Watchmen | Por que relacionar Rorschach e supremacistas brancos não deturpa a HQ

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Watchmen | Por que relacionar Rorschach e supremacistas brancos não deturpa a HQ

Série da HBO mistura conceitos da obra original com a sociedade atual

Gabriel Avila
25.10.2019
13h23
Atualizada em
26.10.2019
09h03
Atualizada em 26.10.2019 às 09h03

Em seu primeiro episódio, a série de Watchmen apresentou elementos inéditos ao universo da HQ. Entre eles, o mais notório é a Sétima Kavalaria, um grupo supremacista branco que utiliza a máscara do Rorschach como símbolo. Estampar manchas pretas no capuz fez com que uma parcela dos fãs se sentisse ultrajada em ver a figura do vigilante utilizada para promover ódio racial. Por mais estranha que a decisão possa parecer, a produção da HBO faz jus tanto ao atual cenário da sociedade americana, quanto à própria forma como Alan Moore e Dave Gibbons conceberam o personagem no quadrinho de 1986.

Reprodução/DC Comics

Entre as histórias de bastidores da HQ, a mais famosa é a que Alan Moore planejava utilizar em Watchmen personagens da Charlton Comics que a DC havia acabado de adquirir. Entretanto, a editora sugeriu ao autor que criasse novas versões desses heróis por considerar a trama violenta demais. Dessa forma, Moore transformou Questão, um detetive sem rosto fortemente inspirado em histórias pulp, no Rorschach. Além do visual, os personagens tinham em comum uma moral inabalável que enxerga apenas “bem e mal”, uma noção simplista que se nega a ver as camadas que permeiam o caráter de um ser humano. A HQ introduz esse arquétipo em um enredo dedicado a desconstruir os heróis em uma trama complexa que ia além do clássico “mocinho contra bandido”. Nessas circunstâncias, o vigilante se tornou uma figura ambígua, tão cruel e sádica quanto os criminosos que dizia odiar.

O próprio roteirista afirmou que qualquer um que vista uma máscara e saia batendo em criminosos é um “vigilante psicopata”. Moore e o desenhista Dave Gibbons pensaram em Rorschach como "uma forma de explorar o que aquele vigilante conduzido por vingança, como o Batman, seria no mundo real. E a resposta curta é: um maluco". A inspiração fica mais clara conforme o arco de Rorschach avança, mostrando sua derrocada de paladino idealista a justiceiro sanguinário. Não por acaso, o capítulo que explica suas motivações faz referência ao clássico aforismo de Friedrich Nietzsche que diz “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

"O Abismo também contempla"

Reprodução/DC Comics

Rorschach é Walter Kovacs, um garoto que cresceu sem o pai e sofreu constantes abusos - físicos e psicológicos - de sua mãe. Traumatizado, cresceu cada vez mais quieto e introspectivo, se fechando para o mundo e descontando na criminalidade a agressividade causada pelos anos de maus-tratos. Porém, a visão distorcida de que as mulheres não prestam por causa do mau exemplo de sua mãe e uma idealização da figura masculina em seu pai ausente fizeram com que Kovacs desenvolvesse uma profunda misoginia que desembocou em diversos outros preconceitos. A HQ mostra o justiceiro faltando com respeito não só com mulheres, mas também com homossexuais, deixando claro que não odeia apenas criminosos, mas qualquer um que não se encaixe em sua noção de “princípios”. Porém, ao enxergar o mundo com a noção simplista de que tudo se divide apenas em certo e errado, Rorschach entra em constantes contradições quando atos condenáveis são cometidos por aqueles que admira. O maior exemplo de sua flexibilidade ética está no fato de que ele se refere à tentativa de estupro do Comediante contra a Espectral como um “lapso moral” por parte do vigilante. Uma atenuação incoerente, já que sua grande motivação para patrulhar as ruas como um mascarado foi justamente uma situação parecida, envolvendo violência contra uma mulher inocente.

