Para campeã brasileira de xadrez, O Gambito da Rainha pega até leve no machismo

Créditos da imagem: Lizi Vicenzi/Divulgação

Netflix

Entrevista

Para campeã brasileira de xadrez, O Gambito da Rainha pega até leve no machismo

Juliana Terao tem 29 anos e seis vitórias no campeonato brasileiro de xadrez

Julia Sabbaga
13.11.2020
15h03
Atualizada em
13.11.2020
18h33
Atualizada em 13.11.2020 às 18h33

Que O Gambito da Rainha é a nova sensação da Netflix ninguém vai questionar, mas são poucos os indivíduos que podem falar com propriedade sobre a retrato da série sobre o universo do xadrez profissional. A produção, que usou consultores profissionais do esporte para uma representação fidedigna, se baseia fortemente na emoção e tensão dos jogos do xadrez e, por isso, fomos atrás de uma das pessoas mais capacitadas para comentar exatamente este elemento. 

Juliana Terao, hexacampeã brasileira feminina e representante do país em sete Olimpíadas talvez seja a brasileira mais habilitada para comentar a jornada da personagem Beth Harmon. A enxadrista elogiou omodo como a produção retratou o mundo do xadrez, mas também comentou um outro lado: será que a entrada de uma mulher em um mundo tão masculino, principalmente nos anos 1960, seria tão bem recebida? Confira abaixo o que Terao achou de O Gambito da Rainha.

Omelete: Você geralmente assiste produções com temática de xadrez? Como você achou que a série representa o universo de competições?

Juliana Terao: Sempre que vejo um filme que envolva xadrez, tento assistir. Achei que a produção dessa minissérie tomou muitos cuidados para transmitir ao máximo as emoções que o jogo de xadrez pode nos trazer. Achei tudo muito bem feito, parecia tudo tão natural, como se os atores soubessem jogar mesmo. Vi uma entrevista com a protagonista Anya Taylor-Joy dizendo que não sabia nada sobre xadrez, e ela fez um trabalho incrível mesmo.

O: Até onde você viu, você sentiu que a série representa de forma genuína a relação entre enxadristas homens e mulheres? No Brasil, campeonatos maiores são divididos em gênero, você enxerga isso como positivo?

JT: A série tenta mostrar essa questão de gênero, mas acho que pegaram um pouco leve. No meu ver, aceitaram bem a chegada de uma mulher no topo, ainda mais na época em que se passa a história, na década de 1950-1960. Acho que na vida real teria sido bem diferente. Os jogadores não aceitariam tão facilmente serem dominados por uma mulher.

Acho importante por agora termos as categorias absoluto (onde homens e mulheres jogam) e a feminina (exclusiva para o publico feminino). O xadrez ainda hoje é um esporte dominado pelos homens e é mais antigo para esse público, o que é normal. Afinal, se formos ver historicamente, as atividades intelectuais sempre foram mais voltada para o público masculino. Então, pelo menos até as duas categorias alcançarem um equilíbrio de força e quantidade, acho que é importante ter uma categoria exclusiva para o público feminino.

Lizi Vicenzi/Divulgação

O: Na série, a protagonista sofre de dependência de drogas e álcool. Você já viu casos semelhantes a esse na vida real? Ou enxadristas que dependem de remédios para uma boa performance?

JT: Não conheço nenhum enxadrista que dependa de medicamento/droga para manter suas performances em torneios. Acredito que essa questão possa ser abordada em qualquer meio, não sendo diretamente relacionada ao xadrez. Aliás, muito pelo contrário, se você for analisar o perfil dos enxadristas da elite mundial, praticamente todos são muito saudáveis e possuem uma rotina bem regrada de exercícios e boa alimentação. 

O: Sobre os jogos em si, ouvimos dizer que jogadores raramente se olham nos olhos, como a protagonista, que encara seus adversários. É real? Existe algo no retrato dos jogos em si que te chamou atenção?

JT: Poucos jogadores encaram seus adversários, acho que não é uma prática bem vista. Uma jogadora que faz muito isso é a Grande Mestre russa Aleksandra Goryachkina. Se você assistir aos jogos dela, verá bastante semelhança nessa questão do olhar com a Beth da minissérie.

Achei bem legal a forma como a produção tentou mostrar para o espectador as emoções que o enxadrista sente durante uma partida/torneio. Inclusive colocaram algumas citações bem famosas, como “poucas coisas são tão brutais mentalmente quanto xadrez”, que é uma frase que o Kasparov disse uma vez. Para uma pessoa leiga, o xadrez não passa de um hobby, um jogo de tabuleiro que você encontra na sala do seu avô, e a minissérie mostra que o esporte pode ser bem mais interessante do que parece. A mãe adotiva de Beth demonstra isso, após assistir a Beth jogando ela diz “é mais emocionante do que imaginei”.

O: Você acha que séries como O Gambito da Rainha aumentam a popularidade do xadrez e o interesse entre o público feminino? Você considera isso importante?

JT: Com certeza, ainda mais quando o material foi feito em cima de muita pesquisa e consultoria. É bem legal quando vemos protagonistas mulheres nas telas, dá um emponderamento à mulher, acho que precisamos disso, as mulheres são minoria no jogo e, quando têm alguém para se espelhar conseguem ver um horizonte...

O Gambito da Rainha está disponível na Netflix.

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