Imagem de Espetacular Homem-Aranha 33/Tom Holland em Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Créditos da imagem: Marvel Comics/Sony Pictures/Divulgação

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Fidelidade visual é o suficiente para uma boa adaptação de HQ?

Entenda como filmes e séries tropeçam ao traduzir quadrinhos para as telas de forma literal

Nicolaos Garófalo
02.09.2020
19h01

Dificilmente um fã de quadrinhos fica desanimado quando descobre que seu gibi favorito ganhará uma série ou filme. É só um estúdio anunciar uma adaptação live-action que o fandom todo se une para especular elenco, diretor e a história que será levada às telas. Essa animação, no entanto, pode se tornar desconfiança nos corações de fãs mais assíduos quando fica evidente que a produção não traduzirá de forma literal o que é visto nas páginas. Mas, será que essa preocupação tem sentido? Uma boa adaptação de HQ pode ser resumida à reprodução de quadros e balões?

Embora seja uma mídia particularmente visual, o gibi é muito mais do que apenas uma coleção de imagens coloridas e frases de efeito. Como qualquer outra obra com uma narrativa, as HQs variam em gênero, tom e mensagem, de acordo com os personagens que abordam e com as equipes criativas por trás das histórias. Todos esses elementos podem ser facilmente perdidos quando um diretor ou roteirista de uma adaptação foca mais nos elementos visuais do que literários, apoiando-se mais no fan service do que em uma história sólida.

Pessoalmente, não tenho nada contra a repetição de quadros das HQs nas telas. Confesso ter me arrepiado quando o Batman de Ben Affleck recriou a icônica capa de O Cavaleiro das Trevas em Batman v Superman ou quando o Homem-Aranha de Tom Holland escapou dos destroços de um armazém em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, reproduzindo um quadro heroico de O Espetacular Homem-Aranha #33. Ainda assim, não consigo ver essas cenas como algo além de uma tentativa de distrair o público dos muitos problemas que ambos os filmes apresentam.

Da mesma forma, sinto que filmes que tomaram maiores liberdades criativas são os que se deram melhor em levar personagens para as telas. O Batman de Tim Burton, por exemplo, adapta maravilhosamente os elementos sombrios das HQs do Morcego, sem ignorar o absurdo característico das histórias de super-herói. A atuação de Michael Keaton como Bruce Wayne, aliás, faz dele meu Batman favorito até hoje, apesar de suas várias diferenças em relação à versão das páginas.

Quando penso nas adaptações de quadrinhos mais elogiadas, lembro de Scott Pilgrim Contra o Mundo, em que Edgar Wright praticamente reescreveu os volumes 5 e 6 da graphic novel homônima de Bryan Lee O’Malley, e o Homem-Aranha de Sam Raimi, que mudou vários aspectos do meu super-herói favorito. Mesmo com grandes mudanças em alguns aspectos chave das histórias que contam, as adaptações respeitaram seus materiais originais, com os cineastas responsáveis entendendo que nem tudo que funciona na página pode ser transferido diretamente às telas.

Mesmo a trilogia O Cavaleiro das Trevas, que trouxe o Batman para um cenário realista, se divertiu com os absurdos das HQs. Seja em falas como “tem em preto?” ou na construção de um sonar que usa o sinal de celulares, Christopher Nolan reproduziu elementos básicos das páginas ao mesmo tempo que deixou sua assinatura nos filmes.

Na TV, um exemplo recente de uma adaptação mais focada no tom do que no visual é Stargirl. Também inspirada em personagens da DC, a série reproduz a aura otimista da Era de Ouro dos Quadrinhos. Mesmo com uma história praticamente nova, a série se manteve fiel à essência básica das HQs da Sociedade da Justiça, publicadas desde 1940.

The Boys também é um título notável de adaptações que divergem dos gibis. Embora tenha cenas semelhantes e não sofra com falta de referências ao trabalho de Garth Ennis, a série da Amazon Studios sabe equilibrar a crítica que o autor faz à indústria de super-heróis com uma linguagem que não aliena o público recém-chegado. Elogiada, a produção chega a ser considerada até melhor que a HQ por alguns fãs.

Particularmente, gosto quando adaptações tomam caminhos originais. Embora eu não seja puritano a ponto de dizer que alguma obra é intocável, não tenho dúvida de que algumas histórias não traduzem bem para o live-action, especialmente se se prenderem demais ao modelo usado nas páginas. Além disso, se fosse para consumir mais uma vez a mesma história, prefiro reler meu gibi a desperdiçar o dinheiro do ingresso ou do streaming em um produto que vê personagens que amo apenas como uma potencial montanha de dinheiro.

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