A crise de identidade do Oscar
Sempre que você se sentir perdido, lembre-se que existem os produtores do Oscar 2019
Créditos da imagem: Divulgação
Os problemas começaram ainda em agosto do ano passado. Tal qual aquele tio solteiro de 30 e pouco anos que durante a festa de família não consegue achar assuntos em comum com os outros adultos e decide puxar papo com os sobrinhos adolescentes, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu criar uma nova categoria de Melhor Filme, destinada a premiar o melhor filme “popular” do ano. A intenção? Atrair a atenção do grande público falando dos longas que deram um bilhão de bilheteria e não do filme preto e branco em que algum ator perdeu 50 quilos pra contar a história de um refugiado. O resultado? Todo mundo achando que o Oscar estava criando uma “segunda divisão” de melhores filmes e desconsiderando o potencial artístico de certos títulos apenas porque eles fizeram mais sucesso com o público.
Vamos acabar com a nova categoria então, ok, sem problemas, esquece essa categoria, finge que nunca existiu. Mas aí aconteceu, claro, o problema com o apresentador.
Kevin Hart, um comediante de significativo sucesso nos Estados Unidos, parecia ser uma escolha segura para a cerimônia. Engraçado mas não muito ousado, carismático mas não tão famoso quanto as grandes estrelas, dificilmente marcaria época como um Billy Crystal mas as chances de que causasse um constrangimento nível “Seth MacFarlane no musical sobre já ter visto os seios de atrizes que estavam na plateia” era bem baixa. Tudo bem, certo? Não, claro que não. Vieram à tona vários tuítes e declarações homofóbicas que Hart havia feito alguns anos atrás, a internet veio abaixo, a Academia pediu que ele se desculpasse, ele se recusou, então ele decidiu que não iria mais apresentar a cerimônia, aí ele se desculpou e no meio disso ainda tivemos a Ellen Degeneres. Foi uma situação confusa.
A solução encontrada então foi não ter um apresentador mas sim vários, o que além de evitar o risco de uma nova escolha equivocada permite colocar o máximo possível de atores de filmes da Marvel no palco ao mesmo tempo. Então tudo finalmente resolvido, certo? Polêmicas superadas, categorias definidas, agora é só deixar rolar. Bem, mais uma vez a Academia decidiu se comportar como você quando bebe e entra no Instagram e tomou uma decisão desnecessária que serviu apenas para complicar a própria vida.
Isso porque 4 categorias da premiação seriam apresentadas durante os intervalos comerciais com o intuito de “ganhar tempo” e encurtar o evento. E ainda que Melhor Curta e Melhor Maquiagem sejam categorias que você já espera que sejam subestimadas pela organização, a decisão de entregar durante o “break” os Oscars de Melhor Montagem e Melhor Direção de Fotografia deixou perplexos não apenas os profissionais das áreas como também diretores, produtores e novamente toda a internet. Afinal, num prêmio sobre cinema é meio esquisito você cortar logo o pessoal que faz a filmagem e a edição do filme.
Todas essas confusões, todos esses encontros e desencontros – incluindo a decisão, também já cancelada, de apresentar no palco apenas 2 dos indicados ao Oscar de melhor canção - são obviamente fruto da mesma questão: a busca do Oscar por relevância. Como atrair um público mais jovem para um evento tão tradicional? Como tornar interessante e interativa uma noite que até então consistia em vários homens brancos velhos escolhendo seus filmes favoritos? Como fazer com que o mundo pare pra assistir uma festa que dura 4 horas?
E ainda que a Academia pareça achar que a solução para tornar o Oscar mais relevante passa diretamente por alterar categorias ou fazer mudanças na transmissão, talvez as alterações exigidas sejam menos cosméticas e muito mais no que a instituição e a visão de cinema que ela possui representam.
O preconceito da premiação com certos gêneros, como a comédia, o terror e a ficção científica, não tornou o conceito de “filme pra Oscar” sinônimo de “filme histórico muito triste”? O que precisa se tornar mais relevante é o Oscar enquanto cerimônia ou a visão que os organizadores do Oscar tem do cinema?
São essas as perguntas que a Academia precisa tentar responder, ainda que as respostas não sejam simples, não sejam óbvias e provavelmente não apareçam até a noite do dia 24, quando será realizada a cerimônia. Mas se você for ver pelo lado bom, ao menos não chamaram o James Franco para apresentar outra vez. Não é muito, mas ao menos essa lição parece que os caras já aprenderam.
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