Meu Amigo Bussunda é tributo sensível guiado por riso, choro e saudade

Créditos da imagem: Pepe Schettino/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Meu Amigo Bussunda é tributo sensível guiado por riso, choro e saudade

Série documental diverte, emociona e reflete sobre legado da vida e obra do humorista

Eduardo Pereira
22.06.2021, às 20H01
ATUALIZADA EM 22.06.2021, ÀS 20H15
ATUALIZADA EM 22.06.2021, ÀS 20H15

Claudio Besserman Vianna, o Bussunda, viveu intensamente por 43 anos e 357 dias, até ter sua brilhante trajetória artística e nada ortodoxa história de vida abreviadas por um ataque cardíaco, enquanto cobria a Copa do Mundo de Futebol de 2006, na Alemanha. Do salto para a fama, no início dos anos 1990, à sua abrupta morte, ele foi o garoto-propaganda de uma revolução histórica no humor brasileiro, especialmente, mas não exclusivamente, na TV. Sua influência atravessou gerações para além de qualquer classificação indicativa, graças também ao empréstimo de sua voz a um tal ogro de nome Shrek, e ele se fez figura tão ligada à cultura boleira quanto um jogador profissional; o que, dizem, ele tinha qualidade técnica e paixão o bastante para ter sido, não fosse a falta de dedicação e comprometimento físico. Mais do que isso: antes de ser Bussunda, ele foi também um filho, um irmão e amigo, que depois tornou-se marido e pai.

Conseguir capturar qualquer trajetória de vida em um registro audiovisual, que faça sentido e ainda consiga sintetizar a complexidade dela em poucas horas, já é, naturalmente, uma tarefa árdua. Fazer isso com uma figura como Bussunda, tão amado pelos brasileiros a ponto de ter eclipsado uma Copa do Mundo com sua despedida, poderia flertar com o impossível. Ainda assim, Meu Amigo Bussunda, a série documental do Globoplay dedicada a homenagear e resgatar a memória do humorista, passa por cima do desafio e consegue ir além, extrapolando o retrospectivo e mergulhando no reflexivo com sensibilidade e reverência.

O projeto foi idealizado pelo ex-Casseta & Planeta Cláudio Manoel, amigo de infância de Bussunda, que se uniu ao cineasta Micael Langer (repetindo dobradinha dos documentários Simonal e Chacrinha) para equilibrar emoção e razão, na hora de contar uma história tão pessoal. É a dupla que fica responsável por três dos quatro episódios da série, com o quarto servindo como um epílogo ainda mais intimista: Júlia Besserman, a filha do humorista, assume a direção de um capítulo dedicado a capturar o legado de seu pai por meio da filosofia que ele desenhou em seus pouco menos que 44 anos de vida: o “zen-bussundismo”.

No primeiro capítulo, “Fama de Famoso”, Cláudio se posiciona como narrador-personagem e se lança em reencontros com familiares, amigos de infância e, por fim, os colegas da Casseta Popular e do Planeta Diário. A pauta é leve e divertida, rememorando causos engraçados e revelando como Bussunda sempre foi uma “pessoa-personagem” extremamente carismática. O mergulho na criação meio sionista e inteira comunista, bem como na vida acadêmica regida pela preguiça, pavimentam o caminho para que Bussunda mergulhe no humor enquanto carreira, desembocando nos anos como redator do celebrado humorístico TV Pirata (1988 - 1992), da Rede Globo. É um segmento no qual o riso impera, mesmo que o pano de fundo da morte prematura de Bussunda se faça claro e presente, desde o minuto inicial.

É a relevância histórica do trabalho no programa, bem como o crescimento em fama nacional com as músicas e os shows ao vivo do então recém-criado coletivo de humor Casseta & Planeta, que norteiam o segundo episódio, “Ih, Ó O Cara Aí”. É um capítulo mais denso e informativo da série documental, que dá mais ênfase às falas de especialistas da TV brasileira para documentar não só esse momento da vida de Bussunda, mas da história da cultura nacional. Ainda há espaço para muito humor (em especial na retomada das turnês do polêmico álbum musical Preto com um Buraco no Meio, de 1989), mas o foco é a informação e o retrato da ascensão meteórica que levaria o humorista e toda a trupe a criar o Casseta & Planeta, Urgente!.

No terceiro episódio, “Fala Sério”, o riso vai aos poucos se tornando mais contido, raro e intermitente. O resgate de grandes momentos da história do Casseta na TV, como as paródias de novelas e as imitações de Bussunda para o ex-presidente Lula e o craque Ronaldo, o Fenômeno, arrancam boas risadas, mas gradativamente o tom da série começa a mudar. Fica claro que tempo e sucesso começaram a pesar sobre o grupo; a euforia da cobertura da Copa do Mundo de 1994 culmina no auge da diversão em 1998, seguindo para os primeiros indícios de desgaste em 2002, até chegar ao inevitável luto em 2006. A maior surpresa, porém: o capítulo não tem fim, deixando a despedida para a introdução de “Meu Pai Bussunda”, o segmento final.

Nesse quarto episódio, as lágrimas correm soltas. Com uma montagem sensível, que costura relatos, registros e memórias da morte de Bussunda, as dores da família, dos amigos e dos fãs se juntam em um só impacto, que bate forte. Então, do choro de Julia Besserman, aos 12 anos de idade, a série salta no futuro e a reencontra, agora aos 27, revisitando quatro mandamentos que guiaram a vida de seu pai. Dessa discussão, parte uma corajosa problematização do humor politicamente incorreto feito nos anos 1990 e início dos 2000 (que renderia um projeto à parte, por si só), além de um diálogo emocionante entre a jovem cineasta e sua mãe, Angélica Nascimento. Esse encontro, em particular, desenha um fechamento poético que faz com que Meu Amigo Bussunda compense eventuais quebras de ritmo, pois consolida elas como parte da tapeçaria emocional de um mergulho na traumática experiência de se perder um pai, um marido ou um melhor amigo, e na eterna, mas oscilante, saudade que encapsula tudo isso.

Meu Amigo Bussunda
Encerrada (2021-2021)
Meu Amigo Bussunda
Encerrada (2021-2021)

Criado por: Cláudio Manoel, Micael Langer, Júlia Besserman

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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