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Coringa e a polêmica relação entre o cinema e a violência

Longa de Todd Phillips está longe de ser o primeiro a causar discussões por reações problemáticas

Nicolaos Garófalo
09.10.2019
12h00

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, Coringa passou a chamar cada vez mais a atenção por sua presença em fóruns online, onde grupos disseminam ideias extremistas e violentas, preocupando civis e autoridades às vésperas de sua estreia. Entre essas comunidades, a que mais tem usado o filme como justificativa para atos violentos – antes mesmo de assisti-lo – é a dos chamados “incel”, sigla em inglês para “celibatários involuntários”, que, com argumentos misóginos, culpam a sociedade pela falta de relações íntimas em suas vidas.

As ameaças de uma “revolução incel” reportadas em sites como Reddit e 4chan mudaram até mesmo o tom das entrevistas com Todd Phillips e Joaquin Phoenix, diretor e astro de Coringa, respectivamente, que se viram obrigados a deixar de lado o trabalho produzido para discutir uma possível influência do longa em algum ato de violência que venha a acontecer inspirado em sua trama.

Infelizmente, essa não é a primeira vez que a sétima arte é usada por pessoas com ideias problemáticas como justificativa para seus atos ou apontada como responsável por inspirar crimes. Diversos filmes, hoje considerados obras primas de seus respectivos diretores, foram, inicialmente, recebidos com certo choque e até vaiados em festivais por espectadores que não entenderam as mensagens que cineastas, roteiristas e atores tentavam transmitir.

Muito além dos aspectos cinematográficos, os polêmicos longas se tornaram, com o tempo, objeto de estudo pelo retrato, por vezes exagerado, que faziam da sociedade. Passado o espanto das reações iniciais, as abordagens escolhidas pelos cineastas tornaram-se exemplos e base de discussão em seus respectivos gêneros e parte obrigatória da coleção de qualquer cinéfilo.

Enquanto agressores e acusadores culpavam as obras de encorajar ondas criminosas, a real intenção de seus autores era expor este problema por meio do entretenimento e, com isso, criar espaço para que esses temas fossem debatidos. Ironicamente, sátiras claras a coberturas sensacionalistas, críticas a uma sociedade jovem mimada e violenta e o retrato infeliz de propagadores da violência exibida nos filmes não impediu que algumas cenas fossem repetidas na vida real, quase sempre pelos sujeitos que as obras tentavam criticar - uma mensagem que, não só foi distorcida, como transformou seus emissores, por conta da espetacularização midiática, em cúmplices das tragédias que procuravam evitar.

Relembre outros filmes que causaram polêmica ao longo da história:

[Aviso: alguns itens abordam temas de natureza sensível]

Laranja Mecânica

Cena de abertura de Laranja Mecânica/Warner Bros./Divulgação
Warner Bros./Divulgação

Lançado em no Reino Unido no final de 1971 e inspirado no livro homônimo de Anthony Burgess,Laranja Mecânica tomou conta dos tribunais britânicos após um garoto de 14 anos ser acusado de assassinar um colega de classe e um outro rapaz, de 16 anos, ser preso após se declarar culpado por matar um morador de rua. Em ambos os casos, o filme de Stanley Kubrick foi citado no julgamento como influência para os crimes. A pedido do diretor, Laranja Mecânica foi banido da Grã-Bretanha em 1973, após uma garota de 17 anos ser violentada por um grupo de jovens criminosos, que cantava, assim como o personagem Alex, a música “Singing in the Rain”. O filme só voltaria a circular oficialmente no país em 1999, após a morte do cineasta.

Taxi Driver

Robert DeNiro em Taxi Driver/Columbia Pictures/Divulgação
Columbia Pictures/Divulgação

Dirigido por Martin Scorsese, o filme de 1976 levantou sua primeira polêmica ao escalar a atriz Jodie Foster, então com 12 anos, no papel da prostituta mirim Iris. Foster precisou passar por testes psicológicos e algumas sessões de terapia para garantir que a personagem não a marcasse de maneira negativa, medida exigida pelo Conselho Trabalhista da Califórnia. A cena final de Taxi Driver também precisou sofrer alterações de cor para que o filme se encaixasse na classificação R (maiores de 18 anos ou menores acompanhados) e não X (apenas maiores de 18 anos). A escalação de Foster se tornaria debate novamente em 1981, quando John Hinckley Jr., em uma tentativa de impressionar a atriz, atentou contra a vida do então presidente americano Ronald Regan. Com um corte moicano semelhante ao do personagem de Robert DeNiro, Hinckley não acertou Regan, mas feriu um agente do Serviço Secreto e o Secretário de Comunicação da Casa Branca. Na época, Scorsese considerou se aposentar do cinema, dada a associação do atentado à sua carreira.

