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Crítica

007 - Sem Tempo para Morrer consagra Daniel Craig como o Bond do sentimentalismo

À falta de uma boa trama, filme se volta para a celebração de si mesmo na despedida do ator

29.09.2021, às 20H52.
Atualizada em 30.09.2021, ÀS 14H55

É pelo menos irônico que o título de 007 - Sem Tempo para Morrer sugira uma situação de urgência, porque o que se vê nesse filme, planejado para encerrar a carreira de Daniel Craig à frente do papel de James Bond, é uma máquina azeitada como o relógio Big Ben, que realiza suas funções sem pressa, sem sustos, sem atraso.

As peças que garantem o bom funcionamento da engrenagem são conhecidas, vão desde os roteiristas Neal Purvis e Robert Wade (que entraram na metade da Era Pierce Brosnan e escreveram os últimos sete filmes da série) até o diretor de segunda unidade Alexander Witt (que só não executou essa função na Era Craig em Quantum of Solace, o filme mais irregular da safra). São nomes como esses que garantem a uniformidade da franquia, sua excelência na escolha de locações e nas cenas de perseguição, e é possível defender que James Bond só chegou a 25 filmes por conta do cuidado constante com esses padrões - um ativo que vale muito, especialmente quando o público demonstra procurar mais no cinema aquilo que lhe é familiar e garantido.

Mas essa repetição não deixa de refletir nos filmes em si. Em certo momento de Sem Tempo para Morrer, quando Bond e M (Ralph Fiennes) discutem em Londres as motivações do novo vilão, não é sem enfado que eles chegam à conclusão de que as motivações não importam: extermínio em massa, ameaça à liberdade, o de sempre, papeiam os dois, como bons funcionários públicos com longevo serviço prestado à Rainha. Há uma certa fadiga em contar uma história de ameaça global no século XXI, quando todos os males da ficção, com exceção das invasões alienígenas ou dos meteoros gigantes, já parecem ter transpirado para a vida real.

A pandemia sequer tinha começado quando este 007 foi rodado em 2019, mas o sentimento de estafa decorrente dela - esse estado de anestesia, de se acostumar a viver sob risco de extinção - está latente no filme e é uma extensão do serviço competente mas protocolar realizado por todos os técnicos que mantêm o nível de entrega da franquia Bond. Em outras palavras, nada mais nos ameaça, da mesma forma que nada mais nos surpreende, e o filme tem dificuldade em responder a esse dilema na hora de envolver o personagem numa ficção de suspense que de fato nos engaje.

Assim, recomenda-se não esperar muito dos vilões ou da trama em si, mal amarrada com muitas causalidades de ocasião. Como Um Novo Dia para Morrer havia encerrado a Era Brosnan em 2002 fazendo homenagens a 007 Contra o Satânico Dr. No, o primeiríssimo filme da franquia, lançado 40 anos antes, este Sem Tempo para Morrer também fala de morte no título e esboça uma referência a Dr. No no traje do vilão Safin (Rami Malek), nas suas luvas, na piscina mortal (antes radioativa e agora bioquímica). Por mais que Malek se esforce para dar a Safin aquela solenidade afetada que todo vilão de Bond precisa ter, sua passagem pelo filme de 2h43m é uma promessa constante que não se cumpre.

Como solucionar esse impasse da irrelevância? O principal concorrente de 007 no mercado, a franquia Missão: Impossível, soube se reinventar como cinema de atrações e também como experiência maneirista, o que implica automaticamente uma consciência irônica de si mesmo. Para 007, uma saída seria dobrar também a aposta na ironia, como naquela cena entre Craig e Fiennes, afinal os britânicos são especialistas em satirizar sua própria tendência ao tédio e à rotina. A história do cinema ainda vai jogar, um dia, uma nova luz sobre a breve passagem de Timothy Dalton pela série, na pele do James Bond mais anti-heroico de todos, um 007 que reconhecia seu próprio anacronismo num Reino Unido pós-colonialista e que transformou isso numa bomba de cinismo. Infelizmente, ainda que a colaboração de Phoebe Waller-Bridge no roteiro consiga injetar aqui e ali um humor quase paródico, Sem Tempo para Morrer não agarra essa oportunidade com as duas mãos, a ponto de fazer da descontrução um propósito.

