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Entrevista

Omelete Entrevista: Liniers

Autor argentino vem ao Brasil lançar Macanudo e fala ao Omelete

Érico Assis
09.11.2008
21h00
Atualizada em
08.11.2016
05h01
Atualizada em 08.11.2016 às 05h01
Nas tiras, Liniers

Liniers

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Liniers

Macanudo

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Macanudo

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Macanudo

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considera-se apenas mais um humilde mortal, com cara de coelho, amores, lamúrias e pequenos momentos de legítima felicidade. Um sujeito normal, apenas com algumas observações - banais para ele, geniais para nós - sobre a existência humana.

Não é falsa modéstia. Na tarde de autógrafos na livraria HQ Mix e na conversa com fãs à noite na livraria Fnac Pinheiros, em São Paulo no fim de outubro, Ricardo Siri - nome verdadeiro do argentino de 34 anos, com vários fios brancos na típica cabeleira portenha - falou tímida e arregadalamente como seu alter ego coelho. Ele e seu assistente, Juan Lanusse, surpreendiam-se com os fãs brasileiros que traziam as pilhas de Macanudo importados, entre outros de seus trabalhos, para pedir autógrafos. Achava que, antes da edição brasileira de Macanudo, lançada agora pela editora Zarabatana, os fãs daqui só o conheciam pela Internet. Nem sonhavam com a mobilização dos brasileiros para encontrar as coletâneas de tiras disponíveis somente na Argentina.

Modesto e extremamente simpático, Liniers não dava somente autógrafos. A cada fã perguntava "que personagem quer que eu desenhe?" e puxava as canetas. Fez dezenas de pingüins, vacas, galinhas, duendes, azeitonas e mais pingüins - todos únicos para cada fã - ao longo do dia. Parece loucura, mas é bem menos ambicioso que seu novo projeto: Macanudo 6, a última coletânea argentina de suas tiras, já está com a impressão de 5 mil exemplares pronta - com capas brancas, nas quais ele desenhará pessoalmente, uma a uma, antes de lançar nas livrarias.

Por que desenhar as capas pessoalmente? "Quando tenho uma idéias dessas, não consigo tirar da cabeça até fazer. E já estou na 1300", diz, acanhado.

Liniers conversou conosco sobre seu trabalho e sua relação com o Brasil. Além do primeiro volume de Macanudo recém-lançado, ano que vem vai publicar por aqui Lo Que Hay Antes Que Haya Algo ("O que há antes de haver algo"), seu "livro infantil para crianças existencialistas", como define, pela editora Girafinha. E, espera-se, muito mais Macanudo, bem como seus outros álbuns.

Sim, o entrevistador é um tiete. O desafio foi não fazer perguntas de tiete (inevitáveis), nem óbvias.

Bom, para começar: podemos conversar em portunhol, certo?

Liniers: (Risos) Ok, ok, podemos tentar. Todos nós argentinos pensamos que falamos português quando fazemos a "musiquinha", o jeito como vocês falam. E colocamos "inho" no final de todas as palavras... todas as "palavrinhas".

Apesar de eu ser um grande nerd, sempre lendo muitos gibis, assistindo a filmes, seriados etc., minha esposa não se encaixa nem um pouco nessa categoria. Ela não se interessa nem por Calvin & Haroldo. Mas lê sua tira, religiosamente, todos os dias. Qual é o segredo?

Eu não sei mesmo (risos)... Não tenho a menor idéia de como isso acontece. Desde que comecei a publicar as tiras no jornal, sempre ouvi que a lêem pessoas que não consomem quadrinhos [normalmente]. Lê quem está lendo as notícias e aí vê a tira. É como uma "carícia" ao final no jornal, uma piadinha. Mas não tenho mesmo idéia, mesmo sabendo que, pelo menos, em Buenos Aires quem lê a tira não lê muitos quadrinhos. Realmente não tenho idéia de como isso aconteceu, mas fico muito feliz (risos).

No Brasil, conhecemos seu trabalho há alguns anos através de amigos, que foram espalhando seu trabalho via e-mail, enviando os links...

Sim, eu sou como um vírus, se espalhando entre a população (risos)...

Bom, mas eu queria saber exatamente como começou Macanudo, a tira.

Eu estava fazendo uma HQ no jornal Página 12, uma tira semanal. Maitena [a argentina autora de Mulheres Alteradas] gostava dessa HQ, a achava... bizarra o suficiente para me elogiar, me recomendar. Ela me convenceu a levar meus desenhos para o jornal em que ela estava trabalhando para trocar pelas tiras que não estavam funcionando, como as americanas, com um humor que não se conectava com os leitores. Ela me disse "vamos ao jornal, vou te apresentar ao dono" e a partir ela foi convencendo, um a um, que "este cara é um gênio".

Eu não sabia se ia conseguir fazer uma tira por dia. Estava aterrorizado. Bonjour, minha outra tira, era semanal, e também muito experimental, muito bizarra. Mas quando comecei a fazer a tira diária, vi que podia experimentar muito mais, o que diminuiu meu medo. Antes era algo diferente, uma vez por semana, e tinha que ser o melhor que eu podia fazer naquela semana. Então nem havia me preocupado em criar personagens. O desafio agora era outro.

