Arte de Potências de X

Créditos da imagem: Marvel Comics/Divulgação

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Como os X-Men de Jonathan Hickman mudaram o “padrão Marvel”

Em tempos em que a sinergia entre cinema e gibis virou regra na Casa das Ideias, roteirista ousou na nova fase dos mutantes

Nicolaos Garófalo
02.11.2020
12h00
Atualizada em
30.10.2020
16h34
Atualizada em 30.10.2020 às 16h34

Ser nerd nunca foi tão fácil. Desde 2000, quando o primeiro longa dos X-Men chegou aos cinemas, Hollywood vem investindo pesado em adaptações de HQs para as telonas, tanto nas franquias multimilionárias quanto nas graphic novels de nicho, e fica a impressão de que quadrinhos e cinema se alimentam mutuamente. Acontece que desde 2012, pelo menos, a Marvel tem alterado diversos aspectos de suas HQs para alinhá-las aos filmes - um movimento que pode limitar o lado criativo da editora.

A imposição velada dessa sinergia entre Marvel Studios e Marvel Comics pode ser comprovada em três momentos: o primeiro, quando o Nick Fury caucasiano dos quadrinhos foi aos poucos suprimido em favor do Nick Fury Ultimate com as feições de Samuel L. Jackson, depois quando o Tony Stark das páginas teve a aparência modificada para que ficasse mais parecido com Robert Downey Jr., até hoje o rosto do MCU; e terceiro, quando a editora deliberadamente sufocou os títulos dos X-Men e do Quarteto Fantástico, duas de suas equipes mais tradicionais, em uma tentativa de minar as adaptações da então rival Fox, que detinha os direitos dos títulos.

Depois de quase uma década testemunhando (e me entediando) com esse alinhamento editorial, foi anunciado que Jonathan Hickman, roteirista por trás de Guerras Secretas II – último evento a realmente afetar o status quo da Marvel nas HQs – ficaria encarregado de trazer os X-Men de volta aos holofotes. Pensando na “coincidência” entre o lançamento da nova revista e a compra da Fox pela Disney, comecei a ler Disnastia X/Potências de X com certa desconfiança. Felizmente, qualquer dúvida sobre a previsibilidade dos arcos que reintroduzem os mutantes ao Universo Marvel foi apagada já nas primeiras edições.

Embora o óbvio fosse a criação de uma versão polida e enxuta dos títulos relacionados aos X-Men, uma reinvenção que facilitasse uma eventual adaptação às telas, a nova linha de gibis dos mutantes joga pro alto qualquer relação da Marvel com o cinema, trazendo uma história que é ao mesmo tempo cativante e inadaptável.

Apesar de relembrar alguns aspectos e eventos das fases de Chris Claremont e Grant Morrison, Hickman usa Dinastia X para criar um mundo completamente novo para os mutantes. O arco não só muda tudo o que conhecíamos sobre os personagens há anos, como também prioriza seu aspecto político, que está em grande sintonia com a sociedade atual. Já em Potências de X, o roteirista explora simultaneamente quatro linhas temporais, em uma trama que, embora complicada de ser traduzida para as telas e, mesmo exigindo certo investimento e boa vontade de novos leitores, se mostra convidativa a esse público, já que explica elementos essenciais da história dos X-Men, reorganizando-a com base em novos e robustos conceitos de mitologia.

Ao todo, Dinastia X/Potências de X renderam 12 edições sensacionais e abriram um leque de possibilidades a serem exploradas pelos diferentes quadrinistas que assumiram as revistas mensais dos mutantes após sua conclusão. Além da revista principal, a primeira fase trouxe títulos como X-Force, Fallen Angels, Excalibur e Novos Mutantes. Mesmo que brinque com outras peças da editora – especialmente o Quarteto Fantástico, que ajudou a reformular a partir de 2009 -, Hickman não deixou que o sucesso do Marvel Studios podasse suas ideias, desenvolvendo-as com propriedade. Passando longe da obviedade e da simplicidade entediante apresentada atualmente por alguns dos principais títulos da Marvel, ele trouxe de volta às páginas, num gesto ambicioso, o encanto pelas histórias grandiosas que os fãs da velha guarda tinham ao ler os gibis do selo X.

Os novos arcos, cuja publicação foi dividida em quatro revistas mensais pela Panini no Brasil, ignoram a estrutura hollywoodiana de roteiros (em que os filmes solo auxiliam a narrativa sazonal dos Vingadores), remetendo muito mais às revolucionárias fases dos anos 1980 e 2000 que aos forçados crossovers anuais que a editora encomenda. Além de criar momentos que com certeza se tornarão icônicos na história da franquia dos mutantes, Hickman escreveu e segue escrevendo uma carta de amor aos quadrinhos pré-universos compartilhados, em que o Universo X é complexo e se basta.

Paradoxalmente, essa reintrodução dos X-Men é também extremamente confortável para novatos na mitologia da equipe. Mesmo com todas as suas nuances, Dinastia X/Potências de X têm a paciência de explicar, de maneira bem didática cada um dos elementos apresentados, seja o preconceito dos humanos contra os mutantes e suas consequências ou as relações delicadas entre personagens antes antagônicos.

Mesmo que tenha surgido com a promessa de servir simplesmente como o retorno da franquia X-Men ao Universo Marvel, a nova fase de Hickman vai além ao fugir do óbvio em toda e qualquer escolha que faz em sua história, arte e roteiro. Quebrando completamente todos os protocolos em vigor na Casa das Ideias, Dinastia X/Potências de X é uma das HQs do catálogo mensal da editora que realmente valem a pena serem lidas.

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