Foto de Westworld

Créditos da imagem: Westworld/HBO/Divulgação

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Como a música criou o melhor episódio da 3ª temporada de Westworld até agora

Trilha sonora embalou explicação do plano de Dolores e mais

Camila Sousa
13.04.2020
14h48

A trilha sonora sempre foi um grande destaque em Westworld. Desde a primeira temporada, as composições de Ramin Djawadi chamam a atenção, desde músicas originais como o tema de abertura, até releituras de clássicos, como “Black Hole Sun”, “Paint It Black” e “Fake Plastic Trees”. No entanto, o uso da música ganhou uma escala inédita no episódio “Genre”, exibido esta semana.

[Spoilers de “Genre” abaixo]

“Cavalgada das Valquírias”

Logo no começo do capítulo, há uma perseguição de carro envolvendo Dolores (Evan Rachel Wood), Caleb (Aaron Paul) e Liam Dempsey (John Gallagher Jr.). A protagonista usa a tecnologia para despistar e matar seus oponentes, mas o diferencial da cena é o uso de “Cavalgada das Valquírias”, da ópera escrita por Richard Wagner.

O uso da canção é comum em obras da ficção, como Apocalypse Now (1979) e o filme de Watchmen (2009). A versão usada aqui em Westworld é a tradicional e não uma releitura de Djawadi. Ainda assim, ela transforma o que queria uma cena comum e até burocrática em um momento épico, intensificado pela percepção confusa de Caleb sobre tudo o que está acontecendo.

Love Story

Quando a perseguição termina, a fotografia muda, assumindo tons de vermelho e rosa e Caleb olha para Dolores ao som do tema de Love Story - Uma História de Amor, longa de 1970. Sob o efeito da droga Genre (Gênero, aplicada nele por Liam Dempsey), o personagem de Paul parece se apaixonar por alguns segundos por Dolores. Aqui vale ressaltar duas coisas: a primeira é como a delicadeza da música contrasta com a violência do trecho e como a fotografia segue o que a canção dita, algo que se repete no mesmo episódio.

“Nightclubbing”

Um dos momentos mais interessantes da fotografia, aliás, é quando o grupo liderado por Dolores entra no metrô e todas as luzes de neon do local pulsam ao som de “Nightclubbing”, música de Iggy Pop que já ganhou vários covers e faz parte da trilha sonora de Trainspotting, de 1996. É interessante ressaltar como a cena poderia ter um tom totalmente diferente com o uso de outra música. Westworld poderia passar ao público uma sensação de urgência ou de perseguição. Mas “Nightclubbing” abaixa os ânimos e prepara para o que virá em seguida, quando a protagonista finalmente coloca seus planos em prática.

“Space Oddity”

Até então, o plano de Dolores contra a humanidade não estava muito claro. Ela queria acesso ao Rehoboam para ter os dados de todas as pessoas do mundo, mas como isso levaria aos seus objetivos ainda era um mistério. A resposta vem com uma explicação muito didática, mas bem feita, do passado de Serac (Vincent Cassel). Após ver um ataque em sua infância, ele inicia o projeto que se tornou o Rehoboam ao lado do irmão. O objetivo era criar um Deus palpável, que pudesse mudar e ditar a vida de todas as pessoas. Com todos sob controle, nada inesperado, como um ataque à bomba, aconteceria novamente na humanidade. Tudo é previsto e controlado por ele.

De muitas formas, é como se Serac tivesse tornado o mundo um grande parque de Westworld. Enquanto a Delos controlava aquele ambiente limitado, o que o personagem de Cassel faz é controlar tudo sem ninguém saber. Assim como anfitriões, todos os humanos estão dentro de narrativas criadas para eles. Ainda que a apresentação do mundo real não tenha sido bem trabalhada no começo da temporada, tal revelação tem o potencial de melhorar os episódios anteriores. Afinal, é impossível olhar agora para o “mundo real” de Westworld sem associá-lo a um belo e grande parque controlado por algumas pessoas. 

Em um mundo tecnológico, ter dados é sinônimo de poder, mas como usar tal poder era uma incógnita. Entre as muitas teorias, estava que Dolores apagaria os dados para acabar com o controle ou os usaria para criar novos anfitriões. Mas a resposta é mais simples e efetiva do que isso: ela simplesmente libera os dados para todos. Agora, cada pessoa sabe a vida que foi planejada para ela e qual será seu futuro. O resultado é o caos, dessa vez ao som de uma versão de “Space Oddity”, de David Bowie, feita por Ramin Djawadi.

A resposta sobre o que a verdade pode fazer com as pessoas é o caos imprevisível tão temido por Serac. Ao saber do que aconteceria com elas, em destinos ruins na maior parte das vezes, as pessoas “deixam de seguir seus loops”, como bem define Bernard (Jeffrey Wright). A participação do personagem no episódio é pequena, mas significativa por dois pontos: o primeiro são os diálogos dele com Martin (Tommy Flanagan), um dos anfitriões com a consciência de Dolores.

Com uma ou duas frases, Bernard questiona porque ele/ela está seguindo tudo o que a protagonista deseja e, ainda que por alguns segundos, Martin se questiona, deixando claro que Dolores pode não ter contado com algo importante: o novo despertar dos anfitriões que ela cria e coloca parte de sua mente. Sim, é Dolores que está ali, mas a partir do momento que tal criatura ganha consciência, ela pode (e provavelmente vai) evoluir. Será que a personagem de Rachel Wood já planejou o que fazer caso isso aconteça?

O segundo ponto é uma fala de Martin para Bernard, dizendo que ele é o único que não pode ser substituído. Até aqui, a relação entre Dolores e Bernard segue confusa. Ela sabe que ele está contra seus planos, mas o mantém vivo e à salvo mesmo assim, quase como se previsse que ela própria precisará ser parada em algum momento. Talvez o nível de consciência de Dolores tenha evoluído tanto que ela já sabe seu destino, mesmo sem as previsões do Rehoboam.

Há apenas três episódios para o final desta temporada de Westworld, que finalmente entregou um capítulo que se arrisca em formatos, narrativa e lembra a ousadia da produção em suas primeiras temporadas. Agora é esperar que o confronto entre Dolores e Maeve (Thandie Newton) tenha todos os elementos bem utilizados em “Genre”.

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