Elenco de Reality Z, série de zumbis da Netflix (Suzanna Tierie/Netflix)

Créditos da imagem: Suzanna Tierie/Netflix

Netflix

Crítica

Reality Z - 1ª Temporada

Série da Netflix começa com impressionante e sangrenta homenagem aos filmes de zumbis dos anos 2000, mas eventualmente se perde em comentário social raso

Arthur Eloi
19.06.2020
12h11
Atualizada em
19.06.2020
12h45
Atualizada em 19.06.2020 às 12h45

A investida da Netflix no mercado brasileiro tem sido inusitada: enquanto existem séries de maior apelo, como Samantha! e Coisa Mais Linda, as produções nacionais da plataforma frequentemente flertam com o cinema de gênero. Após a distopia sci-fi de 3%, e o suspense rural de O Escolhido, é a vez de uma invasão de mortos-vivos tomar o Brasil em Reality Z.

Adaptação de Dead Set, minissérie de 2008 pelo britânico Charlie Brooker (Black Mirror), a trama acompanha um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro. Quando os mortos se levantam e tomam as ruas, o único lugar seguro na cidade é a casa do Olimpo, um reality show de confinamento onde seus participantes não fazem ideia do que acontece do lado de fora. Mesmo sendo idealizada há mais de uma década, a premissa continua forte e intrigante - especialmente após algo parecido acontecer na vida real, enquanto a edição anual do Big Brother Brasil continuou sem maiores problemas enquanto o coronavírus virava pandemia.

Reality Z parece combinar duas séries distintas. Os primeiros cinco capítulos refazem Dead Set, e mostram um alto nível de qualidade. Comandada por Cláudio Torres (O Homem do Futuro), é visível que a produção entende de cinema de gênero, e quis prestar homenagem ao zumbi dos anos 2000.

Assim, toda a estética e ritmo é moldada pela ação, velocidade e visuais saturados de videogame de produções como Extermínio (2002) e Madrugada dos Mortos (2004), de Zack Snyder. A inspiração eleva o nível de qualidade técnica, mesmo que a linguagem visual deixe a desejar pelo uso excessivo de recursos como slow motion e câmera na mão (ainda que autênticas aos filmes citados). Como um seriado inspirado nessa vertente de terror frenético e explícito, tudo se saí muito bem: o humor funciona, os diálogos soam naturais, e o sangue impressiona. Há muito carinho na confecção de efeitos práticos, que dão uma camada deliciosamente grotesca aos desmembramentos, entranhas e decapitações.

Pelo viés de “horror-ação dos anos 2000”, a série entretém com boa paródia e personagens que representam diversos clichês da cultura televisiva e sociedade brasileira. É o tipo de “sacadinha” que funciona bem quando parte de algo maior, mesmo que a busca por sobrevivência em meio ao apocalipse, fórmula testada e consagrada do gênero. Enquanto a protagonista Nina (Anna Hartmann) é interessante o bastante para carregar a trama, o verdadeiro destaque fica para Brandão, o furioso diretor boca-suja do reality show fictício vivido por Guilherme Weber. O ator se mostra tão intensamente dedicado ao papel que é surpreendente que Weber não teve um aneurisma durante as filmagens.

O problema é quando acaba a estrutura de Dead Set, e Reality Z vê que é hora de seguir por conta própria.

Nadando no raso

Para a segunda metade, o programa dá um reset, se livra de todos os seus personagens principais, e investe com tudo nos arcos narrativos mais fracos, como da arquiteta que planejou a casa do Olimpo e de um deputado covarde. Assim, um novo grupo de novos protagonistas surge e passa a ocupar o local. Rapidamente, Reality Z demonstra que evoluiu suas referências e não mira mais no espetáculo de horror dos anos 2000, mas sim no melodrama a lá The Walking Dead que se popularizou na década seguinte.

A trama deixa de ser sobre o apocalipse, e se torna sobre a “nova sociedade” que os sobreviventes pretendem construir. O deputado, medroso e se escondendo sob proteção policial, passa a se tornar mais e mais tirano ao ganhar o poder do público. Os demais sofrem com o medo e a incerteza por conta dos delírios do político. Aqui, os mortos-vivos são apenas detalhes de uma retratação da sociedade moderna. O horror sempre serviu como espelho aos males do mundo real mas, para conquistar pelo comentário político, é preciso ir além. Ao invés de aprofundar seu universo ou elenco, a série se contenta em nadar no raso com metáfora óbvias e tiradas batidas, como uma seleção para se juntar aos grupo feita com base nas aparências, tentando filtrar as “pessoas de bem”.

Desde os clássicos de George Romero há conexão entre zumbis e a crítica social, mas o cineasta era mestre em usar sua revolta como base para as histórias, atingindo um equilíbrio entre entretenimento e argumentação. O seriado porém pega as principais reflexões do gênero - de que as situações extremas apenas reforçam o pior do ser humano, e de que os vivos são a grande ameaça - e as coloca num pedestal como se, sozinhas, fossem o suficiente, ou como se fossem ideias inéditas.

A segunda metade de Reality Z volta atrás em todos os acertos da primeira. Os novos protagonistas são irritantes e estáticos, os diálogos são cansativos, e o tudo ganha um tom discursivo e moralista. Uma das personagens, por exemplo, prestes a ser vítima de uma horda de mortos, tem como última decisão gravar um vlog como recado para quem achar o celular: “Mas no fim, o que venceu foi o ódio, a mentira, o preconceito, a traição. A mesma merda de sempre”, ela diz. “Não repitam o nossos erros. Sejam melhores. Sejam mais humanos”. O monólogo apenas pega a essência do gênero, o subtexto que serve como base para tantas boas histórias de zumbis, e a entrega de bandeja para o espectador de forma simplista, como uma lição de moral.

Reality Z tem saldo positivo quando é uma produção de gênero, de alto nível de qualidade técnica. E é justamente o momento em que rejeita essa identidade, e tenta emplacar reflexões baratas, que deixa um gosto amargo na boca. Em entrevista ao Omelete, o criador e diretor Claudio Torres já havia deixado a entender a virada brusca: “É uma série que vai interessar mais gente do que os fãs de zumbi”, garantiu. Na realidade, é uma série para quem não gosta de zumbi”. O que é vendido como qualidade se prova defeito - e dos grandes.

Nota do Crítico
Bom