Capas de Homem-Aranha: Potestade e Grandes Astros: Batman & Robin

Créditos da imagem: Marvel Comics/DC Comics/Divulgação

HQ/Livros

Notícia

O que realmente define uma HQ adulta?

Indústria tem o costume de confundir violência e sexo com maturidade

Nicolaos Garófalo
22.09.2020
19h02
Atualizada em
22.09.2020
19h19
Atualizada em 22.09.2020 às 19h19

Desde que comecei a ler quadrinhos, em um longínquo 2004, me deparo com a velha – e muitas vezes vazia – discussão sobre qual editora é melhor. Fãs de DC, Marvel, Image, Dark Horse e mais sempre aparecem com argumentos de porque o selo que publica a história do seu personagem favorito é melhor que o resto. Um argumento que sempre aparece é “empresa X sabe fazer HQ para adulto”. Essa frase, no entanto, tende a cair por terra quando a resposta é “ok, mas o que é uma HQ para adultos?”. Aparentemente, um quadrinho “maduro” precisa ter porradaria, personagens sensuais e, de preferência, uma ausência completa do humor característico da mídia.

As duas maiores editoras do mundo, aliás, são cheias de histórias clássicas para o “público adulto”, como Alias e Justiceiro: O Pelotão, na Marvel, e O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, na DC. Ainda assim, parece que alguns roteiristas se perdem na definição simplória que pede por sangue e sexo em quadrinhos “adultões” e se esquecem de realmente contar uma história madura. As infames Grandes Astros: Batman & Robin e Homem-Aranha: Potestade são exemplos perfeitos de títulos que não souberam aproveitar a oportunidade de levar alguns dos maiores personagens de suas respectivas editoras para um novo público. Além de deixarem qualquer narrativa significativa de lado, os dois títulos se apoiaram demais em quadros e diálogos bizarros, criados com o claro objetivo de apenas chocar o leitor e criar polêmica em cima de heróis populares.

Existe uma tendência muito grande nos quadrinhos – e nas mídias que os adaptam – de perder a mão ao mirar em um público maior de idade. Quase sempre que um criador precisa afirmar que sua obra é “para adultos”, o resultado parece ser apreciado mais por adolescentes pseudo-rebeldes do que por leitores maduros em busca de uma trama mais profunda. Não surpreende, por exemplo, que autores premiados como Neil Gaiman, Alan Moore, Sean Murphy e Brian K. Vaughan nunca tenham precisado avisar o público alvo de suas histórias. Mesmo quando publicados pela Max (Marvel) ou pela Vertigo (DC), eles confiam na capacidade de interpretação de seus leitores e se permitem um afastamento de frases que delimitam o público-alvo.

Debatendo sobre questões profundas como mortalidade, trauma, política, preconceito e violência policial, os principais trabalhos dos quadrinistas citados usam quadros sangrentos apenas quando absolutamente necessário para história. Sandman, meu quadrinho favorito, foca muito mais em embates filosóficos sobre realidade, bondade e responsabilidade, do que em uma troca de socos vazia. Talvez o maior clássico do Batman, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller é um retrato sobre a obsessão de Bruce Wayne com sua missão de salvar Gotham. Suas lutas com o enorme líder dos Mutantes e com o Superman são apenas consequências desta cruzada e não o foco da história. Já Watchmen, considerada por muitos a melhor HQ de todos os tempos, foi mal compreendida tanto por leitores quanto por quadrinistas, segundo o próprio Alan Moore. O Mago afirmou que o objetivo da graphic novel nunca foi levar os quadrinhos para uma direção mais sombria, mas sim fazer a indústria repensar alguns modelos que ele mesmo achava que não funcionavam mais. Em entrevista dada alguns anos atrás, o roteirista reconhece que “não foi isso o que aconteceu”,

Tramas mais maduras, aliás, nem sempre estão limitadas a selos específicos. Com Senhor Milagre, Ms. Marvel e X-Men, Tom King, G. Willow Wilson e Chris Claremont apresentaram algumas das HQs mais poderosas da história da mídia, sem nem ao menos precisar pressionar a tradicional censura T+ (equivalente a 12 anos no Brasil) de suas revistas. Grant Morrison, um dos roteiristas mais cultuados de todos os tempos, é um mestre em transformar títulos recorrentes em histórias adultas, mas nunca deixou de assumir o senso de humor e o absurdo dos mundos que comandou.

Nesses anos consumindo, debatendo e até estudando quadrinhos, descobri que a classificação indicativa das revistas tem pouco a dizer sobre o conteúdo das páginas. HQs “para maiores” já me mostraram o Batman transar em frente a corpos queimados e o Homem-Aranha beijar um cadáver, enquanto histórias “infantis” me ensinaram sobre luto e preconceito de uma maneira que poucos outros produtos do entretenimento ousaram fazer. A mídia em si tem muito mais a ganhar quando suas mentes criativas prometerem menos histórias “adultas” e entregarem tramas mais complexas.

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