E você nunca pensou em ter um único personagem para Macanudo? Até para fins de merchandising, pensando a longo prazo...

Se tivesse feito isso, me imagino logo me aborrecendo e começando a odiar o personagem. Se fizesse, por exemplo, só pingüins, imagine, o ano inteiro - 365 dias desenhando só pingüins. Milhares e milhares de pingüins desenhados em um ano. Eu ia começar a matar pingüins. Iria para a Patagônia com um rifle e sairia assassinando os bichos. Desta forma, preferi que fosse uma tira muito aberta e muito livre, onde pudesse inserir qualquer experimento humorístico que quisesse fazer - ou até não-humorístico. Qualquer coisa que me ocorra, tenho o espaço para colocar.

Há cartunistas brasileiros, como Laerte, Angeli e outros, que adotam a mesma estratégia. Eles têm vários personagens que também "circulam" pelas tiras. Você conhece estes autores?

Há dois anos... Antes disso eu já conhecia algumas coisas, mas há dois anos eu fui à Antártida em um barco. Fui convidado a conhecer os pingüins. E neste mesmo barco estava Amyr Klink, que é um aventureiro brasileiro - bom, todos vocês brasileiros o conhecem. Então foi muito divertido, pois eu estava conhecendo a Antártida com este "Jacques Cousteau brasileiro", este aventureiro. E Marina, esposa de Amyr, muito simpática, começou a conversar comigo sobre quadrinhos e, depois da viagem, começou a me mandar as tiras que saem aqui. Então, ela me manda, a cada seis meses, um pacote cheio de tiras recortadas. Eu leio [Adão] Iturrusgarai, Angeli, Laerte e outros.

Você não tem livros ou outras publicações deles?

Em Buenos Aires não há importação deste material, infelizmente. O que é uma pena. Me divirto muito quando consigo um, mas há essa dificuldade em encontrar o material.

E quanto a referências, autores que você considera importantes para o seu trabalho?

Só no mundo do cartum, são milhares e milhares. Tudo me influencia de alguma forma. Mas, tentando pegar alguns do mundo do cartum, diria que Mafalda é uma referência para todos os argentinos. Mafalda é como uma base. Depois disso, fui encontrando outras HQs enquanto crescia. Aos 10, lia Mafalda e Asterix. Aos 15... Manara. Aos 18, Robert Crumb, aos 25, Spiegelman, aos 30, Daniel Clowes... Sempre fui colecionando referências enquanto ia crescendo.

Também percebo muito em Macanudo várias referências à cultura pop como um todo, sejam filmes, seriados, música...

Somos todos animais que consomem muita cultura pop, de todo o tipo, incluindo marcas, produtos. Nosso cérebro funciona de uma maneira muito pop. Você está aí com uma camiseta do King Kong [e Liniers, diga-se de passagem, estava com uma camiseta de Stephen King]. Então, gosto de analisar esta linha na tira.

Na verdade, Macanudo são coisas que vivo, que penso, que tento me explicar. Eu vejo televisão, aí pego um pedaço de papel e desenho "o que foi isso que eu assisti?". Uma explicação que me sirva para aquilo. Aí vejo algo que a minha filha faz e tento explicar isso fazendo um cartum. Por sorte, há muita gente interessadas nestas minhas "explicações". E isto é divertido.

Você vai ter uma filha chamada Henriqueta, como sua personagem?

Bom, acho que não. Já tenho uma filha, chamada Matilda. Já é bastante traumático... Não é por acaso que Quino não teve filhos. (risos)

Bom, meu último pedido é algo para o futuro: um livro, por favor, dedicado à Vaca Cinéfila, minha personagem preferida.

Sim, ela me diverte muito também. Vi várias tiras dela juntas algumas vezes e comecei a perceber que elas rendiam um filme. Por exemplo, O Gângster, com Denzel Washington, que é um filme... médio, que não fede nem cheira. Mas tem TODOS os clichês que você espera de um filme policial. Tipo, tem um policial que é Russel Crowe e seu parceiro que é um ator que não é conhecido... Oras, é claro que o parceiro vai durar só três ou quatro cenas. Certeza.

Depois, tem aquela cena de todo filme em que, quando você quer fazer alguma coisa desaparecer, você a joga na lareira. Tipo uma carta - jogue-a na lareira. E, no filme, jogam um casaco de pele! É emocionante, um casaco de pele na lareira. É divertido quando aparecem todas essas coisas no mesmo filme.

A Vaca Cinéfila deveria ser a resenhista de cinema do La Nación [jornal em que são publicadas as tiras de Macanudo].

(risos) É incrível mesmo a quantidade de vezes, principalmente nos Estados Unidos, que fazem o mesmo filme. Estão sempre empurrando gente pelas escadas? Por quê? Pessoas já caíram de todas as escadas possíveis!

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