Platinum End

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Platinum End é apenas um “Death Note piorado”?

O adolescente Mirai Kakehashi ganhou de uma criatura mística o poder de matar qualquer pessoa, e agora ele quer ser o deus de um novo mundo. Já ouviu isso antes?

Fábio Garcia
04.11.2021
10h20

Platinum End é uma série com pedigree. Takeshi Obata e Tsugumi Ohba, os criadores desta produção, também são conhecidos por outra série japonesa bem famosa: Death Note, uma das mais influentes deste século. Mesmo com a nova produção seguindo uma mesma linha de trama com conflitos psicológicos e batalhas mentais de sua antecessora, Platinum End acaba entregando aos fãs uma massaroca atrapalhada e com menos carisma.

Será que ainda é possível acompanhar e curtir Platinum End isoladamente ou o anime deve seguir na sombra de seu irmão mais velho? É isso que vamos conversar hoje.

O renascimento de Mirai

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Ao ligar o primeiro episódio de Platinum End, disponibilizado pela Crunchyroll e pela Funimation no Brasil, o espectador se vê diante de um aviso de conteúdo destinado a adultos. Tal alerta é muito importante, até para não ocorrer algum “mal entendido” como rolou com Death Note, injustamente acusado de influenciar crianças brasileiras (se não sabe do que estamos falando, recomendamos essa nossa matéria). Platinum End apresenta alguns gatilhos fortes, com personagens tratando diretamente sobre suicídio, então é importante ficar atento.

A trama começa quando o adolescente Mirai Kakehashi se vê cansado de sua vida repleta de sofrimentos, afinal é maltratado por seus tios que o criaram desde a infância. O rapaz sobe em um prédio e salta com o intuito de morrer, mas no meio do caminho ele é salvo por Nasse, uma espécie de anjo que evita a morte de seu protegido e lhe oferece uma nova chance na Terra. Ela o presenteia com alguns itens especiais, como um par de asas que permitem o voo e a possibilidade de lançar dois tipos diferentes de flechas. As flechas vermelhas permitem controlar emocionalmente uma outra pessoa, tal qual a flecha do Cupido, enquanto as flechas brancas servem para assassinar outra pessoa instantaneamente.

Com o intuito de descobrir o motivo de ser maltratado desde a infância, Mirai usa a flecha vermelha em sua tia e com isso ela confessa ter causado a morte de seus pais visando a herança. A revelação foi um choque para o adolescente. Ter manipulado sua tia com a flecha vermelha foi o bastante para Mirai causar um assassinato acidental em casa, e assim ele se viu livre de seus laços familiares. Ele só não esperava que aquele seria o começo de uma vida cheia de sanguinolência.

Platinum End
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Nasse revela a Mirai que ele está participando de uma espécie de battle royale, aquelas competições nas quais várias pessoas disputam e, no final, só resta um sobrevivente. Com a aproximação da aposentadoria de Deus, o todo-poderoso convocou 13 anjos e seus protegidos para um jogo de gato e rato no qual o vencedor ganhará a chance de ser o novo Deus. Entre os candidatos à vaga temos um humorista machista, um justiceiro sociopata, gente com carência afetiva e outras pessoas que fariam um bom uso de uma terapia. Cabe a Mirai encontrar as outras 12 pessoas, derrotá-las e se tornar o Deus desse novo mundo. Onde foi que já ouvimos falar disso antes?

Tentando um novo sucesso

A dupla Tsugumi Ohba (roteiro) e Takeshi Obata (desenho) é um sinônimo de sucesso no Japão. O primeiro trabalho dos dois juntos foi Death Note, publicado em 2003 nas páginas da Shonen Jump. A história do adolescente que com a ajuda de um caderno mortal tentava se tornar o deus de um novo mundo foi um sucesso avassalador na revista destinada ao público adolescente, e logo ganhou uma versão em anime, live action, video game, filme da Netflix etc. Hoje em dia pode ter virado moda falar mal da série, vide a reportagem da Record TV, mas é inegável o seu impacto na cultura otaku.

Death Note
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Takeshi Obata já era bem conhecido do público otaku no Japão. O mangaká começou sua carreira em 1985 e logo produziu vários mangás de curta duração. A partir do terceiro mangá lançado, Arabian Lamp Lamp, Obata passou a ficar responsável somente pelos desenhos, entregando o roteiro nas mãos de autores com mais habilidade. Sua obra pré-Death Note de maior sucesso foi Hikaru no Go, co-criado por Yumi Hotta e publicado na Shonen Jump de 1998 a 2003. O mangá sobre partidas de go (um jogo de tabuleiro) chegou a ser publicado no Brasil pela editora JBC. O desenhista também fez character design daquele jogo de luta Castlevania Judgment para Nintendo Wii, famoso por fazer os caçadores de vampiros parecerem o Light Yagami.

Já o outro lado da dupla de Death Note, o roteirista Tsugumi Ohba, é um mistério para o público. Ninguém faz ideia dos mangás antecessores do autor, afinal esse nome usado para assinar obras atualmente é um pseudônimo e não sabemos a identidade do roteirista. Há uma lenda urbana de que o mangaká Hiroshi Gamo está por trás do pseudônimo, mas isso nunca foi confirmado.

