Loki é bissexual: por que isso importa, e por que falar não é o bastante

Créditos da imagem: Reprodução/Twitter

Séries e TV

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Loki é bissexual: por que isso importa, e por que falar não é o bastante

No 3º episódio da série do Disney+, personagem de Tom Hiddleston confirmou romances com homens e mulheres

Caio Coletti
23.06.2021
15h00
Atualizada em
23.06.2021
18h20
Atualizada em 23.06.2021 às 18h20

"Um pouco dos dois". Com essa frase simples, Loki (Tom Hiddleston) "saiu do armário" no MCU, revelando aos espectadores que é bissexual. O diálogo entre o deus da trapaça e Sylvie (Sophia Di Martino) se referia ao passado romântico do personagem - ela havia perguntado se Loki, como príncipe de Asgard, já tinha encontrado "uma candidata a princesa... ou um outro príncipe". A resposta foi justamente a do começo deste parágrafo.

A cena aconteceu no terceiro episódio de Loki, lançado na madrugada de hoje (23), e já tem causado furor entre os fãs. Trata-se, afinal, do primeiro protagonista LGBTQIA+ da Marvel Studios - ainda mais notável, o escolhido foi um personagem que está entre os mais amados da franquia desde 2011, quando estreou em Thor.

Dez longos anos de espera, é verdade (Loki é bissexual nos quadrinhos há bastante tempo); e uma revelação que só aconteceu por causa do ambiente mais permissivo e inclusivo da TV, é verdade também. Mas, mesmo assim, se trata inegavelmente de um pulo à frente para a Marvel e para a mídia mainstream de super-heróis - além de um momento especialmente tocante para qualquer pessoa bi.

Não é fácil achar representatividade bissexual na mídia, mesmo dentro do já limitado mundo da representatividade LGBTQIA+. Em 2020, o estudo anual Where We Are on TV, da GLAAD, concluiu que 28% de todos os personagens LGBTQIA+ na televisão americana são bissexuais - um número que parece alto, mas que se apequena diante da realidade: um levantamento do The Williams Institute, da UCLA, verificou que 52% das pessoas lésbicas, gays e bissexuais nos EUA se identificam com este último rótulo.

Divulgação/Marvel Studios

Dito isso, números absolutos não contam a história completa. A verdade é que, mesmo quando incluem personagens bissexuais em suas narrativas, muitas produções caem em clichês falsos e perigosos: mostrar personagens bi como inerentemente mais propensos à infidelidade, por exemplo; transformar mulheres bissexuais em fetiches para o personagem hétero, que gosta de assistir ou participar da sessão de pegação delas; ou inferir que homens bissexuais estão mentindo sobre a sua sexualidade, que se identificar como bissexual é "uma pausa no caminho" para se assumir gay.

Não é à toa, claro, que esses clichês predominam na mídia - eles estão lá porque estão também no mundo real, inclusive dentro da comunidade LGBTQIA+. Frequentemente, o bissexual passa a vida se sentindo em um "não-lugar", rejeitado e questionado tanto pelo meio heterossexual, por não se encaixar às regras sufocantes dele, quanto pela comunidade que deveria acolhê-lo, mas que duvida de sua legitimidade.

Viver nesse limbo, inclusive, adoece: em 2020, o "Journal of Affective Disorders" concluiu, ao entrevistar quase mil pessoas lésbicas, gays e bissexuais, que os bissexuais reportavam uma incidência maior de depressão e ansiedade, eram menos frequentemente assumidos para familiares, amigos e a sociedade, e se sentiam menos conectados à comunidade LGBTQIA+ como um todo.

Divulgação/Marvel Studios

Isso sem nem falar nas dezenas (dezenas) de personagens efetivamente bissexuais na mídia que nunca de fato expressam essa bissexualidade no texto das produções, ao menos não fora de piadinhas e insinuações, o que relega aos criadores ou ao elenco a responsabilidade de "tirá-los do armário" em entrevistas - estamos olhando para você, Eleanor de The Good Place!

Não é o que acontece em Loki, o que só faz este momento ser mais precioso. Aqui, o diálogo entre o protagonista e Sylvie não é filmado, interpretado ou escrito como um momento de humor, como mais uma provocação entre as muitas que os dois trocam durante o episódio. De fato, ele aparece durante a única conversa honesta e sentida que os dois personagens compartilham, e as performances de Tom Hiddleston e Sophia Di Martino realçam o caráter direto do texto - Loki está dizendo que já teve romances com homens e mulheres. Ponto. Sem risadinha ou piscadela para o público.

Por isso, quando a diretora Kate Herron foi ao Twitter falar sobre a cena, não foi para confirmar que a intenção do diálogo era mesmo dizer que Loki era bissexual. Foi, ao invés disso, para celebrar o momento, até como mais uma espectadora que se sentiu representada: "[Ser bi] é uma parte de quem ele é, e uma parte de quem eu sou também. Eu sei que este é um passo pequeno, mas eu estou feliz de dizer que isso aqui agora é canônico no MCU".

Como a própria cineasta admite, no entanto, este é mesmo um passo pequeno. Mencionar de passagem que um de seus personagens é bissexual não lhe dá, automaticamente, a credencial de aliado LGBTQIA+ - é preciso, sempre, se certificar de que a história do seu personagen bissexual está sendo (bem) contada. E não, a gente não está falando de incluir uma cena de sexo em uma série da Marvel, ou mesmo um romance de Loki com um personagem masculino.

O ponto é que, se ser bissexual "faz parte de quem Loki é", esta não pode ser a única vez que isso faz diferença. Sexualidade é um elemento que entra em jogo em muitos momentos da vida de uma pessoa - quando ela está flertando, namorando e transando, claro, mas também quando está contando aquela história para um amigo (vai reclamar do ex ou da ex?), quando está assistindo a um filme ou uma série (crush no Michael B. Jordan ou na Tessa Thompson?), nas relações com quase todo mundo em sua vida e na forma como lida com elas (especialmente em um mundo onde o preconceito ainda é uma realidade).

Dizer que seu personagem é bi é uma coisa. Escrever um personagem bi é outra. Estamos prontos para as duas, Marvel - agora é com vocês!

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