Muitos desses pensamentos que revelam seu lado extremamente reacionário foram anotados em seu famoso diário, em que registrou todas as suas descobertas a respeito do homicídio do Comediante, evento que dá início à história. A busca pelo assassino de seu colega se revelou parte de uma enorme conspiração responsável pela morte de milhões de pessoas. No fim da HQ, o diário foi enviado ao New Frontiersman, um tabloide sensacionalista de extrema-direita que era considerado a única fonte de informação confiável pelo vigilante. Um site oficial da série da HBO revelou que o jornal publicou as anotações, que foram consideradas “falsas e lunáticas” pelo governo, mas gerou um sentimento de identificação em uma parcela da população. Somado ao seu sumiço - Rorschach foi morto por Doutor Manhattan -, ele se tornou uma espécie de mártir para pessoas que não só acreditaram em suas palavras, como se identificaram com sua distorcida visão da realidade. Devido aos vários preconceitos presentes em Rorschach, o seriado escolheu o ódio racial, algo que nunca ficou explícito na HQ, para fazer um comentário sobre a pós-verdade.

Da paranoia à Supremacia Branca

Eleita a palavra do ano pelo dicionário da Universidade de Oxford, pós-verdade é o nome dado à “situação em que as pessoas estão mais propensas a aceitar um argumento baseado em suas próprias emoções e crenças do que nos fatos”. A expressão é uma síntese desse momento de polarização em que as pessoas tendem a desconfiar de toda informação e preferem se agarrar apenas àquilo que serve aos seus interesses - seja verdade ou não. Passando-se três décadas após a HQ original, que teve como plano de fundo o clima de instabilidade causado pela Guerra Fria, a série segue seu legado e se inspira na sociedade ao seu redor, cada vez mais polarizada e odiosa. Se a sociedade da década de 1980 estava alarmada após sobreviver a eventos criticos como a Crise dos Mísseis de Cuba, os anos 2010 viram o levante de grupos supremacistas que passaram a ocupar as ruas sem medo de se esconder. Fazendo jus ao espírito do quadrinho como produto de seu tempo, a produção utiliza a Sétima Kavalaria para discutir a força da desinformação e do ódio.

No primeiro episódio, a Sétima Kavalaria envia uma gravação para a polícia de Tulsa anunciando seu retorno após três anos de inatividade. No vídeo, o grupo faz citações diretas a discursos deixados pelo próprio Rorschach em seu diário, mas adiciona expressões de cunho racial, direcionando a pessoas negras toda a aversão do vigilante em relação à sociedade. Não só uma forma de fazer referências à obra original, essa utilização do discurso serve para alertar que as falas do justiceiro, que já traziam fortes traços de discriminação, podem servir de base para discursos de ódio em uma era em que a veracidade já não tem mais força. Se Kovacs escreve em seu diário que “todas as prostitutas e políticos vão olhar para os céus e gritar ‘nos salve’”, a Kavalaria dirige sua ameaça a “traidores da raça”, uma clara distorção de um discurso já carregado de preconceitos para uma vertente ainda mais extrema. A série ainda não deixou claro até que ponto a Kavalaria se inspira em Rorschach, ficando em aberto se a deturpação de seus ideais é uma leitura malfeita acidental ou má-fé por parte de seus líderes.

Gostar do Rorschach não faz de você um extremista

A intenção dos criadores da série em transformar um dos mais queridos personagens da HQ em um símbolo de extremismo é claramente fazer com que os fãs retornem à obra com olhos mais atentos ao tom absurdo e conspiracionista de suas opiniões. Entretanto, é importante dizer que gostar de Rorschach não torna automaticamente seus admiradores em extremistas. Walter Kovacs reúne diversas características louváveis para um herói, protagoniza as cenas mais memoráveis da história e tem um grande destaque ao conduzir a investigação que serve como fio-condutor da trama. Alan Moore foi cuidadoso na concepção de seu universo e sabia como tecer seu comentário sobre vigilantes, pois seria fácil demais fazer uma sátira da figura do herói urbano como um mero sádico violento. Em vez disso, o autor monta uma psique traumatizada que tem defeitos condenáveis na mesma medida em que apresenta grandes virtudes.

Com Rorschach, Moore atinge o ápice de seu raciocínio a respeito dos heróis no mundo real. Pelos personagens envolvidos na trama, o autor apresenta quão vulneráveis, indecentes ou indiferentes os combatentes do crime podem se tornar. Entre mocinhos e vilões, a HQ constrói seres humanos complexos cheios de camadas e nuances - mesmo que o próprio Rorschach se negue a enxergá-los assim.