Snyder já havia se graduado e tinha vários trabalhos freelancer dirigindo comerciais para marcas como Budweiser, Nike e BMW. Ao longo dos anos 1990, ele começou a construir um estilo de vida meio Bruce Wayne, com carros caros e casas de construção conceituada. Mas sua conta bancária era obviamente bem menos polpuda do que a do personagem que iria assumir anos depois.

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No início dos anos 2000, Zack Snyder interrompeu sua endinheirada carreira de diretor publicitário para finalmente estrear em Hollywood. Contratado pela Universal Pictures, Zack lançou Madrugada dos Mortos em 2004, um remake do clássico de 1970, dirigido por George Romero. O filme fez um sucesso inesperado e convenceu a Warner de se tornar parceira do diretor na produção do filme 300, uma adaptação do quadrinho de Frank Miller lançado pela Dark Horse Comics. Em seu segundo longa-metragem, Zack Snyder ganhou a oportunidade de fazer sua primeira adaptação dos quadrinhos e consagrar o estilo que abriria seus caminhos em Hollywood.

300 fez quase meio bilhão de dólares de bilheteria internacional e causou tanto burburinho que o presidente iraniano da época, Mahmoud Ahmadinejad, denunciou o filme à ONU alegando que a obra era um insulto para seu povo. A reclamação não teve desdobramentos importantes, a não ser o de dar o hype suficiente para promover o filme e o próprio Zack Snyder, que foi escalado para conduzir aquele que seria o filme mais importante de sua carreira. 

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Watchmen é uma série em quadrinhos escrita por Alan Moore lançada entre 1986 e 1987. A história se passa nos Estados Unidos em plena Guerra Fria e retrata um grupo de super-heróis que se reencontra depois do assassinato de um deles. A obra ganhou destaque pelo simbolismo, pela profundidade e principalmente por retratar super-heróis neuróticos e falíveis, em contraposição aos consagrados perfis heróicos dos deuses perfeitos que popularizaram o gênero décadas antes.

Lançado em 2009, o filme de Watchmen é lembrado como um dos pilares da era de ouro do cinema de super-heróis. Homem de Ferro, um dos primeiros filmes do MCU, e Batman: O Cavaleiro das Trevas, filme que alçou o gênero para a prateleira do chamado “cinema de respeito”, foram lançados um ano antes e dividem com Watchmen o protagonismo de vanguardas do movimento. Assim como fez Frank Miller em 300, as imagens cinemáticas dos quadrinhos de Watchmen facilitaram e muito o trabalho de adaptação de Zack Snyder. Seria realmente difícil fugir da fidelidade tão notável em seu filme. Os desenhos de Dave Gibbons são verdadeiras storyboards e o trabalho do diretor, com suas paletas de cores e escolhas de saturação, faz o espectador sentir que os quadrinhos ganham vida na tela.

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Apesar da relevância artística, Watchmen acabou não sendo um grande sucesso de bilheteria, mas foi fundamental para elevar o status de Zack Snyder como diretor. Uma grande expectativa foi criada quando ele entrou em produção de seu próximo filme. No entanto, quando Sucker Punch - Mundo Surreal estreou nas salas mundo afora, o sentimento geral foi de decepção. A história desse filme é bem sem noção: uma garota chamada Babydoll, que é paciente de uma clínica psiquiátrica, fantasia que é membro de um grupo de prostitutas que luta contra orcs, soldados zumbis e um samurai gigante.

A crítica não só avaliou o filme negativamente como foi até bem cruel com o diretor. A revista Variety disse que “Se aí é onde a imaginação de Zack Snyder vai parar quando ele fica livre para criar seu próprio material, talvez seja melhor que ele continue nas adaptações.”. O próprio Snyder ficou contrariado com o resultado do filme e culpou a Warner, dizendo que o estúdio se recusou a fazer uma versão hardcore para maiores. Essa deve ter sido a primeira semente do que a gente conheceria no futuro pelo nome de Snyder Cut.

