Regina King em Watchmen

Créditos da imagem: Watchmen/HBO/Reprodução

Séries e TV

Crítica

Watchmen - 1ª temporada

Sem apelar à nostalgia, Damon Lindelof cria história própria em minissérie com o mesmo espírito da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons

Nicolaos Garófalo
16.12.2019
16h59
Atualizada em
16.12.2019
19h18
Atualizada em 16.12.2019 às 19h18

[O texto a seguir contém spoilers]

Com o fim de sucessos como Game of Thrones e Ballers, 2019 foi um ano de renovação tanto na programação quanto no público da HBO. As estreias de Euphoria His Dark Materials, a descoberta mais ou menos tardia de Succession, já em sua segunda temporada, e promessas de novos anos intrigantes para Westworld e The New Pope (que continuará a história de The Young Pope, de 2016) mostraram que a emissora americana ainda tem muito a oferecer mesmo após as partidas de Jon Snow e Dwayne “The Rock” Johnson de sua folha de pagamento. Entre as novidades mais atraentes dessa programação de 2019 estava Watchmen, adaptação/continuação/remix – como definiu seu criador, Damon Lindelof – da graphic novel homônima de Alan Moore e Dave Gibbons, por anos considerada inadaptável.

Idealizada como uma minissérie, a produção tinha como objetivo principal desvendar como o mundo reagiria ao ataque interdimensional de uma lula-gigante mutante, como mostrado no clímax da HQ original. Com a ajuda de um talentoso elenco, formado por Regina King, Tim Blake Nelson, Yahya Abdul-Mateen II, Hong Chau, Jean Smart e Jeremy Irons, Lindelof foi capaz de entregar uma sequência que, ao mesmo tempo em que apresenta novos personagens, reintroduz antigos protagonistas e a ameaçadora atmosfera do trabalho de Moore e Gibbons.

Assim como a HQ, a Watchmen da televisão é um produto de seu tempo: a guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética é deixada de lado, dando lugar a um imortal conflito racial, introduzido pelo massacre real cometido pela Klu Klux Klan em 1921 em Tulsa, principal cenário da minissérie. Embora a reencenação desse momento sombrio da história americana tenha sido feita como forma de contextualizar a trama da série, Lindelof e sua equipe desenterraram uma das grandes tragédias provocadas pelo racismo, antes fadada ao esquecimento pelos poderes que, por anos, censuraram a história nacional.

A compreensão da relação desta catástrofe quase centenária ao cenário político atual por parte Lindelof e sua equipe foi apenas uma das grandes sacadas da minissérie. O showrunner também foi capaz de explicar, em momentos isolados, o quanto entendeu e absorveu do Watchmen original, desde a associação mais do que realista deRorschach com a facção racista da Sétima Kavalaria, ao entendimento que a onisciência de Dr. Manhattan não garante que o semideus consiga impedir que os planos de Lady Trieu (Chau) ou de John Keene Jr. (James Wolk) se realizem – ele é, afinal, uma marionete nas mãos do destino.

Com o perfil da obra de 1986 e da atmosfera conflituosa traçados quase à perfeição, faltava a Lindelof criar uma nova história com novos protagonistas tão carismáticos e intrigantes quanto aqueles da HQ de Moore e Gibbons. É aí que entra Angela (King), uma detetive que atua sob o disfarce de Sister Night, com o intuito de despistar assassinos da Sétima Kavalaria. Embora Angela não seja o foco de todos os episódios da minissérie (como “She Was Killed By Space Junk” ou “A God Walks Into Abar”), a atuação de King parece carregar praticamente todo o peso criado pela sala de roteiristas nas costas. A naturalidade como King abraça sua personagem é impressionante e sua presença eleva até diálogos que poderiam parecer desinteressantes, como um simples café da manhã em família ou uma apresentação na escola do filho.

Outra performance digna de nota em Watchmen é a de Jeremy Irons, que interpreta Adrian Veidt/Ozymandias. Claramente apaixonado pelo papel que está vivendo, o britânico abraça todo o ridículo que cerca o Homem Mais Inteligente do Mundo e entrega uma das atuações mais divertidas e espirituosas de sua ilustre carreira.

Embora seja, como já foi dito, uma continuação da graphic novel de Moore e Gibbons, Watchmen resiste à tentação de se apoiar demais nos personagens lançados há três décadas. Mesmo cercados de referências e easter eggs, Laurie “Espectral II” Blake (Smart), Ozymandias, e Dr. Manhattan (Mateen) são introduzidos aos poucos na série, todos sempre orbitando a trama de algum novo personagem criado para a minissérie, como Angela ou Lady Trieu. Até um idoso Justiça Encapuzada, criado em 1986 e vivido em 2019 por Louis Gossett Jr., só tem sua identidade revelada após seis episódios, em um dos capítulos visualmente mais bonitos transmitidos na TV nos últimos anos, “This Extraordinary Being”.

Em poucos momentos Watchmen foi simplista. Para cada mistério resolvido em tela – ou no site oficial Peteypedia -, uma nova questão era jogada no colo do público, que praticamente se via tão refém dos planos da Sétima Kavalaria quanto Angela ou qualquer outro protagonista da série. O carisma de personagens como Looking Glass (Nelson), Cal/Manhattan e Ozymandias, todos com tramas bem desenvolvidas e resolvidas de maneira satisfatória, também ajudou a minissérie a manter um nível de qualidade alto até em seus episódios mais fracos, como o anormalmente apressado final deste domingo.

Embora tenha amarrado quase todas as pontas soltas criadas pelos roteiristas, “See How They Fly” se beneficiou demais de coincidências – ou “milagres termodinâmicos” – para entregar suas grandes resoluções, além de ter tirado o espaço de três de seus melhores personagens, Angela, Looking Glass e Laurie, para exibir um final com mais ação do que os oito episódios apresentados até então. Mesmo longe de ter sido uma hora ruim de televisão, o capítulo derradeiro de Watchmen poderia ter tomado mais tempo para que os protagonistas humanos não saíssem passando a impressão de terem sido injustiçados pelo roteiro.

Apesar desta leve derrapada, Lindelof entregou, provavelmente, o melhor trabalho de Watchmen já feito após a publicação da graphic novel original. Assim como a HQ, a produção trouxe uma narrativa questionadora e relevante, em um mundo povoado por personagens extremamente ricos e bem desenvolvidos, algo que poucas séries inspiradas em quadrinhos – especialmente as com menos episódios – conseguem fazer. Apesar dos ótimos números e do final aberto a interpretações,espera-se que a HBO leve para frente o plano de encerrar a história de Angela, Looking Glass e Laurie Blake após apenas esta primeira temporada, provavelmente uma das melhores minisséries produzidas pelo canal. Afinal, foram necessários 33 anos e uma equipe de diversos roteiristas talentosos para tentar ao menos igualar a obra-prima de Moore e Gibbons nos anos 1980. Assim sendo, Watchmen de 2019 deve ser considerada, pelo menos por enquanto, intocável.

Nota do Crítico
Excelente!

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