O que temos então é um filme que depende muito do efeito para funcionar. A escalação de Hans Zimmer para a trilha sonora é precisa nesse sentido; especialista em martelar arranjos de repetição quase mântrica para estender os tempos do suspense, o compositor destrincha o tema clássico de Monty Norman e John Barry com muita propriedade. Enquanto os créditos iniciais não chegam, este 007 é um filme pleno de expectativa, e a perseguição de carro na Itália termina com um dos momentos mais catárticos da Era Craig. Com as horas, porém, o fôlego do filme vai se esvaziando em nota cerimoniosa e monocórdia, do efeito pelo efeito.

Toda encarnação de James Bond tem relação com sua época; antes de Daniel Craig, o que vimos foi Pierce Brosnan requentar o tom exagerado das aventuras de corrida espacial de Roger Moore num contexto tecnológico de fim de século, com as ameaças que não entendíamos, como o Bug do Milênio e os limites da Internet. Qual é, afinal, o propósito de Sem Tempo para Morrer e o legado de Daniel Craig no papel? Uma resposta possível é o sentimentalismo. À falta de tramas episódicas mais fortes, exige-se um compromisso maior do público com o arco dramático, que em 2021 completou 15 anos. (Antes de ver Sem Tempo para Morrer recomenda-se que o espectador assista a pelo menos 007 Contra Spectre, a propósito.)

Esse contrato com o fã não é nenhuma novidade para quem se habituou à cronologia conectada dos filmes do MCU. De certa forma, a Era Craig caminhou contra a vocação episódica da franquia e anteviu a tendência, já que Cassino Royale saiu dois anos antes de Homem de Ferro (2008 foi também o ano de Quantum of Solace) e três anos antes de Velozes e Furiosos 4 (que marcou a volta do elenco original e passou a costurar uma mitologia de forma mais engajada). Em matéria de fan service, o que se faz em Sem Tempo para Morrer pode até ser chamado de sofisticado: boa parte do charme da sequência em Cuba reside no desfile de velhos rostos da Spectre, que só o fã atento vai perceber, e quando a agente Nomi (Lashana Lynch) faz piada com o joelho zoado de Bond isso é uma referência a algo extrafilme, o acidente que o ator sofreu rodando Spectre.

No filme, isso se traduz em sentimentalismo na subtrama íntima do James Bond civil, obviamente. Vamos evitar dar spoilers aqui, mas vale dizer que, por qualquer ângulo que se olhe, Sem Tempo para Morrer tem tanto para dar ao espectador quanto Vingadores: Ultimato, e faz dessa recompensa seu propósito. Se na Era Craig ficamos ansiosos por ver os novos Blofeld (ou o Dr. No) do cinema, por pegar as pistas que fazem referência ao passado, nada mais lógico que o filme derradeiro minimize a importância da trama e a troque por uma coisa sentimental etérea: a própria nostalgia do tempo presente.

O que não deixa de ser irônico (de novo), porque toda essa ideia da autocelebração, da importância superdimensionada de si, vem acompanhar o drama da saída do Reino Unido da União Europeia, decidida em veredito popular em 2016 e que em 2021 resulta em protestos no país contra escassez de fornecimento. Alguém nesse processo todo convenceu seus patrícios de que a Inglaterra é maior do que qualquer probleminha além-mar (o Outro é sempre um fardo, mesmo o Inimigo), e foi com o mesmo aborrecimento de Ralph Fiennes e Daniel Craig que o povo abraçou a fábula da autossuficiência. Mesmo antes da escolha do próximo protagonista da franquia, já dá pra dizer que este 007 foi o Bond do Brexit.

Nota do Crítico
Bom