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O desastre em forma de filme poderia ter arruinado a carreira de Zack Snyder. Mas ele andava tão bem cotado por causa de seus trabalhos anteriores que acabou convidado a entrar de vez no projeto cinematográfico da DC Comics. Naquela época, a Marvel já havia construído um universo próprio, composto por filmes protagonizados por seus principais heróis, e tudo apontava para a grande apoteose que viria a acontecer já em 2012 com o primeiro Vingadores.

Já a DC precisava reagir e o projeto de um remake do Superman já estava saindo do papel. A ideia era apagar da história o filme de 2006 dirigido por Bryan Singer e inserir o herói no mesmo mundo habitado pelo Batman de Christopher Nolan, projetando o grande encontro da Liga da Justiça no futuro. Foi o próprio diretor da trilogia com Christian Bale que contratou Zack Snyder para encabeçar o novo projeto, chamado de Homem de Aço. Na época, Nolan, que produziu o filme, até disse o seguinte sobre Snyder: “Zack é o cara perfeito para assumir Homem de Aço. Ele é incrivelmente habilidoso para criar um mundo coeso e coerente. (...) Na minha avaliação honesta, criar esse mundo em Superman é muito mais difícil que criar o mundo de Cavaleiro das Trevas. Ele tem muito para finalizar na pós-produção do filme porque, diferente do Batman, o Superman voa.”

Por mais que Zack Snyder tenha sido contratado por suas adaptações anteriores, as técnicas que marcaram sua assinatura não são notáveis em Homem de Aço. Sem as imagens estilizadas - pelo menos não tanto quanto em 300 ou Watchmen - e com restrições para zooms e câmeras lentas, a ideia era manter uma linguagem próxima dos filmes de Nolan, de forma que se mantivesse uma unidade entre as produções. O resultado foi um Superman sombrio e realista que até hoje divide a opinião pública. Para o diretor, foi uma grande oportunidade de apagar o erro de Sucker Punch e demonstrar que é capaz de oferecer outras possibilidades de adaptação de quadrinhos. Por isso, ele herdou a cadeira de chefia no filme que colocou os dois principais heróis da DC frente a frente.

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Quando Zack Snyder defendeu que deveria haver cenas de porrada franca entre Batman e Superman, Christopher Nolan ficou desconfiado. Afinal, o embate era uma aposta sensível demais para quem lutava para manter o páreo contra a Marvel no cinema. O próprio Nolan havia sido contratado no início dos anos 2000 para recuperar a imagem do Homem-Morcego, profundamente manchada pelo filme Batman e Robin, de 1997. Agora, era a vez de Zack Snyder rebootar o personagem e se tornar apenas o quarto diretor na história a dar sua versão do herói nos cinemas. A diferença é que o Batman interpretado por Christian Bale estava em um nível muito superior ao mamiloso de George Clooney e Joel Schumacher. Mas Nolan se lembrou que os super-heróis da DC não pertencem nem a ele, nem a Zack Snyder, nem a qualquer outro diretor. Mais cedo ou mais tarde esses personagens vão acabar sofrendo novos reboots, serão interpretados por novos atores e serão conduzidos por outros cineastas. É inevitável que eles acabem ficando diferentes em algum momento.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça saiu no mesmo ano que seu concorrente direto da Marvel. Capitão América: Guerra Civil, que retrata a divisão dos Vingadores e a batalha entre Steve Rogers e Tony Stark, chegou aos cinemas do Brasil em abril de 2016. Já o embate na DC deu as caras apenas um mês antes por aqui. À sua maneira, cada um dos filmes subverte a velha lógica do bem contra o mal para criar uma zona cinzenta no que entendemos como o bem. Em ambos, o debate ético e moral se estendeu para fora das salas dos cinemas e ainda rendeu quilômetros de conteúdo na internet. Mas as semelhanças entre os dois filmes não vão muito além disso. Batman vs Superman foi considerado um filme menos divertido, menos bem acabado e ainda ficou marcado com um plot twist extremamente duvidoso, quando os heróis fazem as pazes ao descobrirem que a mãe de ambos se chama Martha.

