Margot Robbie como Arlequina em Aves de Rapina; Keanu Reeves como John Wick

Créditos da imagem: Aves de Rapina/John Wick/Divulgação

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Aves de Rapina | Como John Wick moldou as cenas de luta do filme da DC

Equipe e diretor da franquia de Keanu Reeves coordenaram a aventura de Arlequina - e o resultado é visível

Arthur Eloi
08.02.2020
18h27

Aves de Rapina é carismático e divertido, mas o destaque fica para as cenas de luta. Arlequina (Margot Robbie) e sua equipe saem na mão com capangas dos mais variados tamanhos e armamentos. A ação é sempre conduzida mostrando tanto o esforço das protagonistas em cada combate, como também os golpes e impacto em planos únicos, sem tantos cortes atrapalhando a porradaria. A técnica não é nova. Na verdade é amplamente conhecida como a identidade de John Wick. Curiosamente a franquia de Keanu Reeves tem, sim, relação com o novo longa da DC.

Não é mera coincidência. Logo do momento em que foi escalada ao projeto, a diretora Cathy Yan definiu que as lutas iriam seguir a mesma pegada que John Wick: “Era o estilo que eu queria para o filme”, conta ao CinemaBlend. “Parecia a decisão certa, já que mistura golpes práticos com certo exagero. Deixa tudo parecendo bem real mas também mostra que elas estão se divertindo. E eu gosto da forma que é gravado, não é picotado. Todo o trabalho é feito com antecedência”. Portanto, logo no início da produção, Yan contratou a 87eleven, empresa especializada em stunts de ação, com coreografias para filmes como Deadpool 2, Os Mercenários e, claro, a trilogia de Keanu Reeves. O resultado é visível no produto final. Em uma cena, por exemplo, a câmera dá alguns passos para trás e registra em plano-aberto como a Arlequina combate vários inimigos simultaneamente, usando apenas voadoras, acrobacias e um taco de basebal.

Essa relação foi ainda mais longe quando o filme entrou em pós-produção. Nessa etapa, é comum que outro cineasta assuma as filmagens restantes que são necessárias para finalizar o projeto, enquanto o diretor supervisiona a montagem, edição, efeitos e ajustes. Esse posto ganha o nome de “diretor de segunda unidade”, e advinha que assumiu a função para Yan? Chad Stahelski, renomado coordenador de acrobacias e também o cineasta por trás de toda a trilogia John Wick. A diretora explica como isso aconteceu: “Durante a produção, trabalhei com Jonathan Eusebio [de Deadpool 2] como coordenador e ele é incrível! Bolou algumas impressionantes cenas de luta”, relembra. “Aí quando chegou nas regravações, eu queria ir a fundo nisso e ter mais ação, já que estava funcionando. Queria deixar tudo mais divertido e descolado. Na época, Chad estava disponível, e eu fiquei feliz porque conseguimos o melhor dos melhores [...] Como ele é o dono da 87eleven, foi a escolha perfeita. É realmente interessante ver como ele filma [...] Aprendi muito com ele e sua equipe sobre como gravar acrobacias, a parte prática de todos os equipamentos e coisas que nunca havia visto antes.

Qual a importância?

Por se tratar de uma questão mais técnica, não é parte tão grande do público que clama por mais atenção nas coreografias de luta. Além disso é muito mais econômico para os estúdios apenas criarem os conflitos na edição, já que isso significa não ter que passar meses treinando os atores e nem gastar horas preciosas nas diárias para conseguir o take certo - é o famoso conceito de “arrumar na pós-produção”.

Mesmo que muita gente não saiba expressar, a diferença é visível. Um excelente exemplo disso pode ser encontrado na dissertação do youtuber Every Frame A Paiting sobre a carreira de Jackie Chan. Acontece que o cinema asiático costuma gravar cenas mais fluidas e intensas de ação como forma de economizar nos dublês e no processo de edição, característica que define a identidade dos filmes de artes marciais de Hong Kong, Tailândia, China e muitos outros países cuja indústria audiovisual precisa de gambiarras para funcionar. Chan, um dos grandes nomes das acrobacias asiáticas, sabe conduzir cenas enormes de porradaria, mas esse talento não é aproveitado quando participa de filmagens nos Estados Unidos. Veja abaixo, e não esqueça de ativar as legendas em português:

Aves de Rapina não é tão criativo quanto John Wick ou os trabalhos chineses de Jackie Chan. Mas o mínimo de atenção que dá às cenas de luta já é o suficiente para separar o longa do gênero de super-heróis, feito que antes havia sido conquistado apenas por Deadpool. Cathy Yan sabe que, em um filme majoritariamente de ação, esse é um elemento importante de se trabalhar - especialmente em uma produção que não tem personagens tão conhecidos pelo grande público, além da protagonista. Não é a toa que, durante um momento de sabedoria, Arlequina diz ironicamente: “Nada chama mais a atenção de caras do que a violência”. O sucesso de John Wick, Deadpool, filmes de kung-fu e muito mais provam que ela não está errada.

Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa está em cartaz nos cinemas.