Anya Taylor-Joy em O Gambito da Rainha

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Processo contra Netflix evidencia o maior problema de O Gambito da Rainha

Jornada de Beth Harmon ignora os obstáculos que qualquer mulher teria em sua posição

Julia Sabbaga
17.09.2021
10h57
Atualizada em
17.09.2021
15h05
Atualizada em 17.09.2021 às 15h05

Um dos elementos mais fascinantes de O Gambito da Rainha, série sensação da Netflix que acumulou indicações ao Emmy, foi sua ilusão de realidade. Logo após seu lançamento na plataforma, buscas no Google sobre a personagem da série na vida real dispararam, mostrando um público confuso sobre os fatos que se passam na telinha. A resposta é que O Gambito da Rainha não tem nada de real. Sua estrutura se assemelha muito a filmes que recontam histórias verídicas, mas fato é que não há nada de realista na jornada de Beth Harmon. 

Não me entenda mal; O Gambito da Rainha é uma novela que funciona, uma história para quem quer admirar os poderes de atuação de Anya Taylor-Joy e se divertir aprofundando-se num universo de xadrez que há anos não ganhava uma história no mainstream. Mas um de seus maiores problemas foi evidenciado essa semana pelo processo movido contra a série pela enxadrista Nona Gaprindashvili.

A ex-campeã georgiana de xadrez processou a plataforma por difamação por uma sequência na série que faz referência à sua carreira. Além de ser chamada de russa erroneamente, O Gambito da Rainha diz que Gaprindashvili passou a carreira sem enfrentar nenhum homem no xadrez, distorcendo o fato de que a enxadrista, na época dos comentários no contexto da série, já havia competido com pelo menos 59 homens enxadristas, incluindo 10 Grandes Mestres. O processo da enxadrista diz que “a Netflix descaradamente mentiu [...] pelo propósito barato e cínico de 'elevar o drama' por fazer parecer que seu herói fictício conseguiu fazer o que nenhuma outra mulher, incluindo Gaprindashvili, havia feito”. 

Apesar da Netflix ter dispensado a alegação, dizendo que a “queixa não tem mérito”, a frase é certeira. Ainda mais, ela enfatiza o elemento mais questionável de O Gambito da Rainha: seu completo desprezo pela jornada única de uma mulher em um campo dominado por homens. Apesar de uma protagonista feminina, O Gambito da Rainha passa longe de feminista: ela mostra uma criança prodígio nunca enfrentando dificuldades pelo seu gênero, algo que já havia sido chamado atenção pela hexacampeã brasileira feminina de xadrez Juliana Terao: “Acho que na vida real teria sido bem diferente. Os jogadores não aceitariam tão facilmente serem dominados por uma mulher”, disse ao Omelete.

Anya Taylor-Joy em O Gambito da Rainha
Netflix/Divulgação

A resistência da série em se mostrar feminista não é exatamente o seu problema. Mas O Gambito da Rainha também constrói sua personagem de um olhar obviamente masculino. A jornada de Harmon se assemelha muito aos personagens prodígios do cinema como Will Hunting em O Gênio Indomável, John Nash em A Mente Brilhante ou até Sherlock Holmes na série de TV Sherlock. A diferença é clara: eles são homens. E a jornada de uma mulher certamente é diferente. 

É curioso que a série da Netflix teve um cuidado muito claro em retratar o universo das competições de xadrez, algo pelo qual recebeu elogios de enxadristas ao redor do mundo, e isso tem um motivo muito claro: Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez, serviu como consultor, sugerindo mudanças em cenas essenciais dos jogos de Beth. Apesar de ter servido muito bem seu propósito - o que fez com que a Netflix impulsionasse o interesse do público em xadrez - a visão do consultor masculino não ajudou a construir uma história de protagonismo feminino. Para falar de modo ainda mais direto: os créditos de O Gambito da Rainha não incluem nenhuma mulher envolvida no roteiros ou história.

Este olhar masculino do O Gambito da Rainha chegou até a virar meme, quando o público cutucou a série pela cena em que Beth Harmon “atinge o fundo do poço”. É uma cena hilária quando você para para pensar. Achar que a decadência da saúde mental de uma mulher viciada em remédios e álcool é algo tão rock n' roll - e sejamos honestos, limpo e até sedutor - chega a ser engraçado. E passou batido como piada até hoje, mas o processo jurídico contra a série eleva e evidencia os problemas deste retrato. 

Anya Taylor-Joy em O Gambito da Rainha
Netflix/Divulgação

O Gambito da Rainha fez mais do que ignorar a jornada distintamente feminina. Hoje, após o processo e as acusações válidas de Gaprindashvili, a série da Netflix chama mais atenção pelos seus erros do que seus acertos. Minimizar a jornada de uma mulher real para elevar sua protagonista é mais do que ignorar uma narrativa feminina, é jogar contra, e enterrar conquistas relevantes de modo injusto e contrário a qualquer mensagem que a série pareceu querer passar. 

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