Em março de 2020, durante uma live, Zack Snyder finalmente se pronunciou sobre a cena. Ele disse que “A razão da coisa é que todos nós somos humanos e nos conectamos de alguma forma. Nossas mães têm o mesmo nome é, no fundo, o mesmo que dizer ‘Nós dois temos mães, então nós dois somos humanos’. Mesmo que o Superman seja de outro planeta, sua conexão com a humanidade é tão pura que dá forças ao Batman.”

Por mais que até hoje ainda se tente explicar o significado daquela virada, a fatídica cena da Martha deixou claro que boa parte do público ainda estava mais contente com o estilo mais simples e menos desafiador da Marvel. Ainda assim, a DC manteve o projeto de levar o seu universo estendido até o ponto alto do encontro dos heróis na Liga da Justiça. E Zack Snyder foi também escalado para assumir a empreitada.

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O caminho de Liga da Justiça já era traçado desde os teasers dos personagens em Batman vs Superman. Em 2016, a DC lançou Esquadrão Suicida com a promessa de enaltecer seus vilões e repaginar o Coringa, mas falhou miseravelmente. A enorme intervenção da Warner no corte final surgiu como a justificativa mais plausível para o fracasso retumbante do filme - o que não aconteceria pela última vez entre o estúdio e um de seus diretores. Em 2017, Mulher-Maravilha trouxe um sopro de esperança para o futuro da DC porque conseguiu fazer um feijão com arroz sem se queimar - apesar dos rumores de que o filme teve seu terceiro ato alterado para se encaixar ao estilo de Zack Snyder. O que veio depois foi uma sequência de tragédias.

Em março de 2017, ainda durante a produção do filme, Zack Snyder recebeu a notícia da morte de sua filha Autumn, que tinha só 20 anos de idade. Nessa época, o diretor queria se manter no trabalho, convencido de que, como um devoto da igreja da ciência cristã, seria capaz de se curar da dor sozinho. Só que em maio daquele ano ele e sua mulher, Deborah, que era produtora de Liga da Justiça, acabaram se afastando do trabalho para estar com a família. Quem assumiu a direção do projeto naquela altura foi Joss Whedon, um ex-diretor da Marvel que comandou os primeiros filmes dos Vingadores. Depois de mostrar um corte do filme para uns amigos, Zack Snyder achou melhor adicionar algumas cenas e Whedon deveria escrevê-las e gravá-las. Com a mudança, Liga da Justiça inicialmente manteve a data de lançamento para novembro de 2017, mas o produto final ficou muito distante do que esperava o diretor original. É aí que surge o tal do Snyder Cut.

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Segundo o chefe de produção da Warner, a direção de Joss Whedon seria mínima e teria que estar de acordo com o estilo e o tom estabelecidos por Zack Snyder. Ele garantiu ainda que nenhum novo personagem seria introduzido, apenas algumas cenas novas. No entanto, Whedon acabou adicionando muito mais humor para o filme e alterou algumas dinâmicas dos vilões. A mudança foi tão drástica que o próprio Zack Snyder avalia que o público só assistiu a um quarto daquilo que ele havia planejado para o filme.

A versão que Snyder tinha mostrado para os amigos antes da chegada de Whedon já é considerada como uma versão do Snyder Cut. Claro que essa ainda não estava finalizada, mas era assistível apesar das suas três horas e meia de duração. Para se ter uma ideia, a versão da Liga da Justiça que foi para os cinemas tem duas horas - quase metade da versão de Snyder. Mas Joss Whedon escreveu 80 páginas do roteiro final da Liga, o que, na convenção de Hollywood, equivalem a uma hora e vinte de filme assinado por ele. Para resumir: não é um filme de Zack Snyder, apesar dos créditos dizerem que é.