Assassinos por Natureza

Cena de Assassinos por Natureza/Warner Bros./Divulgação
Warner Bros./Divulgação

Dirigido por Oliver Stone e com roteiro de Quentin Tarantino, Assassinos por Natureza, de 1994, satiriza a mídia sensacionalista e sua constante necessidade de explorar a desgraça alheia por audiência. Apesar dos jogos de câmera e atuações exageradas deixarem claro que o filme não passa de uma obra de ficção com objetivo crítico, a obra foi citada como inspiração em dois diferentes massacres nos Estados Unidos. No mesmo ano de lançamento do filme, Eric Harris e DylanKlebold assassinaram doze estudantes e um professor no Columbine High School, referindo-se à data do atentado como “a manhã santa dos assassinos por natureza” e citando Tarantino ao dizer que sua história seria adaptada para Hollywood. Em 1995, Sarah Edmondson e Benjamin Darras foram presos após uma onda de crimes que resultou na morte de um homem e perda de movimentos de Patsy Beyers, que ficou quadriplégica após ser atingida por um tiro de Edmondson. O casal alegou ter assistido o filme de Stone várias vezes e consumido LSD antes de cometer os crimes, o que não impediu que a obra ficasse ligada para sempre aos crimes. Até hoje, Assassinos por Natureza é lembrado por jornalistas e políticos quando novos casos de violência armada ocorrem nos Estados Unidos.

Clube da Luta

Tyler e Narrador em Clube da Luta/20th Century Fox/Divulgação
20th Century Fox/Divulgação

Mais um filme adotado justamente por aqueles que satiriza, Clube da Luta foi uma maneira do autor Chuck Palahniuk e do diretor David Fincher abordarem o sentimento de opressão que homens brancos da classe média-alta americana sentiam ao longo das décadas de 1980 e 1990 e como a única resposta para essa sensação era a violência. Inspirado no livro de 1994 de Palahniuk, o filme de Fincher estreou no Festival de Veneza de 1999, para o desgosto geral dos presentes: não só o longa estrelado por Brad Pitt e Edward Norton foi vaiado após a exibição, como alguns membros da organização do festival se levantaram após uma das falas mais chocantes do filme – “eu não sou comida assim desde o ensino fundamental”, proferida por Marla Singer, personagem de Helena Boham Carter. Clube da Luta, porém, chamaria atenção maior da mídia depois que o brasileiro Mateus da Costa Meira, de 24 anos, abriu fogo em uma sessão do filme em São Paulo, deixando dois mortos. Anos mais tarde, um adolescente foi preso em Manhattan depois de explodir uma loja da franquia Starbucks com uma bomba caseira. Segundo a polícia americana afirmou em 2009, o garoto já havia organizado seu próprio clube da luta em sua casa e planejava iniciar um versão real do Projeto Destruição. Personagem símbolo de Clube da Luta, Tyler Durden é constantemente citado em fóruns da comunidade incel por promover, na opinião do grupo, a rebeldia dos “homens excluídos” e liberdade para se viver sem mulheres.

O Cavaleiro das Trevas

Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas/Warner Bros./Divulgação
Warner Bros./Divulgação

Lançado em 2008 e talvez o filme de super-herói mais cultuado de todos os tempos, O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan só foi associado a violência em 2012, quando sua sequência Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge chegou aos cinemas. Em uma sessão do filme em Aurora, nos Estados Unidos, James Holmes invadiu a sala do cinema e atingiu oitenta e duas pessoas, deixando doze mortos. Ao ser preso, o atirador foi levado gritando “eu sou o Coringa”, fazendo a polícia e a mídia declararem que o segundo filme da trilogia de Nolan havia inspirado o ataque. No apartamento de Holmes, investigadores também se depararam com armadilhas explosivas, outra conexão estabelecida entre o assassino e o personagem pelas autoridades.