Ellen Pompeo em Grey's Anatomy

Créditos da imagem: Grey's Anatomy/ABC/Reprodução

Séries e TV

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Grey's Anatomy surpreende com mais retornos impactantes

Em sua 17ª temporada a série potencializa o significado de fan service

Henrique Haddefinir
02.04.2021
10h24

Despedir-se de personagens muito marcantes faz parte dos pesadelos de qualquer showrunner. Ser obrigado a trazê-los de volta por qualquer razão que seja, também pode ser um problema. No entanto, esses adeus estão no DNA das séries de TV, especialmente em dramas procedurais, seja porque faz parte do jogo lidar com a decisão de atores de deixarem até os mais notórios dos projetos, seja porque o enredo precisa lidar com personagens que se esgotam rápido, ou então de uma simples dose adicional de adrenalina.

Grey's Anatomy fez escola nesse quesito. Conhecida por ter personagens muito carismáticos e também por se desfazer deles com especial crueldade, a série – em 17 temporadas – tem uma lista de ausências inesquecíveis para lá de extensa. Podemos dizer, inclusive, que a obra tem três eras que foram divididas por essas perdas. Até o final da oitava temporada tivemos uma era, encerrada com a partida de Lexie (Chyler Leigh) e Mark (Eric Dane). Depois disso – da nona até a décima segunda – tivemos as partidas de Cristina (Sandra Oh), Derek (Patrick Dempsey) e Callie (Sara Ramirez). Daí por diante, o elenco original se restringiu e os novos personagens foram se revezando, com a última grande despedida sendo de Alex Karev (Justin Chambers), o que, francamente, se tornou um dos maiores hematomas da série.

Desde então, Grey's Anatomy flutua numa zona entre episódios emblemáticos por razões isoladas e muitas semanas de uma fórmula esgotada, que inclui diálogos emocionados entre atendimentos (com um grande bloco deles no final do episódio) e menções ao passado, que acordam a fervorosa nostalgia dos fãs. Depois de tantos anos no ar, a série passou a respirar por aparelhos, que os seguidores se recusam a desligar porque estão sempre na expectativa de mais um mergulho nos tempos de outrora. Eis, então, que Krista Vernoff (vamos lembrar sempre que Shonda Rhymes é a Rainha Elizabeth da produção) teve a ideia de ouro que garantiu à 17ª temporada a sua posição no ranking de fan service mais longo e eficiente de toda a história da TV.


A Praia dos Espíritos

Já no começo da temporada, Meredith (Ellen Pompeo) pega Covid 19 e entra em coma. Com a possibilidade de um último ano se aproximando e depois do desastre completo que havia sido a 16ª temporada, Krista precisava de um grande destaque, um grande atrativo. Sendo assim, Meredith surge numa espécie de limbo paradisíaco, uma praia deserta, onde dá de cara com Derek, numa manobra secretíssima que parou a internet e revitalizou a audiência. Estava, enfim, armado o maior golpe de marketing dramatúrgico da produção: a cada semana (ou em semanas intercaladas), Meredith receberia uma “visita” de alguém que partiu.

Assim que o público percebeu a jogada, começaram os pedidos e Krista foi providenciando os convites. As hashtags pedindo que Lexie e Mark retornassem eram contínuas, não só porque os dois eram um casal muito querido, mas também porque a partida deles foi muito trágica (naquele questionável desastre de avião). Porém, os nomes de Chyler e Eric não apareciam na lista do IMDB que já tinha dado alguns spoilers (desmentidos pela própria Krista). Fazia sentido, já que ela está na última temporada de Supergirl e ele envolvido com Euphoria. Quando o comercial de "Breathe", o décimo episódio da temporada, revelou de cara que Lexie estaria na praia, era evidente que haveria outra surpresa nos esperando. Sim, estou falando de Mark.


Slexie

É preciso admitir que ver Mark e Lexie juntos, naquele mesmo clima de quando estavam na série, é muito impactante. Mas, como em todo fan service, tudo se resume a esperar os miolos do episódio passarem só para ver mais alguma cena entre eles. O que acontece à parte na praia não tem nenhuma importância, impacto ou relevância. Os episódios viraram literalmente vítimas do próprio oportunismo. Se considerarmos o fato de que a série tomou a decisão de explorar a pandemia, isso fica ainda mais complicado. A audiência está sempre faminta por mais aparições elusivas e o pouco que é importante ser dito foi soterrado por essas expectativas. Até mesmo as hilárias mensagens de texto que Cristina manda durante o episódio são mais emocionais para o público do que qualquer problemática entre pacientes.

Outro fato curioso sobre toda essa experiência é que estamos tão engajados em viver a catarse desses reencontros que é através deles que alguma coisa sempre faz sentido. O limbo de Meredith é cheio de beleza, verde, mar, flores e brinquedos de um parquinho infantil. Tudo é como manda o figurino: branco e ao pôr-do-sol. Mas, quando conseguimos parar de nos sentir inebriados por ver rostos tão amados que já se foram (e para os fãs aquelas são mortes em proporções lúdicas), é possível rastrear o que os diálogos querem dizer ou as lições que só os mortos poderiam ensinar (lá, da forma poética e pouco objetiva com que eles sempre falam na ficção). Esse, por exemplo, era um episódio sobre querer viver mesmo através da dor. E dor é uma coisa que Meredith conhece muito bem.

Ao mesmo tempo, até quando vamos nos deparar com esse recurso do limiar entre a vida e a morte sendo descrito nos filmes e séries como uma responsabilidade de quem está nele? São muitas as sequências em que a pessoa quase morta precisa “decidir” se ela vai voltar ou não, o que é – sejamos francos – bastante injusto com aqueles que sofrem as perdas. Fizeram isso com DeLuca (Giacomo Gianniotti), quando sua desnecessária partida foi “decidida” por ele, na forma de um “outro lugar onde se quer estar”. É bonito, poético... e clichê. Não vejo a Meredith de agora - a Meredith dessa terceira era - como uma pessoa que duvida se quer estar viva.

Por fim, a intensa presença de Mark e Lexie parece ter impulsionado a saída de Meredith da praia dos espíritos. A partir daqui, com Meredith acordada, Krista pode começar a outra lista: os ausentes vivos que passariam para uma visita. Afinal, nada seria mais impactante para o final da linha do que a volta de Cristina. Sandra Oh garantiu que isso nunca vai acontecer, mas, quem sabe se esse não é o fan service definitivo? Depois dessa temporada de Grey's Anatomy, qualquer outro veículo que invoque o uso desse termo deverá pedir licença e permissão.

No Brasil, a série é transmitida pelo Sony Channel e a Netflix tem 16 temporadas da produção.

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