Mas o que vai ser o Snyder Cut? Essa resposta nós ainda não temos, mas podemos especular de acordo com o que era o filme antes da entrada de Joss Whedon. A primeira versão do roteiro escrita por Zack Snyder e por Chris Terrio era sombria e focava mais naquela parte da visão de Bruce Wayne que aparece em Batman vs Superman, em que o Morcego encontra um Superman do mal que domina o mundo pós-apocalíptico. O próprio Snyder desistiu dessa dinâmica e o Lobo da Estepe passou a ser o vilão principal da Liga da Justiça depois de ser removido de Esquadrão Suicida. O objetivo de Zack Snyder era fazer três filmes da Liga, e só no último ele iria focar no cenário do Knightmare porque o segundo acabaria com a derrota dos heróis.

O Snyder Cut também teria introduzido o Darkseid, o arqui-inimigo de longa data da Liga. Nessa versão, Darkseid eventualmente acabaria controlando Superman e iria transformá-lo na versão maligna que Bruce Wayne viu quando se encontrou com Flash em BvS. O problema é que a reação de fãs e críticos ao filme obrigou Zack Snyder e a Warner a deixarem o filme da Liga menos dark e mais ágil. Isso explica a intervenção de Joss Whedon na versão mais bem humorada que foi aos cinemas.

Liga da Justiça acabou saindo em março de 2018 e fez US$ 658 milhões de bilheteria mundial. Não dá para dizer que isso é um fracasso total, mas é um número considerado abaixo do esperado - especialmente se comparado ao primeiro Vingadores, que fez mais de um bilhão e meio de dólares no planeta. O fracasso caiu todo nas costas de Zack Snyder e, como ele não queria arcar com esse prejuízo, resolveu juntar a equipe de pós-produção, gravar diálogos novos e lançar a sua versão do filme. O rumor é de que todo esse processo custou entre US$ 20 e US$ 30 milhões a mais para a Warner.

O projeto do Snyder Cut a princípio pode soar como uma grande egotrip de Zack Snyder. Mas os fãs compraram a ideia e começaram uma campanha nas redes sociais que acabou se propagando para a vida real. Além dos próprios atores da Liga apoiarem o movimento e postarem eles mesmos a hashtag #ReleaseTheSnyderCut, ou “lancem o Snyder Cut”, um banner com a hashtag foi visto sobrevoando o quartel-general da Warner e propagandas da nova versão do filme começaram a aparecer em espaços publicitários de revistas. No fim das contas, a pressão foi tanta que a Warner foi obrigada a ceder.

Com o nome oficial de Liga da Justiça de Zack Snydera nova versão do longa será lançada digitalmente em 18 de março: nos EUA, no HBO Max e, no Brasil, para aluguel digital em plataformas como Apple TV, Claro, Google Play, Looke, Microsoft, Playstation, Sky, Uol Play, Vivo e WatchBr

A versão terá pouco mais de 4h de duração e, segundo informações recentes, terminará com um gancho Mesmo assim, a possibilidade de uma sequência para a Liga não está nos planos da Warner, que considerou o Snyder Cut uma "rua sem saída". Além disso, o diretor não faz parte do planejamento futuro da DC Films.

No entanto, há rumores de que a história que Zack planejou para o grupo de heróis da DC possa ser finalizada em quadrinhos. Essa história incluiria o Coringa matando o Robin e a invenção da Esteira Cósmica de Flash, a mesma usada pelo herói em Batman vs Superman para avisar Bruce Wayne sobre o apocalipse. Seria uma forma de Zack Snyder lavar as mãos da bagunça que se tornou o universo expandido da DC e se eximir da responsabilidade sobre o mal desempenho dos filmes no cinema.

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