Erroneamente classificada por fãs como “seinen” (ou seja, destinada a adultos), a história de Death Note traz todos os elementos que encontramos em mangás “shonen” (para adolescentes), só que com um pouco mais de densidade. A grande diferença está no protagonista da vez: Light Yagami está longe de ser um exemplo a ser seguido, na verdade ele é o mal a ser combatido. Enxergando por esse lado, é possível perceber os clichês de valorização da amizade e luta do bem contra o mal presente em vários outros mangás shonen, com a diferença que essas características estão em outros personagens e não no principal.

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Após o sucesso de Death Note eles voltaram às páginas da Shonen Jump em 2008 com outro mangá de sucesso, Bakuman. Dessa vez a história era centrada em dois amigos cujo sonho era publicar um mangá de sucesso dentro da própria Shonen Jump, uma trama bem mais leve que a antecessora. Em 2015 os dois começaram a lançar Platinum End em outra revista shonen da editora Shueisha, a Jump Square, lançada mensalmente. Muitos imaginaram que com a periodicidade maior a dupla poderia criar uma história ainda mais elaborada que Death Note, afinal a trama de Light era lançada em regime semanal, mas não foi o caso.

Não deu tão certo

Se com Bakuman eles tentaram fazer um mangá muito diferente de Death Note, Platinum End seguiu por uma linha parecida do maior sucesso da dupla e, por conta disso, as comparações foram inevitáveis. Enquanto Death Note apresenta uma certa complexidade em sua história, principalmente ao colocar um anti-herói como protagonista, Platinum End escorrega em uma trama bastante rasa.

A construção do passado triste de Mirai é uma sucessão de histórias tão trágicas que mais parecem sinopse de alguma novela mexicana protagonizada pela Thalia. O personagem também é bastante volúvel: a vontade de ceifar a própria vida, por exemplo, é esquecida rapidamente quando o protagonista tem um flashback com sua mãe dizendo que ele era destinado a ser feliz. Tudo é muito conveniente no roteiro de Platinum End.

Outra comparação com Death Note é a respeito das limitações dos poderes mágicos. A primeira obra de sucesso da dupla Ohba e Obata chamou a atenção por criar regras bem definidas do que podia ou não ser feito com os poderes do caderno da morte, e quase tudo foi exemplificado ou testado por Light Yagami logo no começo da trama. Já em Platinum End fica a impressão de que as regras dos poderes vão sendo criadas à medida que eram convenientes para a história, e com alguma frequência temos algum anjo apresentando uma nova regra que Nasse desconhece.

As vendas do mangá nunca decepcionaram, mas estavam longe de impressionar. A repercussão da série nas redes sociais foi bem aquém de outros mangás da dupla, e tem quem considere Platinum End apenas um “Death Note piorado”. Mas esse cenário pode mudar com o lançamento do anime nesta temporada de outono. É normal produções animadas engajarem o público e promoverem uma procura por volumes antigos nas lojas, basta ver as vendas de edições de Demon Slayer, Jujutsu Kaisen e Tokyo Revengers após seus respectivos animes, mas aí depende do sucesso da animação.

O anime de Platinum End tenta evitar algumas falhas do mangá, e tem apostado em ganchos diferentes para atrair a atenção do público. O final do segundo episódio, por exemplo, encerrou antes do desfecho original do mangá, na tentativa de criar uma surpresa sobre o encontro de Mirai com o anjo Revel na escola. O estúdio Signal.MD (de Recovery of an MMO Junkie) também deu uma amenizada na comparação mais óbvia: o desenho do Mirai na versão animada parou de ser tão parecido com a fisionomia do Light Yagami de Death Note.

Mesmo com suas falhas, Platinum End ainda é um anime que atrai a atenção do público. Se Death Note conquistava o espectador com uma trama thriller empolgante na maior parte da trama, o novo anime aposta em situações absurdas que vão escalonando de formas inesperadas (mas nem sempre boas). Longe de ser um daqueles animes ruins que nos motiva largar, Platinum End parece mais um guilty pleasure cuja história não faz muito sentido, mas que você quer saber até onde vão os absurdos criados por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Às vezes é tão ruim que faz a curva e fica bom.

Platinum End
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Com o fim de Platinum End nos mangá, nada foi dito sobre futuros projetos da dupla de autores. Não sabemos nem se os dois continuarão fazendo mangás juntos. Atualmente Tsugumi Ohba está trabalhando com outro desenhista no mangá Show-Ha Shou-Ten!, história sobre uma dupla de adolescentes com o sonho de formar uma dupla de humoristas.

Como acompanhar Platinum End?

O anime de Platinum End começou nesta temporada de outono e vem sendo disponibilizado no Brasil pela Crunchyroll e pela Funimation no mesmo dia da exibição no Japão. Recentemente a Crunchyroll confirmou que o anime ganhará uma dublagem em português, com Cadu Paschoal (o Mikey de Tokyo Revengers) interpretando o protagonista Mirai Kakehashi e Jéssica Vieira (a Beatrice de Re:ZERO) como o anjo Nasse.

Caso esteja com pressa e não queira esperar os 24 episódios de Platinum End serem lançados, a editora JBC publicou os 14 volumes encadernados no Brasil. Alguns volumes iniciais são mais difíceis de achar (um problema recorrente no mercado de mangás brasileiro), mas parte da coleção está disponível em formato digital.

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