Anna Hartmann como Nina em Reality Z, da Netflix (Foto via Suzanna Tierie/Netflix)

Créditos da imagem: Suzanna Tierie/Netflix

Netflix

Entrevista

Reality Z | Criador e elenco falam sobre a ironia da série no momento atual

Premissa foi referenciada durante o começo de 2020, quando a casa de um reality show realmente virou um dos poucos lugares seguros em uma pandemia

Arthur Eloi
09.06.2020
16h50
Atualizada em
09.06.2020
17h01
Atualizada em 09.06.2020 às 17h01

Em 2008, três anos antes de criar Black Mirror, Charlie Brooker imaginou o quão irônico seria se a casa de um reality show de confinamento se tornasse o único lugar seguro durante uma pandemia zumbi, e assim surgiu a minissérie Dead Set. Em 2020, porém, a ideia não soa absurda, e sim muito mais irônica. Alguns meses após o Big Brother Brasil ser um dos poucos lugares seguros do contágio do coronavírus, o projeto de Brooker é resgatado na forma da adaptação nacional Reality Z, série da Netflix.

Foi surpreendente”, conta o criador e diretor Cláudio Torres (Redentor, O Homem do Futuro), em entrevista ao Omelete. “A Netflix tem uma outra série que eu gosto muito que é The Last Kingdom. Leio aqueles livros há 20 anos, e lá tem o Uhtred. O personagem tem uma frase que diz 'O Destino é Tudo'. Eu concordo. Quando a Netflix procurou a gente há quase dois anos, em 2018, propondo um reboot/remake de Dead Set, estávamos muito longe dessa situação de agora, mesmo quando filmamos. Quis o destino que a série ficasse pronta em março de 2020”.

Os paralelos são bastante válidos, ao ponto do próprio Charlie Brooker comentar as semelhanças. No Brasil, Reality Z chega num momento curioso, mas desde sua concepção a ideia é usar o retorno dos mortos-vivos como crítica e sátira ao comportamento brasileiro. Em um dos países em que o Big Brother é tão popular, vale comparar os comportamentos dentro e fora do confinamento através do exagero. “Eu já achava muito impactante o espelhamento do apocalipse zumbi com o reality, esse espelhamento de selvagerias”, coloca Guilherme Weber, ator que dá vida a Brandão, o revoltado diretor do programa-dentro-do-programa.

Já achava um tema muito sedutor para pensar no Brasil. Quando ganha essa terceira camada, de você estar vivendo uma pandemia real, acho que se torna um signo muito poderoso de você ver seus medos primitivos de fim de civilização acontecendo. O zumbi que fica batendo na janela do personagem é também o zumbi que está batendo aqui, na nossa janela real. Isso coloca numa perspectiva incômoda, assustadora, mas de alta potência de reflexão”, afirma Weber. Anna Hartmann, que vive a protagonista Nina, complementa: “O tema zumbi lida com algo que está sempre prestes a acontecer. Sinto que a sociedade que a gente vive está sempre beirando o colapso de alguma forma. Esse momento atual de quase-colapso parece que é um espelhamento perfeito, sabe?

Uma pitada de realidade

Um dos pontos que a Netflix enfatiza bastante na divulgação é a presença de Sabrina Sato. A atriz brasileira é veterana de reality shows, tendo alcançado o estrelato ao participar do verdadeiro Big Brother Brasil, lá em 2003. Em Reality Z, ela se torna Divina, a apresentadora do Olimpo, o reality de confinamento da série. Sato, assim como seus colegas, também é grande fã do gênero de zumbis. Falando sobre o arco de um deputado na trama, a atriz compara a obra com o caos da realidade: “É sobre como as pessoas encaram os medos. É impressionante como esse mesmo deputado, na série, se torna pior ainda quando está com medo. A mesma coisa acontece aqui fora com as pessoas. Tem gente que piora numa pandemia como essa, fica mais corrupta.

Para Weber, o momento todo só torna a experiência do seriado mais intensa. Discutindo sobre A Noite dos Mortos-Vivos (1968), clássico de George Romero, o ator afirma o poder do gênero em despertar reflexão. “Pandemias zumbi sempre são metáforas para a projeção dos medos primitivos locais. Você citou Romero: o quanto de comentário sobre racismo está implícito na ideia do herói negro que sobrevive aos zumbis apenas para ser morto por policiais brancos?

Especialmente agora, o espectador não está vendo uma pandemia zumbi projetada num medo irracional, mas sim está vivendo junto”, continua. “Acabou involuntariamente tendo esse sabor, esse poder negativo, infeliz. Acho que existe também algo de você perceber como, nesse momento de crise selvagem, a corrupção vai se mostrando, se organizando e criando novos subterfúgios. É um paralelo com esse Brasil muito duro e muito violento.

Lembro de uma fala de O Despertar dos Mortos (1978), do Romero, em que alguém pergunta quem são os zumbis, e a resposta é 'somos nós'. Talvez vendo esse gênero no Brasil, é possível notar que não há zumbis solitários, só o coletivo. Quem é esse coletivo de descerebrados andando pelas ruas do Brasil durante um momento de pandemia?”, conclui Weber.

Por fim, o criador Cláudio Torres afirma que as obras de zumbis podem ensinar algo sobre viver durante o caos. “Diante de uma adversidade sem forma, sem explicação, sem sentido, nós descobrimos nossa força interior, os nossos piores e melhores lados. Se tem algum recado, é: produzam. Escrevam sobre isso. Mergulhem na reprodução e na metaforização do que está acontecendo com a gente neste momento.

Com 10 episódios, Reality Z estreia na Netflix em 10 de junho.