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Crítica

Crítica: 007 - Cassino Royale

007 - Cassino Royale

Marcelo Hessel
14.12.2006
01h00
Atualizada em
29.06.2018
02h23
Atualizada em 29.06.2018 às 02h23

A marca maior da série 007 é a frivolidade. É o desapego com que vilões há quarenta anos se diferenciam apenas pela forma como morrem. É a maneira como surgem os patrocinadores, em primeiro plano, na tela de um celular, no capô de um carro. Frivolidade é sabermos há mais de vinte filmes a maneira como James Bond pede seu martini, mas não sabermos qual o seu maior medo ou a sua maior ambição.

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O personagem se construiu em cima de trejeitos. Construiu-se no humor de Roger Moore, na rigidez de Timothy Dalton, no charme de Pierce Brosnan, na ironia de Sean Connery. Faz todo o sentido chamar 007 - Cassino Royale (Casino Royale, 2006), portanto, de uma reinvenção. O vigésimo-primeiro longa-metragem da franquia apresenta Daniel Craig no papel. Por que reinvenção? Porque 007 não suga características de Craig como fez com seus cinco antecessores. É o ator que se transforma no personagem.

Pode parecer estranho falar em transformação - sempre é papel do ator, afinal, incorporar seus personagens. Mas que Bond é esse que se oferecia a Craig, além de autor de meia-dúzia de frases prontas? O que definia o espião inglês eram os cenários paradisíacos, as tralhas tecnológicas, a megalomania de seus inimigos e a beleza de suas amantes. O que há de profundamente característico do personagem dentro dessa grossa casca de adornos?

Cassino Royale se dispõe a procurar essa essência e, no caminho, elimina uma porção de frivolidades - a partir de um roteiro que conta os primeiros dias do agente no MI-6, agência secreta britânica. Na trama, Bond é o sétimo espião promovido ao status de 00, licença para matar. E tem como missão derrotar, em campos de batalha que incluem uma mesa de pôquer, Le Chiffre (Mads Mikkelsen), o financiador de uma célula terrorista.

Ego demais

Logicamente, há muita ação no filme, do tipo vertiginosa, brigas a metros de altura, pega-pega em pista de avião, prédios desabando, etc. Não se esperava outra coisa do diretor Martin Campbell (007 contra Goldeneye). A surpresa é descobrir que ele sabe dirigir também as cenas de dramaturgia. E há pelo menos cinco delas que são definidoras.

São poucas cenas, mas que bastam para desenhar a psicologia do personagem e a relação que ele mantém com os demais, em especial com a sua parceira de missão, Vesper Lynd (Eva Green). A primeira é a morte do guerrilheiro africano interpretado por Isaach De Bankolé. A esta altura do filme, Bond já havia deixado um rastro de corpos para trás, mas este é seu primeiro assassinato, em auto-defesa, na frente de Vesper. A câmera acompanha não só ato, mas também o contraplano, o rosto dela diante da morte. A bela Bond-girl já havia trocado com o herói uma série de flertes, confidências até, mas só naquele momento ela compreende a essência do 00. Da mesma forma, percebe-se no olhar de Craig que matar, ainda que pareça, não é a coisa mais natural do mundo.

Quem já assistiu a Nem tudo é o que parece sabe a cara que Craig faz: rosto inchado, vermelho, olhar perdido, veias saltadas. É um semblante de desespero velado, como assistir ao próprio processo de corrompimento. A sequência seguinte, que mostra Bond lavando os sangues das mãos diante do espelho, deve entrar para a antologia da série. São alguns segundos em que passa pela cabeça de um homem toda a sua vida, todo o caminho que ele fez para chegar até ali e todo o vislumbre do futuro próximo. Profundidade assim (no que um filme de ação permite-se ser profundo) poucas vezes se viu nos vinte filmes anteriores.

Repete-se o tempo inteiro nos bons diálogos escritos por Paul Haggis (Crash - No Limite): o novato Bond tem ego demais e isso não é bom para a profissão. Ego não é sinônimo só de vaidade aqui, mas de personalidade e, principalmente, de falibilidade. E o que assistimos aos poucos em Cassino Royale é a supressão, na marra, do ego do herói.

James Bond já se permitiu ter ego, uma vez, em 1969. Em 007 a Serviço de Sua Majestade, um dos exemplares mais atípicos da série, ele se casou com Tracy Draco (Diana Rigg), filha de um gângster. A moça morre no final - e compreende-se, a partir daí, que 007 é um galinha por medo de sofer novamente. O processo de Cassino Royale não é muito diferente (isso se depreende do trailer em dois minutos). O que muda é a intensidade. A cena do salvamento pós-veneno tem um significado maior do que o simples clichê do desfibrilador, típico de situação médica. É um simbolismo emocional, de tocar o coração mesmo.

Há muita coisa no vigésimo-primeiro 007 que permanece inalterada em relação aos anteriores. As reviravoltas são inverossímeis como sempre. A intriga central continua sem fazer o menor sentido. Mas a questão aqui - isso parece frase escrita por Haggis - não é procurar respostas, mas fazer as perguntas certas. E a pergunta é: depois da sessão temos alguma noção de quem é Bond, podemos nos identificar minimamente com a sua situação, o seu drama? Sim. Agora sabemos, ao menos, o que levou o agente secreto a se tornar um bloco de frivolidade.

007 - Cassino Royale
Casino Royale

Ano: 2006

Classificação: 14 anos

Duração: 144 min

Direção: Martin Campbell, Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath, Robert Parrish

Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade

Elenco: David Niven, Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Isaach De Bankolé, Judi Dench, Peter Sellers, Ursula Andress, Orson Welles, Joanna Pettet, Daliah Lavi, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, John Huston, Kurt Kasznar, George Raft, Jean-Paul Belmondo, Terence Cooper, Barbara Bouchet, Angela Scoular, Gabriella Licudi, Tracey Crisp, Elaine Taylor, Jacqueline Bisset, Alexandra Bastedo, Anna Quayle, Derek Nimmo, Ronnie Corbett, Colin Gordon, Bernard Cribbins, Tracy Reed, John Bluthal, Woody Allen, Burt Kwouk, Geoffrey Bayldon, John Wells, Duncan Macrae, Chic Murray, Jonathan Routh, Percy Herbert, Jeanne Roland, Graham Stark, Vladek Sheybal, Richard Wattis, Penny Riley, Geraldine Chaplin, Caroline Munro, Anjelica Huston, Peter O'Toole

Nota do Crítico
Ótimo